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Com homenagens a Moa do Katendê, abertura da Flica debate intolerância

Em sua segunda vez na Bahia, um dos mais importantes autores da literatura portuguesa contemporânea, Valter Hugo Mãe, 47 anos, fez questão de mostrar sua preocupação com o Brasil, país com o qual tem fortalecido a relação. “Venho nessa altura com alguma ansiedade para cá. Acho muito importante que as próximas coisas que aconteçam por aqui sejam de paz. Que nós possamos conversar e expor nossas consciências de boa fé”, pontuou o escritor, ao iniciar sua fala na abertura da Festa Literária de Cachoeira (Flica) nesta quinta-feira (11).

(Foto: Ricardo Prado/Divulgação)

A mesa, intitulada de Escritores em um Mundo Intolerante e Deserto de Compaixão, teve ainda participação do autor baiano Aleilton Fonseca e mediação do diretor da Fundação Pedro Calmon (FPC), Zulu Araújo, que falaram sobre o contexto violento que vive o país e destacaram a importância da literatura para combater o preconceito e o ódio.

“Seria mais confortável se ser escritor não implicasse na utilização da voz pública. É inevitável que o que a gente escreva não afete a praça. O nosso grande desafio é a deturpação, as pessoas interpretarem mal. Estar nessa praça pública nos obriga a ter a coragem da frontalidade. Não dá para a gente fazer de conta que não viu. Ser escritor em um mundo intolerante implica na coragem. Se alguém puder destruir a minha pessoa, que esse alguém seja eu”, afirmou Valter Hugo.

Valter Hugo Mãe, Zulu Araújo e Aleilton Fonseca
(Foto: Ricardo Prado/Divulgação)

Para Fonseca, o escritor é aquele que materializa a realidade, a partir do seu dia a dia, vivências, visão de mundo e também a partir do que ele aprende e se sensibiliza. Durante o bate-papo, o baiano afirmou que considera a literatura uma forte ferramenta na formação de novas gerações. “Quando nós, que viemos de vários lugares, nos unimos para falar de literatura, podemos crescer individualmente, como pessoas, e como humanidade, apesar de todos os problemas. A tolerância e a compaixão são condições do ser humano. Não podemos abrir mão disso. Como filhos do mesmo princípio, a vida, precisamos conviver com o direito de ser”, disse. 

Baiano considera a literatura uma forte ferramenta de educação
(Foto: Ricardo Prado/Divulgação)

Valter Hugo Mãe concordou, e acrescentou que utiliza a escrita e a poesia para dar substância a uma determinada consciência, com a qual não tem muito controle. “Quero muito que o mundo seja melhor. É com muita perplexidade que vejo o mundo piorando a passos largos. Sou essa pessoa que um dia quis muito salvar e mudar o mundo. Tive esse sonho, mas hoje tenho a percepção de que não há essa força em um só homem. Mas também não consigo viver sem esse sonho. Por mais que eu possa me desiludir, não aceito perder completamente a ilusão. Não aceito desistir”, completou.

Acompanhe a cobertura completa da Flica 2018

Apesar da visão otimista, o português considera que estamos vivendo em um mundo cada vez mais intolerante, onde o cidadão comum, que virou emissor através das redes sociais, revela uma despreparação grave. “A intolerância cria no indivíduo a sensação de ficar impune, como se aquilo que ele critica dissesse respeito apenas aos outros e ele pudesse passar de fininho, diante de toda a porcaria que ele próprio permite. O que admitimos faz parte do nosso mundo e vai seguramente sujar a nossa vida. Por isso, a intolerância não é uma opção. É uma espécie de burrice”, falou. 

Segundo Aleilton, a intolerância é um defeito da cultura humana e no mundo atual se tornou ainda mais preocupante. "Nós vemos a todo momento atos de ódio e isso é muito ruim para a nossa civilização. Precisamos parar e refletir sobre humanidade e compaixão. Só assim seremos um país mais desenvolvido. Todos temos diferenças e precisamos conviver e ter em mente o bem comum", defendeu.

No evento, teve espaço ainda para falar sobre a obra dos dois autores. Citando o livro A Máquina de Fazer Espanhóis (2010), Zulu Araújo questionou a Valter Hugo Mãe como ele consegue trazer personagens de forma tão humana. O autor respondeu que todos os pessoas que entram em seus textos são inteligentes. Para assuntos mais polêmicos, ele prefere criar personagens imaginários. “Faço isso com referências reais. No caso de assuntos mais delicados, invento gente que não é gente. É muito doido como a realidade pode copiar a literatura também. Muita gente vem falar comigo dizendo que descrevi suas vidas, mas muita coisa é fruto da minha imaginação”, explicou. 

Ele também mostra nessa e em outras obras que ninguém é uma coisa só. Valter Hugo destacou que esse livro, de 2010, inclusive, fala sobre a perplexidade de conhecer um povo democrata que foi capaz de ser conivente com a ditadura salazarista: “Mostro que os democratas também podem ter uma face fascista. Um dos perigos da ditadura é que ela convence as pessoas de que é algo normal. Vai se instaurando no ambiente e vão acreditando que é aquilo mesmo, que têm que seguir a figura do ditador”.

(Foto: Ricardo Prado/Divulgação)

Questionado por Zulu sobre o contexto local de suas obras, que também costumam trazer críticas sociais, Fonseca disse que é papel da literatura questionar uma certa glamourização que existe da diversidade da Bahia. “É preciso pensar Salvador com olhos na sociologia, na história. Não podemos simplesmente comprar a ideia de uma capital baiana das viagens, das festas e do Carnaval”, destacou.

Homenagens
Falando de intolerância e democracia, o idealizador e realizador da Flica, Emanuel Mirdad, fez questão de agradecer a presença da escritora mineira Conceição Evaristo, homenageada da oitava edição da Flica. Em discurso potente, a secretária de Cultura da Bahia, Arany Santana, afirmou que “Conceição nos representa”. Também afirmou que “as aguas estão cor de chumbo”: “Digo isso porque, no último domingo, perdemos um desses seres de luz que vem para a terra iluminar àqueles que fazem da cultura o seu oficio. Refiro-me ao mestre Moa do Katendê. Não podemos nos abater. Não devemos nos intimidar, muito menos recuar, nem reduzir nosso entusiasmo pela paz, pelo amor e pela democracia”.

Conceição Evaristo, homenageada da oitava edição da Flica
(Foto: Ricardo Prado/Divulgação)

Zulu Araújo também homenageou o artista morto recitando Badauê: "Misteriosamente / O Badauê surgiu / Sua expressão cultural / O povo aplaudiu. Viva Moa do Katendê!".

O curador da Flica, Tom Correia, explicou que a programação da festa está marcada pela diversidade, representatividade e pelo ecletismo. Feminismo e negritude são temas que estarão em pauta com frequência. “As mulheres precisam ocupar espaços de visibilidade. Divirtam-se”, desejou.

O prefeito de Cachoeira, Tato Pereira, destacou que a Flica é a segunda maior festa literária do país – só fica atrás da Flip, de Paraty – e que é o evento mais importante da cidade. “Cachoeira respira a festa. Primeiro porque é um evento cultural. Segundo, porque há muita geração de renda. É um evento que, sem dúvidas, merece nossa atenção”, afirmou. A prefeitura de Cachoeira investiu R$ 100 mil no evento e, segundo Tato, isso se retorna em mais de trinta vezes para a população. 

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