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Putin, cruzados e bárbaros

A OTAN civilizada pode querer repensar como começar uma luta com os herdeiros colaterais do Grande Khan, reflete o jornalista Pepe Escobar

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Por Pepe Escobar, para o Asia Times

Tradução de Patricia Zimbres, para o 247

Moscou está dolorosamente consciente de que a "estratégia" Estados Unidos/OTAN de contenção da Rússia já está perto de atingir níveis frenéticos. Mais uma vez.

Nesta última quarta-feira, em uma reunião muito importante do conselho do Serviço  Federal de Segurança, o Presidente Putin colocou a questão em termos extremamente duros:

Estamos enfrentando a chamada política de contenção da Rússia. Não se trata de concorrência, que é algo natural nas relações internacionais. Trata-se de uma política consistente e bastante agressiva visando a desorganizar nosso desenvolvimento, desacelerando-o, criar problemas ao longo de nosso perímetro externo, desencadear instabilidade interna, minar os valores que unem a sociedade russa e, finalmente, enfraquecer a Rússia e colocá-la sob controle estrangeiro, da exata maneira que estamos vendo acontecer em alguns países do espaço pós-soviético.

Não sem um toque de malícia, Putin acrescentou que não se tratava de exagero: "De fato, vocês não precisam ser convencidos, já que vocês têm perfeito conhecimento disso, talvez melhor que ninguém".

O Kremlin tem plena consciência de que a "contenção" da Rússia concentra-se no seu perímetro: Ucrânia, Geórgia e Ásia Central. E que o objetivo último continua sendo a mudança de regime.

As observações de Putin podem também ser interpretadas como uma resposta indireta a uma parte do discurso do Presidente Biden na Conferência de Segurança de Munique (Aqui vai uma excelente análise, em russo).

Segundo os redatores dos discursos de Biden:

Putin pretende enfraquecer o projeto europeu e a aliança da OTAN uma vez que é muito mais fácil para o Kremlin intimidar países individualmente do que negociar com a comunidade transatlântica unida (...) As autoridades russas querem que outros pensem que nosso sistema é tão ou ainda mais corrupto.

Um canhestro ataque direto e pessoal contra um chefe de estado de uma grande potência nuclear não se qualifica exatamente como diplomacia sofisticada. Pelo menos, mostra de forma escancarada que a confiança entre Washington e Moscou se vê agora reduzida a menos que zero. Da mesma forma que os manipuladores do Deep State de Biden se recusam a ver Putin como um parceiro com quem valha a pena negociar, o Kremlin e o Ministro das Relações Exteriores já descartaram Washington como sendo "incapaz de negociações".

Mais uma vez, a questão central é a soberania. A "atitude hostil à Rússia", como Putin a definiu, estende-se a outros centros independentes e soberanos do desenvolvimento global". Leia-se China e Irã, principalmente. Esses três estados soberanos são classificados como as principais "ameaças" pela Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos.

Mas a Rússia é o verdadeiro pesadelo dos excepcionalistas: cristã ortodoxa, simpática portanto a grande parte do Ocidente; consolidada como uma grande potência eurasiana, uma superpotência militar e hipersônica; e capaz de habilidades diplomáticas sem rival, admiradas por todo o Sul Global.

Por outro lado, muito pouco resta ao Deep State, exceto a infindável demonização tanto da Rússia quanto da China, para justificar a escalada militar ocidental, a "lógica" inerente no novo conceito estratégico denominado NATO 2030: United for a New Era (OTAN 2030: Unidos por uma Nova Era).

Os especialistas responsáveis pelo conceito o saudaram como uma resposta "implícita" ao presidente francês Emmanuel Macron, que declarava que a OTAN sofrera "morte cerebral".

Bem, pelo menos o conceito prova que Macron tinha razão.

Esses bárbaros do Oriente 

Questões cruciais relativas à soberania e identidade russas vêm surgindo como temas recorrentes em Moscou, nestas últimas semanas. E isso nos leva a 17 de fevereiro, quando Putin se encontrou com líderes políticos da Duma, de Vladimir Zhirinovsky do Partido Liberal Democrático - que vem tendo um rápido aumento de popularidade - e Gennady Zyuganov, do Partido Comunista, a Sergei Mironov, do Rússia Unida, bem como o Presidente da Duma Vyacheslav Volodin.

Putin enfatizou o caráter "multiétnico e multirreligioso" da Rússia, agora em um "ambiente diferente, livre de ideologia": "É importante para todos os grupos étnicos, mesmo os menores entre eles, saberem que esta é a sua Pátria, e que não há outra para eles, que eles aqui estão protegidos e preparados para arriscar a vida para proteger este país. Trata-se do interesse de todos nós, seja qual for nossa etnia, incluindo todo o povo russo".

Mas a observação mais extraordinária de Putin tratava da história antiga da Rússia:

Bárbaros vieram do Oriente e destruíram o Império Cristão Ortodoxo. Mas antes dos bárbaros orientais, como vocês bem sabem, os cruzados vieram do Ocidente e fragilizaram o Império Cristão Ortodoxo, e só então foram desferidos os golpes fatais, e o império foi conquistado. Foi isso o que aconteceu... temos que nos lembrar desses acontecimentos históricos e jamais nos esquecermos deles.

Bem, há aqui material suficiente para gerar um tratado de mil páginas. Como isso não seria possível, tentemos, pelo menos, desembrulhar de forma concisa esse pacote.

A Grande Estepe Eurasiana - uma das maiores formações geográficas do planeta - estende-se do Danúbio inferior até o longínquo Rio Amarelo. A piada que corre por toda a Eurásia é que "Keep Walking" vale para as duas direções. Pela maior parte da história registrada, essa região foi a Central Nômade: tribo após tribo invadindo a periferia, e às vezes os centros do Grande Interior: China, Irã, o Mediterrâneo.

Os citas (ver, por exemplo, o magistral The Scythians: Nomad Warriors of the Steppe, de Barry Cunliffe) chegaram à estepe Pontiv vindos de mais além do Volga. Depois dos citas, foi a vez dos sarmacianos darem as caras no sul da Rússia.

A partir do século IV, a Eurásia nômade foi um turbilhão de tribos saqueadoras, entre as quais se destacavam, entre outros, os hunos dos séculos IV e V, os casares, no século VII, os cumanos do século XI, até chegarmos à avalanche mongol do século XIII.

O enredo clássico sempre opôs nômades a camponeses. Os nômades dominavam - e cobravam tributos. G. Vernadsky, em seu inestimável Ancient Russia, demonstra que "o Império Cita pode ser sociologicamente descrito como a dominação da horda nômade sobre as tribos agricultoras vizinhas".

Em minha pesquisa de diversas frentes sobre os impérios nômades, que é a base de um futuro livro, eu os chamo de os Bárbaros Fodões a Cavalo. Entre as estrelas do show estão, na Europa, em ordem cronológica, cimerianos, citas, sarmacianos,  hunos, cazaques, húngaros, pechenegues, seljuks, mongóis e seus descendentes tártaros. Na Ásia, hus, xiongnus, heftalitas, turcos, uigures, tibetanos, quirguizes, kitanos, mongóis, turcos (de novo), uzbeques e manchus.

É possível afirmar que, desde a era da hegemonia cita (os primeiros protagonistas da Rota da Seda), a maioria dos camponeses da Rússia Central e Meridional era eslavos. Mas havia diferenças importantes. Os eslavos que viviam a oeste de Kiev sofriam a influência da Germânia e de Roma. A leste de Kiev, os eslavos eram influenciados pela civilização persa.

É sempre importante lembrar que os vikings ainda eram nômades quando se tornaram dominantes nas terras eslavas. Sua civilização, de fato, prevaleceu sobre os camponeses sedentários - ao mesmo tempo em que absorviam muitos dos costumes destes últimos.

É interessante notar que o hiato entre os nômades das estepes e a agricultura, na proto-Rússia, não era tão pronunciado quanto o hiato entre a agricultura intensiva chinesa e a economia entrecruzada das estepes da Mongólia. (Para uma interessantíssima interpretação marxista  do nomadismo, ver Nomads and the Outside World, de A.N. Khazanov).

O céu como abrigo

E quanto ao poder? Para os nômades turcos e mongóis, que vieram séculos depois dos citas, o poder emanava do céu. O Khan governava com a autoridade do "Céu Eterno" - como podemos perceber quando mergulhamos nas aventuras de Gengis e Kublai. Se houvesse um único céu, o poder exercido pelo Khan, por implicação, teria que ser universal. Bem-vindos à ideia de um Império Universal.

Na Pérsia, as coisas eram ligeiramente mais complexas. No Império Persa dominava a adoração ao Sol: essa se tornou a base conceitual para o direito divino do Rei dos Reis. As implicações eram imensas, uma vez que o rei, agora, se tornara sagrado. Esse modelo influenciou Bizâncio - que, afinal, estava sempre interagindo com a Pérsia.

A Cristandade tornou o Reino dos Céus mais importante que o poder sobre o domínio temporal. Mesmo assim, a ideia de um Império Universal persistiu, encarnada no conceito do Pantocrator: era o Cristo que, em última análise governava, e seu representante na Terra era o Imperador. Mas Bizâncio permaneceu como um caso muito especial: o Imperador não podia ser igual a Deus. Afinal, ele era humano.

Putin, com toda a certeza, tem plena consciência de que o caso russo é extremamente complexo. A Rússia, essencialmente, situa-se na margem de três civilizações. Ela é parte da Europa – por razões que vão desde a origem étnica dos eslavos a seus feitos na história, na música e na literatura.

A Rússia também é parte de Bizâncio, a partir de um ângulo religioso e artístico (mas não como parte do Império Otomano que se seguiu, com o qual ela competia em termos militares). A Rússia era influenciada pelo Islã a partir da Pérsia.

Há também a crucial influência nômade. Pode-se propor com toda a seriedade que os nômades foram negligenciados pela academia. O domínio mongol de um século e meio de duração, obviamente, é parte da historiografia oficial - embora talvez não receba a devida importância. E os nômades da Rússia Central e Meridional, há dois milênios, nunca receberam  o reconhecimento merecido.

Putin, portanto, pode ter tocado em um ponto muito sensível. O que ele disse aponta para a idealização de um período posterior da história russa, de fins do século IX a inícios do século XIII: a Kievan Rus. Na Rússia, o romantismo do século XIX e o nacionalismo do século XX contribuíram para a construção de uma identidade nacional idealizada.

A interpretação da Kievan Rus coloca problemas tremendos - algo que discuti apaixonadamente em São Petersburgo há alguns anos. As fontes literárias são raras e concentram-se principalmente no período que se seguiu ao século XII. As fontes anteriores são todas estrangeiras, em sua maioria persas e árabes.

A conversão da Rússia ao Cristianismo, e a arquitetura magnífica que daí resultou, foram interpretadas como evidências de um alto padrão cultural. Resumindo, os acadêmicos acabaram por usar a Europa Ocidental como o modelo para a reconstrução da civilização Kievan Rus.

Nunca foi tão simples assim. Um bom exemplo foi a discrepância entre Novgorod e Kiev. Novgorod era mais próxima ao Báltico que ao Mar Negro, e tinha uma maior interação com a Escandinávia e as cidades hanseáticas. Compare-se isso a Kiev, que era mais próxima às estepes nômades e a Bizâncio - para não mencionar o Islã.

Kievan Rus era um cruzamento fascinante. Tradições tribais nômades prevaleciam no que se tratava de administração, impostos, sistema de justiça. Mas em termos de religião, eles imitavam Bizâncio. É importante notar também que até fins do século XII, diversos nômades das estepes representaram uma ameaça constante à Kievan Rus ao sudeste.

Assim, da mesma forma que Bizâncio - e mais tarde até mesmo o Império Otomano - forneceram os modelos para as instituições russas, os nômades, a começar pelos citas, influenciaram a economia, o sistema social, e, acima de tudo, o enfoque militar.

Prestem atenção ao Khan

Sima Qian, o magistral historiador chinês, mostrou que o Khan tinha dois "reis", e cada um deles tinha dois generais, e assim sucessivamente até chegar aos comandantes de uma centena, um milhar e dez mil homens. Esse é, em essência, o mesmo sistema usado durante um milênio e meio pelas tribos nômades, dos citas até os mongóis, até chegar ao exército de Tamerlane ao final do século XIV.

As invasões mongóis - a de 1221 e, mais tarde, a de 1239-1243 – foram, de fato, o que virou o jogo. Como me contou o magistral analista Sergei Karaganov em seu escritório, em fins de 2018, eles influenciaram a sociedade russa ao longo dos séculos seguintes.

Por mais de 200 anos, os príncipes russos tinham que fazer visitas ao quartel-general mongol no Volga para prestar tributo. Uma corrente acadêmica qualificou isso como "barbarização", e essa parece ser a opinião de Putin. Segundo esse ponto de vista, a incorporação de valores mongóis pode ter feito reverter a sociedade russa ao que ela era antes do primeiro impulso à adoção do cristianismo.

A conclusão inescapável é que, quando Muscovy, em fins do século XV, emergiu como o poder dominante na Rússia, foi, essencialmente, como sucessora dos mongóis.

E foi por essa razão que os camponeses - a população sedentária - não foi tocada pela "civilização"  (hora de reler Tolstoy?) O poder e os valores mongóis, fortes como eram, sobreviveram ao domínio mongol por séculos.

Bem, se uma moral pode ser extraída dessa nossa curta parábola, é a de que não é exatamente uma boa ideia a OTAN "civilizada" comprar briga com os herdeiros - colaterais - do Grande Khan.

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