Angola
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Angola: 27 de Maio 1977

A última vez que vi o José Van Duném (Zé) foi na noite de domingo, dia 22 de maio de 1977. Tinha ido passar o fim de semana a Luanda e preparava-me para regressar de carro à Gabela onde fazia treino militar com um grupo autointitulado PI (Pelotão Independente), que viria mais tarde enquadrar os órgãos de justiça de Angola.

Naquele fim de semana, a tensão política estava a chegar ao clímax. O Zé e o Nito Alves tinham sido expulsos do Comité Central do MPLA acusados de “fraccionismo”. Eu tinha relações familiares muito próximas com o Zé e a Sita Valles, viamo-nos regularmente todas as semanas.

Estávamos na casa do bairro do cruzeiro. Havia muita confusão de pessoas a entrar e sair. O Zé mantinha-se calmo, como era o seu hábito. Abraçamo-nos e ele desejou-me boa viagem. Em seguida despedi-me da São. Nesse momento, estava longe de imaginar que a minha viajem de fim-de semana a Luanda lhe tivesse provavelmente salvado a vida, pois ela estava prestes a viajar com a prima Mita para o Luena. Ela só ficou porque eu vinha a Luanda. A Mita viria a ser violada e morta no Luena com centenas de jovens angolanos.

Cinco dias depois, já na Gabela, no dia 27 de maio, estávamos a fazer a formatura das 6h da manhã quando alguém com um radio na mão começa a gritar “venham, venham, está a acontecer alguma coisa em Luanda”. Nesse altura, a Rádio Nacional de Angola transmitia o programa Kudibanguela, que tinha sido interdito, alternando músicas com pronunciamentos. O locutor informava que a emissora foi tomada e que os “camaradas revolucionários, injustamente acusados de traição e de fraccionismo, foram libertados pelo povo e pelas FAPLA”.

Ninguém do pelotão falou, ficamos horas agarrados à radio a ouvir o desenrolar dos acontecimentos até que por volta das 11h30 foram ouvidos tiros, seguidos de silêncio. Depois, uma voz em espanhol anunciou: “Al pueblo de Angola y a su máximo líder, presidente Neto, que nos encontramos ahora en la emisora del radio, combatiendo aquí, manteniendo esta posición…”.

Dispersamo-nos e fomos para as nossas casernas. Nessa altura, nenhum de nós poderia prever a tragédia que se abateria sobre Angola. Vivi de perto os acontecimentos que se seguiram ao 27 de maio.

Ao longo desses anos, as minhas memorias do 27 de maio foram sendo reinterpretadas à luz da minha própria experiência de vida. É como voltar no tempo para contar o que vivi na perspectiva do que sei hoje. É uma tarefa difícil porque provavelmente envolverá um cruzamento entre a realidade dos factos e a minha interpretação, que não é necessariamente errado, pois o 27 de maio de 1977 continua a marcar as nossas vidas, a história presente de Angola.

Quarenta e seis anos depois e com o inexorável fim da vida, a memória colectiva dos que viveram os acontecimentos vai dando lugar à memoria histórica expressa em livros, entrevistas e nos documentos da época. É desta memória que a juventude angolana se apodera na busca da sua identidade histórica.

Quem se interessa pela História, escrita com H maiúsculo, sabe que uma das grandes evoluções na disciplina foi a incorporação de temas contemporâneos na narrativa histórica, denominada História do Tempo Presente.

Pelo interesse que o tema desperta, pelos debates que alimenta e pelas emoções que gera, não há dúvidas de que o 27 de maio de 1977 faz parte da nossa História presente. A questão que se coloca é saber porque é que o 27 de maio faz parte da nossa História presente.

Hoje Angola continua o seu longo caminho para a construção de um Estado democrático de direito. É isso que faz o 27 de maio parte da nossa História presente. Os milhares de angolanos mortos no rescaldo do 27 de maio não foram mortos em confrontos armados. Eles foram presos e estavam sob a custódia dos órgãos do Estado. Foi lá que eles foram torturados, violados e mortos. As últimas execuções ocorreram em março de 1978, um ano depois do 27 de maio de 1977. Em nenhum momento as vítimas tiveram acesso a defesa, o que lhes foi, aliás, explicitamente negado.

O 27 de maio de 1977 pesa na nossa consciência colectiva como uma negação do estado de direito e violação dos direitos do homem. Talvez um dia consigamos reconciliar a nossa História presente com a nossa História passada, se, olhando para trás, tudo faremos hoje para que o mesmo não volte a acontecer. Mas, para os familiares das vítimas, sempre haverá a dor de não poder realizar o que nos perpetua como seres humanos, celebrar a vida dos que nascem e enterrar os mortos.

José Correia Nunes
Director Executivo Portal de Angola