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O legado da educação popular brasileira de Paulo Freire. Por Luiza Russo

Paulo Freire. Foto: Reprodução/YouTube

Publicado originalmente no Site do MST:

Por Luiza Russo

Quando se fala em educação no Brasil — e até mesmo no mundo —, há um nome que salta aos olhos pelas conquistas, trajetória e, sobretudo, pela contribuição para a pedagogia. A filosofia de Paulo Reglus Neves Freire (Recife, 19 de setembro de 1921) foi um dos pilares da educação libertadora e popular, para o modelo político de boa parte dos partidos de esquerda no Brasil e, sem dúvidas, para a formação ideológica do Movimento Sem Terra.

Criador da pedagogia crítica, tinha como ideal uma educação livre, na qual o educando cria e trilha seu próprio caminho, distante da educação alienante e “imparcial” que muitas vezes se faz presente no discurso do opressor — diálogos hoje comuns e que são responsáveis, por exemplo, pela criação do projeto Escola Sem Partido.

Na visão de Freire, a educação é feita com o povo, com os oprimidos ou com as classes populares. “Daí a denominação ‘educação popular’, porque traz como concepção uma educação libertadora, que ao mesmo tempo é a nossa lógica do conhecimento, mas não só. Também é política, é ética, promovendo novas relações sociais”, ressalta Rubneuza Leandro de Souza, que atua no Setor de Educação do MST, no assentamento Normandia.

De advogado a filósofo mundialmente reconhecido

Paulo Freire nasceu em Recife (PE), em 19 de setembro de 1921. Hoje, se estivesse vivo, faria 99 anos. Apesar de vir de uma família de classe média, vivenciou a pobreza e a fome na infância durante a crise de 1929. Em 1943, entrou para a Universidade do Recife para cursar a Faculdade de Direito, mas também se dedicou aos estudos de filosofia da linguagem.

Foi no início da década de 1960 que se tornou diretor do Departamento de Extensões Culturais da Universidade do Recife. Em 1961, realizou as primeiras experiências de alfabetização popular, os primeiros passos para a constituição do Método Paulo Freire. Entre elas, uma notória conquista no Rio Grande do Norte, em 1963, quando ensinou 300 adultos a ler e a escrever em 45 dias. Na época, havia desenvolvido um método inovador de alfabetização, adotado a princípio em Pernambuco.

Esse foi um dos motivos pelo qual, já algum tempo após ter publicado suas primeiras obras, sofreu daquele que foi o mal mais comum aos filósofos, músicos e grandes pensadores durante os anos de chumbo no Brasil: o exílio.

“Nesse período, o Paulo Freire nem conseguiu enterrar a mãe. E ele foi exilado, na época, por ser considerado subversivo, por transformar a alfabetização de jovens e adultos em lutas por mudanças sociais, sujeitos críticos”, comenta Sônia Maria Roseno, educadora Popular e pesquisadora em Educação do Campo, do Setor de Educação do MST.

Em 1969, após a publicação de “A Pedagogia do Oprimido” — que não foi publicado no Brasil até o ano de 1974 —, Freire foi convidado para ser professor visitante da Universidade Harvard. Alguns anos mais tarde, atuou como consultor em reforma educacional nas colônias portuguesas na África, particularmente na Guiné-Bissau e em Moçambique.

“No final da década de 70, o pensamento de Paulo Freire, expresso na educação popular, foi de grande relevância para o surgimento de importantes organizações que emergiram como instrumento da classe trabalhadora. Entre esses, o Partido dos Trabalhadores (PT). Até então, a gente tinha partidos de quadros, como o Partido Comunista Brasileiro (PCB) e Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Também surgiu a Central Única dos Trabalhadores (CUT), como um instrumento importante de combate ao sindicalismo pelego”, comenta Rubneusa.

Quando retornou do exílio, Paulo Freire ainda publicou uma somatória de mais de 20 obras sobre a educação libertadora e crítica, como uma forma de luta a qualquer tipo de opressão. Paulo Freire faleceu no dia 2 de maio de 1997, vítima de um ataque cardíaco devido a complicações em uma operação de desobstrução de artérias.

Um governo que não reconhece o patrono da educação brasileira

Pelo menos 35 universidades ao longo do globo fizeram homenagens a Paulo Freire, o que o consagrou como o brasileiro mais homenageado da história. Além disso, recebeu diversos galardões, como o prêmio da UNESCO de Educação para a Paz, em 1986.

Dentro do governo de Jair Bolsonaro, no entanto, isso parece pouco importar. Em um governo que diz priorizar uma educação imparcial e inferioriza a educação libertadora e popular, o pensamento de Paulo Freire foi alvo de linchamento.

Para Sonia, o motivo dos ataques não está inserido na pessoa física de Paulo Freire, mas no pensamento que o filósofo propagou: “do que eles [Governo Bolsonaro] têm mesmo horror é ao pensamento, ao ideário freireano. Por que o corpo morre, a matéria se interrompe, pessoas são esquecidas, mas o pensamento, não. O pensamento não pode ser esquecido”, comenta.

A aversão de políticos como Jair Bolsonaro pode ser explicada também pelo poder de transformação do pensamento freireano. Sonia ressalta que a realidade molda e alimenta a filosofia de Paulo Freire, sendo assim, momentos como os vividos agora são sistemáticos para a transformação, não só pedagógica, da classe trabalhadora: “esse governo tem horror ao pensamento libertador de Paulo Freire porque faz parte do sistema opressor. E o pensamento freireano é o contrário de tudo isso, quanto mais lutamos, mais estudamos para mudar uma realidade e mais temos poder de transformá-la”, conclui.

Um legado permanente para o MST

Para o Movimento Sem Terra, a ideologia de uma educação livre e popular foi fundamental para a criação de uma série de projetos pedagógicos das escolas no campo. E, por esta razão, todas as escolas do Movimento Sem Terra seguem uma proposta pedagógica baseada na educação de Paulo Freire.

“O pensamento freireano segue contribuindo com o MST e com a Educação do Campo porque o pensamento de Freire é o pensamento do povo Sem Terra”, destaca Sônia Roseno.

Mas dizer que o pensamento freireano é o pensamento do povo Sem Terra significa dizer ainda mais que as barreiras da escola é o ideológico do trabalhador do campo: “o MST assume como tarefa a defesa da educação popular como um legado dos trabalhadores na formação política da classe, tomando essa educação como instrumento de luta na perspectiva da emancipação humana”, completa Rubneusa.

Sendo assim, não há discurso de ódio ou linchamento que apague o que foi construído por Freire. Agora, portanto, esse pensamento é ainda mais claro, Paulo Freire veio ao mundo como ser humano físico e deixou nele um legado permanente: a vontade de continuar lutando contra todas as formas de opressão, porque não há saber mais ou saber menos, há saberes diferentes e transformadores.

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