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Covid-19 um ano depois: Mandetta e Teich analisam momento de extrema gravidade

Matheus Adler/ Estado de Minas

 (crédito: Editoria de ilustração)

(crédito: Editoria de ilustração)

Eles já estiveram no “olho” de um furacão que parece não ter fim. Ex-ministros da Saúde, Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich fizeram parte do governo de Jair Bolsonaro durante parte da pandemia do novo coronavírus. Desde o primeiro caso da doença, em 26 de fevereiro do ano passado, até a demissão de Mandetta, em 16 de abril, passaram-se 51 dias. Teich, o sucessor, ficou apenas 28 dias no cargo e jogou a toalha por ver algumas de suas decisões contestadas por pessoas que nada sabem sobre saúde.

Nesta entrevista, os dois médicos traçam o caminho da crise e falam de temas como a postura do presidente da República ante a covid-19 e a pressão sofrida pelo sistema de saúde. Apesar de divergirem em vários pontos, convergem quando avisam que o momento atual é de extrema gravidade — o Brasil superou, ontem, a marca de 251 mil mortos pelo novo coronavírus e estados começam a adotar medidas restritivas para evitar a propagação da covid-19, enquanto a vacinação segue a passos lentos e as doses de vacina são somente projeções do Ministério da Saúde. Para Teich e Mandetta, a imprevisibilidade do vírus é fator que dificulta a resposta à pandemia –– algo, aliás, reconhecido pelo sucessor de ambos na pasta, o general Eduardo Pazuello.

O que o senhor faria de diferente se soubesse o que se sabe agora, um ano depois, sobre o vírus?

MANDETTA – Se tivéssemos as informações da China e da Organização Mundial de Saúde (OMS), de que o vírus era altamente contagioso — e não aquilo que mostraram no começo, de que era um vírus lento e pesado —, teríamos redimensionado a testagem. Essa era a grande informação que a gente precisava ter naquele momento. O resto foi processo de trabalho.

TEICH – O tempo de execução tem que ser rápido, e é preciso se comunicar muito bem e muito rápido com a sociedade, com todos os envolvidos no processo. É preciso levar em conta o quanto o sistema de saúde consegue cuidar, porque muito das situações muito graves de hoje são de lugares que já estão no limite de atendimento. Tem de haver comunicação muito forte entre estados, cidades e governo federal.

O Brasil atravessa o pior momento da pandemia. Há um mês, a média móvel de mortos está acima de mil, enquanto algumas capitais têm quase 100% de UTIs ocupadas. O que deu errado?

MANDETTA – O governo errou quando sabotou o planejamento inicial de proteção, estimulou que se arriscassem e levassem a doença para suas casas. Contaminaram pais, mães e familiares em nome de um comportamento que o presidente estimulou. Fecharam leitos de UTI que tínhamos habilitado. Pararam de pagar a partir de outubro, achando que a doença tinha terminado. Estimularam as pessoas a acreditar que, se tomassem remédios sem comprovação, teriam solução benigna. Isso é a maior mentira mundial, só o Brasil e seu presidente para fazer isso. Não adquiriram as vacinas em agosto, setembro ou outubro, quando foram oferecidas. Agora, correm atrás de vacinas que ainda não têm a fase três (de testes), em vez de negociar com aquelas (em estágio avançado). Perderam o timing. São basicamente as famílias lutando com as armas que têm.

TEICH – A pandemia mostrou a fragilidade de todos os sistemas, não só no Brasil. A capacidade de lidar com essa pandemia não é do tipo “se tivesse feito um esforço um pouco maior, tinha dado tudo certo”. Não é isso. Aqueles que conseguiram controlar a transmissão foram melhores, pois evitaram alto número de doentes. Quem não consegue fica sobrecarregado. A covid-19 mostra que os sistemas de saúde têm que ser realmente revistos. Não é para justificar, não quer dizer que o Brasil está indo bem. É para mostrar que isso é um problema mundial.

Qual a responsabilidade do presidente Bolsonaro ante os mais de 251 mil brasileiros mortos em um ano de pandemia? Parte dos óbitos era evitável?

MANDETTA – Ele vai carregar isso nos livros de História, sempre. E deve levar isso, também, para seu travesseiro e sua consciência. A gente sabe que muitas vidas poderiam ter sido poupadas e que outras poderiam ter sido perdidas. Mas entregar o jogo no primeiro tempo? Não lutar e entregar a vida das pessoas em nome de um falso dilema entre economia e saúde? Deixar as pessoas à própria sorte dizendo “elas que se contaminem, pois quero imunidade de rebanho”? Isso daí é de uma maldade antes de qualquer coisa.

TEICH – Não tenho como responder com precisão. As pessoas, hoje, têm uma tendência de tentar achar uma razão de culpa ou um culpado. Isso é muito ruim, porque gera polêmica e conflito. É a política falando acima da técnica.

Qual o cenário para os próximos meses? Sentiremos o impacto das variantes e teremos uma megaepidemia?

MANDETTA – Vivemos uma megaepidemia com viés de alta. A velocidade com que o vírus está se propagando é muito mais rápida que a velocidade da vacinação. Você vai vacinando e convivendo com a doença. As pessoas vão tendo a sensação de que a vacina já chegou e, por isso, podem fazer tudo. A vacina está servindo de álibi e as pessoas estão querendo suas vidas de volta, o que é legítimo, mas antevejo aumento, ainda maior, do número de perdas.

TEICH – Todas as previsões feitas no começo deram errado, pois é muito difícil saber, na prática, o que vai acontecer. Depende da existência de novas variantes, da eficácia das vacinas, da rapidez de modificação delas para pegar novas variantes e da capacidade de manter pessoas isoladas. As previsões não podem ser tomadas como verdade, pois, às vezes, relaxa-se um pouco. A única coisa que não pode ser feita em momentos como esse é relaxar.

Grandes cidades brasileiras estão próximas do colapso, estados nunca estiveram em situação tão difícil. O que é possível fazer agora?

MANDETTA – Proteja-se, não se exponha e não saia de casa, se possível. Se sair, guarde distância de três metros das pessoas. Use máscaras, lave as mãos muitas vezes ao dia, evite aglomerações. Não pense que é um passeio no parque. É uma doença grave e que não tem previsibilidade. Tendo a oportunidade, vacine-se. Pena que este governo é tão ruim e não está entregando as vacinas ao SUS, que tem uma das maiores experiências do mundo em sistema de vacinação. Temos uma Ferrari e um motorista de Toyota Bandeirante que não pôs gasolina para a Ferrari andar.

TEICH – É a mesma coisa que tinha que ter sido feita antes. A transmissibilidade tem de ser controlada usando máscara, distância, ambiente aberto e lavagem de mão. Em situações muito críticas, é preciso atitude mais radical, de deixar as pessoas afastadas. Idealmente, seria preciso um programa de controle de transmissão. Na época de governo, queriam saber se era horizontal ou vertical, e eu dizia que o importante era rastrear, pegar a pessoa que teve covid-19, mapear contatos, isolar e fazer quarentena.

O presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), disse numa entrevista que “o ministro Pazuello se comunica muito mal. Eu costumo dizer que, se a gente tivesse o Mandetta comunicando e o Pazuello trabalhando, a gente tinha a dupla ideal”. O problema no ministério é de logística ou de comunicação?

MANDETTA – É de incompetência. Se eu estivesse no Ministério da Saúde, ele (Pazuello) não seria da minha equipe de trabalho. Ele não sabe trabalhar a saúde. Cada um no seu quadrado. Não sei pilotar avião; não adianta me colocar lá, pois terei a autocrítica de falar que, se eu pilotar, vou derrubar a aeronave e matar pessoas. Ele é de Exército. A logística dele é para comprar botinas e coldres, montar barracas. Ele quer matar o inimigo dele. E, no caso da saúde, não é assim. Ele não tem a competência para isso, não sabe trabalhar a saúde.

O que o senhor gostaria de ter feito no ministério e não conseguiu?

TEICH – Não foi frustração, até porque fiquei pouco tempo e o que eu tinha que fazer, comecei a fazer ali. A gente começou a discutir programa de testagem, programa de distanciamento, uma revisão da linha de cuidado –– e aí não tem nada a ver com remédio, tem a ver com oxigênio, fisioterapia, internação. Visitar os lugares era fundamental. Um projeto que teria que ser um projeto mais de Estado do que de governo era um programa para reestruturar todo o sistema de informação. No período em que eu estive lá, a ideia era começar um grande programa de informação para termos um sistema mais robusto. A informação tem uma vantagem enorme. Ela te permite fazer um diagnóstico do problema. Se for bem-feito, a solução é quase que uma evolução natural, porque você sabe onde está tendo problema e a solução é resolver alguma coisa que atue naquele problema.

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