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Brazil

A história de Jorge Serpa, o maior lobista da República, por Luis Nassif

No próximo mês será lançado o livro “Walther Moreira Salles, o banqueiro embaixador e a construção do Brasil”. Trata-se da biografia que escrevi sobre ele, que me permitiu entender parte da história do país por um de seus mais ilustres personagens.

Foram três anos de entrevistas pessoais com Walther, no início dos anos 90, e dezenas e dezenas de entrevistas com personagens que ajudaram a construir a história do Brasil dos anos 30 aos 80, especialmente a era de ouro do Rio de Janeiro.

Por questão de espaço, grande parte do material não entrou no livro. Passarei a publicar semanalmente as muitas histórias paralelas que levantei.

A primeira é sobre o superlobista Jorge Serpa, recentemente falecido.

A primeira vez que ouvi falar de Jorge Serpa foi em fins dos anos 80, quando me envolvi em uma disputa pesada com Saulo Ramos, Ministro da Justiça de José Sarney.

O então advogado Eros Grau me mandou um recado através de Luiz Gonzaga Belluzzo. Que procurasse Bartolomeu Santos, para entender como funcionavam as engrenagens do poder. Saulo não era nada, apenas um advogado espertalhão ganhador de dinheiro. Mas se quisesse conhecer o poder de fato, Bartolomeu me contaria.

Conheci Bartolomeu. Era um senhor, já idoso, que começara a carreira como chefe de gabinete de Agamenon Magalhães, no governo de Pernambuco.

Depois fez parte do grupo de Negrão de Lima. Depois de 1964 tornou-se amigo dos militares do SNI. E foi a pessoa que abriu caminho para que Jorge Serpa fosse aceito pela comunidade militar.

Devotava a Serpa uma admiração incondicional, embora fosse rompido com ele.

De posse dessas histórias, certa vez fui procurador por Murilo Mendes, da Mendes Engenharia. Desde aquela época, tentava aplicar um golpe no Banco do Brasil, responsabilizando-o pelas perdas que teve no Iraque. Denunciei a manobra e Mende veio de Belo Horizonte tentar me convencer.

Aproveitei a conversa – que não foi convincente – para pedir o telefone do Serpa.

Liguei várias vezes sem ser atendido. Até que deixei um recado com o secretário: se não me atendesse iria escrever sobre ele baseado nas versões de Bartolomeu Santos.

Dias depois estava no Rio, em seu escritório. A entrevista foi em 1992. Depois disso, tive mais algumas conversas e complementei com entrevistas com vários personagens da cena carioca, como Júlio Barbero, José Luiz de Magalhães Lins, Rafael de Almeida Magalhães, Bulhões de Carvalho, entre outros.

O Rio de Janeiro dos anos 40

Rua Municipal (hoje Av. 7 de setembro)Fonte: Carmélia Esteves de CastroColeção: Jorge Herrán

Em meados dos anos 40 Rio e o Brasil já estavam sob forte processo de mudanças. A partir do Estado Novo começa a acelerar a formação do estado brasileiro. A criação do Departamento de Administração do Serviço Público (DASP) gera uma classe afluente de funcionários públicos que tinha acesso ao serviço público exclusivamente através de concursos. Forma-se também uma classe militar profissionalizada. Vargas lança as bases dessa nova classe média, ao mesmo tempo em que cria uma nova política de massas, através do PTB e da nova legislação trabalhista. Estes dois fenômenos responderiam por todas as crises políticas subseqüentes.

Esta nova classe média teria como mais forte expressão o Diário de Notícias de Orlando Dantas, que se transformou no grande porta-voz das mudanças conduzidas pelo DASP. A reforma administrativa era o mote das mudanças. Instituía-se o concurso público, construíam-se grandes prédios abrigando o Ministério da Fazenda, o Itamaraty. Conferia-se grande poder ao funcionalismo civil e militar ao mesmo tempo em que a revolução industrial criava uma nova classe empresarial e diversificava os empregos.

A nova classe média instruída criaria uma sociedade afluente, que tinha a classe alta como meta e julgava que o caminho para a modernização passava pela democracia. Mudou-se o conceito apenas quando as forças populares cresceram e quiseram ocupar espaço.

O sonho de todo carioca era conseguir um emprego no serviço público, após sua profissionalização. Jovem ainda, Serpa obteve o maior cargo público da República: o de delegado fiscal. Jamais tomou posse. Já estava inebriado pelo jogo político.

O Rio de 1945 resplandecia. Começava a se formar e se profissionalizar o estado brasileiro. Capital da República, do mundo carioca saíam os principais burocratas, os chefes militares, os chefes políticos e por lá passavam os principais políticos do país. Era uma atmosfera de personalidades que, mesmo fora dos quadros políticos, tinham uma posição extremamente influente na vida da República. Eurico Gaspar Dutra era presidente, Mendes de Morais o prefeito. Os comandantes militares reuniam-se toda a tarde no Palácio Guanabara, sede da prefeitura. Ao lado, no Palácio São Joaquim, na rua do Catete, estava a cúpula da Igreja. Lá por perto o Senado. Em torno de poucos quarteirões reunia-se o núcleo que conduzia os acontecimentos.

Negrão de Lima era Secretário de Administração do prefeito Mendes Morais.

Negrão havia desempenhado papel relevante na época do Estado Novo. Coube a ele articular o movimento de governadores que dotou Vargas poderes extraordinários. Os movimentos comunista e integralista haviam conferido ao ditador legitimidade suficiente para comandar um regime forte, de tendências modernizantes. O “curto período de 15 anos” como Vargas costumava referir-se ao Estado Novo em sua campanha pela reeleição.

Os contatos com a imprensa deram-se inicialmente através de Paulo Bittencourt, do Correio da Manhã, tido como o maior jornal da época e reunindo um grupo de jornalistas brilhantes, como Antonio Callado, Borba, Álvaro Lins, Franklin de Oliveira, Otto Maria Carpeaux, o secretário de redação Costa Rego e Jânio de Freitas, entre outros.

Bittencourt era um firme defensor da linha da audácia no jornalismo. Em suas freqüentes viagens à Europa deixava recomendações expressas ao secretário de redação Costa Rego: “Mantenha a linha de independência”.

Foi nesse ambiente que o jovem Jorge Serpa teve sua iniciação.

O jovem lobista

Jorge Serpa chegou ao Rio em 1938, vindo do Ceará.

Estudante ainda, aliou-se ao grupo do padre Leonel Franca, no Santo Ignácio, que haveria de ter muita influência sobre a política brasileira através do Centro Dom Vital.

Schmidt, maior influência política do  governo JK, era herdeiro de uma tradição política católica que teve início com Jackson de Figueiredo, intelectual de peso que fundou o Centro Dom Vital, reunindo intelectuais em torno do movimento católico. Jackson converteu Alceu de Amoroso Lima, atraiu 12 universitários para o convento de São Bento, que posteriormente tornaram-se abades. Morreu em uma pescaria, muito jovem ainda, e foi substituído por Alceu no Centro Dom Vital.

Alceu converteu Sobral Pinto, Hamilton Nogueira e Schmidt. Na sede, na praça XY, o Centro reuniu a elite católica da época, que via a escola com prolongamentos na política. Embora de formação católica, e bastante próximo a Schmidt, San Thiago não participou do Centro Dom Vital, mas juntou-se ao padre Leonel Franca.

San Thiago Dantas era a maior influência do grupo, batendo-se por uma espécie de integralismo cristão, “economia e humanismo”, inspirado no padre Leonel Franca.

Os dois discípulos mais brilhantes de Leonel Franca foram  San Thiago e Augusto Frederico Schmidt que, mais tarde, montariam os mais influentes escritórios de advocacia da época, e mantiveram por toda a vida  uma disputa surda.

Recém-formado em direito na PUC do Rio, Serpa foi chamado por San Thiago para trabalhar em seu escritório, o escritório por excelência do que se convencionou chamar de o estamento brasileiro — este amálgama de tipos que iam do alto funcionário civil e militar aos grandes empresários da época.

Ao mesmo tempo, manteve amizade com Schmidt. Tornou-se uma espécie de elo de ligação entre ambos.

Serpa herdou o forte lobby de Schmidt. Foi Schmidt quem organizou a venda da Manesmann. Em sua casa conheceu Negrão de Lima, Roberto Marinho, Julinho Barbero e Walther Moreira Salles. Através de Walther ampliou enormemente seu círculo de conhecimentos.

Desde então passou a conviver com homens 20, 25 anos mais velhos, antecipando em algumas décadas uma relação de conhecimentos e influências.

O primeiro cargo de Serpa foi o de oficial de gabinete de Mendes de Moraes, por indicação de Schmidt. Depois, participou do gabinete de Francisco Negrão de Lima, Ministro da Justiça do segundo governo Vargas e, depois, prefeito do então Distrito Federal. Com ele, o procurador Reinaldo Reis e Oswaldo M. Penido.

Foi assessorar a prefeitura junto ao Senado. Serpa manteve-se ligado ao escritório de San Thiago, acumulando com o cargo prefeitura do Rio.

Serpa herdou o forte lobby de Schmidt. Foi Schmidt quem organizou a entrada da Manesmann no Brasil. Em sua casa conheceu Negrão de Lima, Roberto Marinho, Julinho Barbero e Walther Moreira Salles. Através de Walther ampliou enormemente seu círculo de conhecimentos.

Vem daí seu início de amizade com Roberto Marinho. Nesse relacionamento inicial com o Senado conheceu o meio político da época.

Serpa e o plebiscito

Desde essa época, já era uma usina de ideias.

Dom Hélder Câmara, cearense, conhecia Serpa do Ceará. Foi Serpa quem imaginou a “Cruzada São Sebastião” e a “Feira da Previdência”, com idéias de Lebret e Jacques Maritain, que acabou fazendo de Dom Hélder um líder político.

O movimento São Sebastião, de erradicação de favelas, contou com apoio de Walther Moreira salles e Roberto Marinho. D. Helder era uma das pessoas mais influentes junto a Roberto Marinho.

A influência de Serpa foi mantida no governo João Goulart. No começo, tornou-se o homem de Schmidt junto a Jango. Schmidt acabou se retraindo no período janguista devido a problemas ideológicos. Serpa ficou até o último instante com Jango. Inclusive foi o autor do histórico discurso na Central do Brasil, que marcou o fim do governo Jango.

Ele, Wainer, José Luiz de Magalhães Lins, Antonio Balbino, e Paulo Ferraz, compuseram grupo que se juntou na campanha do plebiscito. Quem pedia dinheiro era Ney Galvão, que chegou a presidente do Banco do Brasil.

O plebiscito foi a primeira campanha política moderna no Brasil. Utilizou todos os sistemas de difusão, rádios, televisões.

64 tenta envolver Serpa e Walther

Quando a Manesmann se instalou no Brasil, no governo JK, Serpa acabou assumindo a diretoria financeira, por indicação de Schmidt. Na Manesmann, passou a ser o homem forte do grupo Schmidt.  Era um diretor financeiro sui generis. Com pavor de avião, passava a maior parte do tempo no Rio de Janeiro.

Ai começou a dar asas à imaginação. Não havia mercado de capitais, praticamente não havia cheques. As empresas começavam a se preparar para lançar letras de câmbio e bônus. Não havia fiscalização. Serpa emitiu letras de cambos para a Manesmann a passou a enviar dinheiro para o exterior.

Estourou o escândalo quando descobriram que eram letras de câmbio frias.

Devido a esse episódio, e ao envolvimento com Jango, golpe de 64 foi bastante duro com Serpa. Os amigos que o visitavam encontravam um apartamento vazio. Até as cadeiras haviam sido arrestadas no julgamento. Todos seus bens foram colocados em nome de parentes. No apartamento devassado restou apenas um quadro de Lula Ayres, em nome de terceiros, e uma estátua de São Miguel.

Através de Serpa, tentou-se atingir Walther Moreira Salles. Homero Souza e Silva, o braço direito de Walther, foi depor no inquérito aberto contra Jorge Serpa na Delegacia de Furtos. Nemias Gueiros apresentou-se como advogado. Queriam saber se Homero havia encontrado Serpa na casa de Walther. Era uma pergunta aparentemente ingênua. Mas, antes que respondesse, o delegado abaixou o tom da voz e alertou-o:

– Pelo amor de Deus, não cite o nome de seu amigo.

A pergunta havia sido incluída no interrogatório apenas para criar um motivo legal para levar Walther à delegacia e incluí-lo no inquérito.

Walther não abandonou o amigo. Na fase inicial, Serpa ia até sua casa buscar dinheiro para sobreviver. Mais tarde, quando o quadro político complicou, Walther enviava a ajuda através de Homero Souza e Silva.

A delação premiada

No governo Costa e Silva, Jorge Serpa estava na pior, com os bens seqüestrados.

Caindo Costa e Silva, o primeiro ato da Junta Militar foi livrar Serpa do caso Manesmann. O chefe do Departamento de Economia do SNI era o comandante José Thomé Thedim Lobo, considerado muito influente.

Foi o homem que preparou o relato ao SNI sobre o caso Manesmann, que livrou Serpa.

O caso Manesmann juntou de um lado Saulo Ramos, Frederico Marques e Fernando Veloso, como advogado da empresa. Tendo por trás Thedim Lobo, houve um acerto com Saulo Ramos. Serpa ficou isento da responsabilidade sobre as letras de câmbio frias. No final, a Manesmann assumiu a responsabilidade, e a Fazenda Pública retirou a denúncia.

Quando assumiu como Ministro, Delfim não tinha conhecimento sobre o esquema de poder carioca. Tirou de Roberto Campos parte de sua assessoria, incluindo José Maria Villar de Queiroz.

Queiroz tornou-se peça central do grupo de Delfim, articulando as relações com a comunidade financeira internacional e com os grupos de poder do Rio de Janeiro.

Villar tentou uma aproximação de Serpa com Delfim, mas viu-se sem forças para alterar as resistências dos serviços de segurança. Nesta ocasião, um amigo comum a Serpa procurou Bartolomeu Santos e pediu uma aproximação com o SNI. Santos era amigo de Medeiros, Kruel e outros generais de 64. Da conversa com Serpa fechou-se um acordo pelo qual o advogado se comprometia a entregar documentos de seu extenso arquivo, mais do que aqueles relativos ao caso Manesmann, que havia sido o motivo da perseguição militar contra Serpa.

A confissão de Serpa não poupou quase ninguém, nem mesmo o protetor Walther. Na frente de Santos, Serpa informou que Walther tinha know how adquirido da China, através do empresário Wai Cheng. Por detrás de si, teria o grupo Rockefeller. Na verdade, relações comerciais normais, que Serpa transformava em relatos conspiratórios.

Nome bastante influenciado por Serpa foi Israel Klabin, que tinha bons contatos com o senador Jacob Jevits, um dos baluartes do poder judaico em Nova York.

Sua influência continuou nas décadas seguintes. O famoso discurso de Garrastazu Médici sobre o país foi obra dele.

Nas primeiras eleições presidenciais, coube a ele cunhar a expressão “choque de capitalismo”, com a qual a Globo asseguraria apoio a Mário Covas. Não colou.

No governo Fernando Henrique Cardoso, era constantemente chamado a Brasília, para que o presidente indagasse dele quem tinha sido maior, se FHC ou JK – conforme esse narrava, morrendo de rir.

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