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Como desconstruir e derrubar João Galamba no inquérito da TAP? Com as armas que ele usou desde sempre

João Galamba é o nome na origem da crise institucional, sem precedentes, entre Belém e São Bento. Entre os politólogos, as opiniões dividem-se. Há quem considere que, pelas polémicas que o fragilizam, é um “ministro a prazo”. Mas também quem defenda o oposto: de que, ao ter António Costa a defendê-lo, se tornou no ministro mais “seguro” do Governo. Se cair Galamba, também cai Costa? Para isso acontecer, os deputados da comissão de inquérito sobre a TAP devem apostar em novas polémicas e revelações
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Uma comissão parlamentar de inquérito é um ambiente que João Galamba conhece bem. Basta regressar a 2014 e 2015, àquela que se debruçou sobre a gestão do BES. Aí, o então deputado confirmava o estatuto de estrela que a internet lhe tinha atribuído e que muitas comparações lhe tem valido, até hoje, com o estilo de José Sócrates, o homem que o iniciou na política.

Ao ataque, procurando desarmar os inquiridos, incisivo e muito crítico. Era com este espírito que Galamba se sentava para as audições, confirmando a postura cultivada também no hemiciclo e restantes lutas políticas.

Mas as posições mudaram. De inquiridor a inquirido. João Galamba, agora ministro das Infraestruturas, vai dar esclarecimentos à comissão parlamentar de inquérito sobre a gestão da TAP. E os partidos da oposição, cada um à sua maneira, vão fazer questão de usar os mesmos truques que Galamba usava no passado para o tirar do sério e desarmá-lo.

“Há a questão da personalidade de João Galamba. É reconhecidamente alguém com os ânimos mais acicatados, o que faz com que seja muito apetecível [para os deputados] ser bastante assertivo, como Galamba foi em outras audições parlamentares, para que ele perca a compostura, para mostrar que não devia continuar no cargo”, antecipa o politólogo Pedro Silveira.

Os deputados vão querer desconstruir Galamba. Tentar tirá-lo do sério, passo a passo. Até o derrubar? Só o futuro dirá.

Haverá mais do que um computador roubado?

António Costa procurou, em declarações recentes, afastar a polémica com o ex-assessor de João Galamba daquilo que é o âmbito da comissão de inquérito. Roubo de computador, violência no ministério e a intervenção do Serviço de Informações de Segurança (SIS) não teriam, à partida, nada que ver com o âmbito da comissão: a gestão política da TAP entre 2020 e 2022.

“A comissão parlamentar de inquérito abrange um período que vai de 2020 a 2022 e, nessa altura, João Galamba era secretário de Estado da Energia”, sublinhou Costa.

O problema (ou não) é que a polémica e tensa relação entre Galamba e o seu ex-assessor tem muitos mais capítulos. Inclusive as acusações, sempre desmentidas pelo ministro, de que Galamba teria procurado mentir e ocultar informações relevantes à comissão de inquérito sobre a TAP. Em causa estão as notas da reunião preparatória da audição da ex-presidente executiva da companhia aérea, Christine Ourmières-Widener, antes de ser ouvida no Parlamento em janeiro.

“Há informação que não é convergente em relação ao ex-assessor. Julgo que o que deveríamos esperar desta audição era a verdade do que se está a passar relativamente ao processo que envolve a TAP, mas também a capacidade de coordenação e gestão da parte do Governo e de Galamba”, argumenta a politóloga Paula do Espírito Santo à CNN Portugal.

Galamba tem repetido e insistido que tem “todas as condições”, mas nem todos (sobretudo a oposição) concorda com esta visão. “A visão do ministro é de alguma desresponsabilização relativamente ao sucedido”, reforça a politóloga.

A expectativa é de que os deputados critiquem fortemente esta forma de atuação de Galamba, procurem perceber qual era o pendor da informação que existia no computador de Frederico Pinheiro que era considerada confidencial, enquanto procuram ainda “perceber se existem mais situações além das que já foram relatadas”, completa Pedro Silveira.

Fica a questão: haverá mais assuntos desconhecidos e/ou mal resolvidos? Só o futuro dirá.

A prazo?

São muitos os especialistas na área da comunicação que não hesitam em classificar a conferência de imprensa de João Galamba, para explicar a polémica com o ex-assessor, como o momento que acabou por precipitar algo ainda mais grave: uma crise na relação institucional entre Belém e São Bento. Foi o adeus à relação “exemplar” entre António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa.

Isto porque, perante os desenvolvimentos, para o Presidente da República não havia outra alternativa que não a responsabilização. E responsabilização, neste caso de Galamba, significava demissão. Galamba, apesar de sacudir as culpas, lá apresentou a missiva para sair do Governo. Só que Costa não aceitou. “Não procurou de forma alguma ocultar qualquer informação”, defendeu o chefe de Governo.

“Foi sempre possível acertar agulhas. Desta vez não, foi pena”, reagiria depois Marcelo, mostrando de forma categórica que não concordava com a continuidade de Galamba no Governo. Mas pode um ministro continuar em funções por muito tempo sem a confiança política de Marcelo?

“Do ponto de vista política e parlamentar, esse vai ser o principal foco da audição: as condições políticas que o ministro tem, sabendo que da parte do Presidente da República não tem a confiança política”, aponta Paula do Espírito Santo. E completa: “Galamba criou uma crise institucional. É um ministro a prazo, por não ter a confiança do Presidente e por essa confiança ser tão veemente vincada, acaba por ser um dos elementos centrais que vão fragilizar a ação política”.

É Costa que segura Galamba? Ou Galamba que segura Costa?
Visão diferente tem Pedro Silveira. A decisão do primeiro-ministro de manter Galamba, contra todas as expectativas, e erguendo um braço de ferro com Marcelo, pode significar para o ministro das Infraestruturas o extremo oposto daquilo que seria “um ministro a prazo”.

“Depois da comissão parlamentar de inquérito, a situação pode mudar. Mas diria que, neste momento, paradoxalmente, é o ministro mais seguro de todo o Governo”, sintetiza o politólogo. Porque uma queda de Galamba seria uma queda do próprio Costa – ou pelo menos, um dar à mão à palmatória sobre não ter tomado a decisão errada.

“António Costa acabou por se vincular a João Galamba. Seria muito difícil [afastá-lo] depois da defesa pública que fez”, completa. É que Costa continua a insistir que Galamba foi a “escolha certa” e a acreditar no seu desempenho positivo como ministro, por muito que o governante possa estar fragilizado aos olhos da opinião pública. Será? Só o futuro dirá.

Por Wilson Ledo