Portugal

10 opiniões rápidas sobre umas eleições únicas

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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Opiniões: José Manuel Fernandes, Helena Matos, Jorge Fernandes, Alexandre Homem Cristo, Helena Garrido, Raquel Abecassis, André Abrantes Amaral, Miguel Pinheiro, Filomena Martins e Rui Pedro Antunes.

Defendi que era importante que Marcelo entrasse no seu segundo mandato politicamente reforçado, pois ele é dos poucos contrapontos que existem ao monopólio socialista do poder. Podemos achar que faz menos do que desejaríamos como contraponto, mas é melhor do que nada. Foi por isso um bom resultado, que em nada é diminuído por ficar aquém do de Mário Soares em 1991, pois as condições não são comparáveis.

José Manuel Fernandes

Marcelo Rebelo de Sousa foi reeleito confortavelmente, o que significa que parte reforçado para o seu segundo mandato. Apesar de a eleição se realizar num dia tão anormal – no meio de uma pandemia, com o país obrigado a um novo confinamento – e ter tido de enfrentar o risco da desmobilização, o Presidente conseguiu recolher na sua reeleição mais votos do que quando foi eleito há cinco anos. Parece coisa pouca, mas não é: só Mário Soares tinha conseguido esse feito.

Defendi que era importante que Marcelo entrasse no seu segundo mandato politicamente reforçado, pois ele é dos poucos contrapontos que existem ao monopólio socialista do poder. Podemos achar que faz menos do que desejaríamos como contraponto, mas é melhor do que nada. Foi por isso um bom resultado, que em nada é diminuído por ficar aquém do de Mário Soares em 1991, pois as condições não são comparáveis.

Foi também bom que os resultados de Ana Gomes e André Ventura tenham ficado aquém das expectativas que ambos alimentaram. São resultados com significados diferentes, que exigem análises separadas, mas nem houve uma onda de apoio a uma candidata que representa uma ala esquerdista e lunática do PS, apesar de esta ter tido um discurso populista, nem o apoio ao populista da direita radical teve as proporções que cheguei a temer.

Já a esquerda radical, que há pouco tempo valia quase 20% em eleições legislativas, os seus candidatos ficaram-se, somados, por pouco mais de 8%. É especialmente significativa a derrota de Marisa Matias, porventura um sinal de que o modelo político que fez o sucesso do Bloco começa a esgotar-se.

Duas notas finais. Uma para o resultado de Tiago Mayan Gonçalves, um desconhecido que conseguiu um resultado honroso se pensarmos de onde partiu e que foi especialmente bom em concelhos como Lisboa ou o Porto, onde ficou claramente à frente de Marisa Matias e João Ferreira. Outra para Vitorino Silva, que quase repetiu o resultado de há quatro anos, o que depois do que (não) lhe ouvimos dizer durante a campanha também diz muito sobre o país que somos.

Não foi um resultado perfeito, até porque a abstenção ultrapassou os 60%. Mas, face às condições excepcionais em que estas eleições decorreram, digamos que foi um resultado quase perfeito.

Coitados destes perigosos extremistas. Estas pessoas não vêem as suas vidas nas notícias. Só servem para fazer de povo nos programas de entretenimento. Hoje votaram no Ventura? Sim, mas tal como lhe deram o voto tiram-lho. Mas há que os ouvir.

Helena Matos

Desde já declaro que concordo com todas as análises que garantem uma coisa e o seu contrário sobre a reconfiguração da direita; o sucesso ou o insucesso da candidatura de Pedro Nuno Santos à liderança do PS à luz do fraco resultado de Ana Gomes; o norte ou desnorte da candidatura de Marisa Matias que passou a campanha a propor a ilegalização de um partido cujo candidato conseguiu nestas eleições o triplo de votos que ela, Marisa, obteve. Tudo me parece possível mas o que me interessa é o país invisível que votou André Ventura. Um país que não se vê. Um país que foi destratado nesta campanha.

A fazer fé naquilo que jornais, rádios e televisões nos garantem há semanas, Beja, Castelo Branco, Viseu, Guarda, Santarém, Vila Real, Bragança e Madeira estão a abarrotar de fascistas. Legiões deles. Extremistas.

Não conhecem estes fascistas? São gente que vive com baixos rendimentos. Lêem poucos livros e certamente nenhum que tenha a ver com o fascismo.

Tudo o que fazem e dizem parece mal ao país que se acha certo e cheio de razão. E que diz que eles são fascistas. De extrema-direita. Que são um problema.

Coitados destes perigosos extremistas. Para irem ao médico, à escola, às compras… precisam de ter carro mas agora explicam-lhes que as suas viaturas em segunda, terceira e sabe-se lá que mão não são amigas do ambiente.

Matavam um porco mas agora dizem-lhes que o país sustentável é vegetariano.

Roubaram-lhes os dispositivos de rega que tinham instalado num terreno mas nem vale a pena apresentarem queixa. Aliás, isso de chamar a polícia que em muitos destes locais que abarrotam de fascistas é a GNR é uma força de expressão: os postos da guarda fecham à noite, as viaturas não andam e os agentes volta e meia declaram que não têm meios para intervir. (Sabem, nesse país que fica longe a noite é mesmo noite, o isolamento é mesmo isolamento e quando a GNR declara que não tem meios para intervir, optar por pintar os lábios de vermelho e vir fazer carantonhas para as redes sociais não funciona). Estas pessoas não vêem as suas vidas nas notícias. Só servem para fazer de povo nos programas de entretenimento.

Hoje votaram no Ventura? Sim, mas tal como lhe deram o voto tiram-lho. Mas há que os ouvir.

Com um primeiro lugar forte, distante do segundo classificado, Marcelo é reconduzido na Presidência com uma grande interrogação. Ninguém verdadeiramente sabe como será o seu segundo mandato.

Jorge Fernandes

As eleições presidenciais de 2021 foram uma noite de confirmação. Marcelo Rebelo de Sousa confirmou que os afectos, vazios de qualquer ideia programática ou sobre o futuro do país, rendem votos num país carente e desorientado pela pandemia. Com um primeiro lugar forte, distante do segundo classificado, Marcelo é reconduzido na Presidência com uma grande interrogação. Ninguém verdadeiramente sabe como será o seu segundo mandato.

Ana Gomes confirmou ser uma mulher corajosa e sem medos. Sem apoios formais do seu partido, cumpriu o dever cívico de oferecer uma alternativa de centro-esquerda moderada aos eleitores que, não gostando de Marcelo de Rebelo de Sousa, não queriam cair nos braços da extrema-esquerda.

Apesar de ter ficado em terceiro, depois de ter feito uma má gestão das expectativas, André Ventura é um dos grandes vencedores da noite. Confirmou a ascensão do Chega no sistema partidário português. As próximas eleições legislativas serão o grande teste eleitoral do partido.

João Ferreira confirmou a decadência eleitoral do Partido Comunista. Com menos de 200 mil votos, João Ferreira não parece ter conseguido estancar a hemorragia eleitoral do seu partido. No ano do seu centenário, o PCP encontra-se num dilema estratégico sobre o que fazer em seguida, depois de ter dado a mão ao governo no último OE.

Marisa Matias confirmou as dificuldades do BE em encontrar um papel para si próprio no pós-Geringonça. Apesar de não o ter assumido, Marisa Matias e o seu partido cometeram um erro estratégico ao não apoiar Ana Gomes. O mau resultado do Bloco, especialmente em comparação com as presidenciais de 2016, confirma a crise do partido.

Tiago Mayan Gonçalves confirmou a consolidação da Iniciativa Liberal. Depois das eleições de 2019, Mayan, um neófito nas lides eleitorais, conseguiu passar uma mensagem sólida numa campanha que o candidato vencedor tentou esvaziar. As eleições terminaram. Marcelo está reeleito. A pandemia e a crise económica seguem dentro de momentos.

Pondo tudo na balança, ganhou o PS — que “apoiou” Marcelo Rebelo de Sousa, que viu os à sua esquerda levarem uma sova e que, com o resultado de André Ventura, legitimou uma narrativa de combate a uma alternativa de direita.

Alexandre Homem Cristo

Em número de votos, a esquerda teve nestas Presidenciais 2021 uma enorme derrota eleitoral — a soma Ana Gomes/Marisa Matias/João Ferreira bate recordes mínimos e, segundo as sondagens, a esmagadora maioria dos eleitores PS terá votado em Marcelo. So what? Por enquanto, nada: esta derrota eleitoral é inconsequente e sem efeitos nos equilíbrios políticos para o acesso ao poder. Ou seja, a vitória de Marcelo (apoiado pela direita) e a baixa votação à esquerda não abanam os alicerces da governação PS nem agitam o seu apoio parlamentar. Pelo contrário: a fragilidade dos resultados dos candidatos de BE e PCP só contribuem para tornar o PS ainda mais hegemónico.

Aliás, o impactante resultado de André Ventura (que atinge os dois dígitos) faz um grande favor à esquerda, que sai desta noite eleitoral com uma narrativa muito apelativa para mobilizar o seu eleitorado, sobretudo num contexto de eventuais eleições legislativas em 2022. A partir de agora, o discurso à esquerda será dramatizado em uníssono: há que travar a emergência do Chega e impedir maiorias parlamentares à direita, para “derrotar o fascismo”. Ou seja, independentemente do significado nefasto para a direita moderada, o resultado de Ventura dará muito jeito a António Costa e à esquerda — que, aliás, há 2 anos que não falam ou desejam outra coisa.

A estratégia em si não constitui novidade. Se Durão Barroso era ultra-neo-liberal e Passos Coelho um salazarista em potência, Ventura será agora o fascista que ameaça a democracia. De resto, foi essa diabolização ridícula em Portugal que justificou a geringonça, em 2015 — era um “dever patriótico” travar Passos Coelho. E, mesmo na campanha destas Presidenciais, o registo já foi ensaiado, com sucessivos apelos a “sobressaltos cívicos” para travar a “extrema-direita” — que mais não foram do que oportunidade para mobilizar votos em Ana Gomes. Nas reacções aos resultados, nesta noite eleitoral, também não faltaram dedos apontados à “extrema-direita”. Diferença-chave: desta vez há mesmo uma direita radical à espreita.

Absurdo retórico ou não, o facto é este: a partir de hoje, Ventura deixou de ser o deputado único do Chega na Assembleia da República e passou a ter centenas de milhares de votos para exibir. A força política que representa tornou-se perceptível, visível, quantificável. E isto, naturalmente, é muito melhor para a esquerda (que com esse argumento mobilizará os seus) do que para a direita (que terá no Chega um factor de instabilidade para a construção de um projecto político alternativo).

Por isso, a noite eleitoral pode ter sorrido à direita, com destaque para o notável resultado de Mayan e a reeleição de Marcelo. Pode ter sido amarga para a esquerda, numa derrota estrondosa em número de votos e em concelhos-chave (como os alentejanos para o PCP). E pode ter ficado marcada pela ascensão meteórica de Ventura. Mas, pondo tudo na balança, ganhou quem beneficia de tudo isso: o PS — que “apoiou” Marcelo, que viu os à sua esquerda levarem uma sova e que, com o resultado de Ventura, legitimou uma narrativa de combate a uma alternativa de direita.

Marcelo Rebelo de Sousa quebra a tendência que vinha de Jorge Sampaio e Aníbal Cavaco Silva, ao reunir mais votos na reeleição, numa campanha completamente solitária e pouco adaptada às suas características e marca de afecto. O que fará Marcelo com esta votação?

Helena Garrido

Marcelo Rebelo de Sousa foi reeleito, apesar das dúvidas. Dia 9 de Março teremos o Presidente no seu segundo mandato, mais livre, sem pensar em reeleição e com mais votos do que em 2016. Será mais interventivo? Mas já lá vamos. Porque estas eleições fizeram um retrato do país que é um alerta muito sério à classe política. André Ventura ficou em segundo lugar em todos os distritos do interior do país e entrou nos bastiões do PCP.

Para se perceber o que se está a passar o primeiro passo é diagnosticar bem o problema. É responder à pergunta: o que leva tantos eleitores a votarem num candidato de extrema-direita, populista e marcado por uma agressividade que toca a má criação?

Olhar para esta questão como um problema do PSD ou limitado à reconfiguração da direita é confundir desejos com a realidade, especialmente notório nas declarações de Marisa Matias e de Carlos César na noite eleitoral. Como também não é um problema da esquerda, como quer fazer crer Rui Rio. Desrespeitar e desvalorizar esse eleitorado é um erro ainda mais grave, são pessoas que estão zangadas com o país, com o esquecimento a que foram votadas.

Esta eleição presidencial é um alerta muito sério para se olhar para os problemas que Portugal enfrenta. Há um país que se sente abandonado, uma população não urbana e de trabalhadores de salários baixos, alguns deles que deixaram de se sentir representados pelo PCP.

As análises mais aprofundadas dos resultados o dirão, nomeadamente o estudo da transferência de votos. Mas, olhando para os melhores resultados de André Ventura, o que vemos é Portalegre, Bragança, Évora e Beja. Todos os distritos do interior colocaram André Ventura em segundo lugar.

Mas sendo André Ventura um dos vencedores desta eleição, falemos dos outros candidatos.

Marisa Matias é a grande derrotada, o que pode ser explicado pela mobilização no voto em Ana Gomes, sempre com André Ventura como fantasma – o objectivo de garantir que não ficaria em segundo lugar pode ter gerado voto útil em Ana Gomes. Mas pode ser igualmente explicado pelo tipo de campanha, uma vez que Marisa Matias tem características de empatia que ganham com a proximidade. Ainda que este argumento caia por terra quando pensamos nos resultados que Marcelo Rebelo de Sousa obteve.

João Ferreira, apesar de uma campanha de bom senso, é também um vencido nestas eleições ao ver André Ventura entrar de forma muito clara no eleitorado do PCP.

Ana Gomes é uma das vencedoras e mostra que se tivesse tido o apoio do PS podia ter desafiado Marcelo Rebelo de Sousa, impondo uma segunda volta.

Um dos vencedores inesperados é Tiago Mayan Gonçalves, especialmente se olharmos para o voto urbano. Será necessário olhar para os resultados com mais pormenor, mas o que se consegue ver nesta noite eleitoral é uma conquista inesperada do voto urbano onde o BE era mais afirmativo. Temos uma nova geração liberal? Não sabemos ainda.

Finalmente Marcelo Rebelo de Sousa que quebra a tendência que vinha de Jorge Sampaio e Aníbal Cavaco Silva, ao reunir mais votos na reeleição, numa campanha completamente solitária e pouco adaptada às suas características e marca de afecto. O que fará Marcelo com esta votação? O segundo mandato dos presidentes tem sido mais assertivo que o primeiro. Será também assim com Marcelo? “As circunstâncias mudam, a pessoa é a mesma”, disse Marcelo Rebelo de Sousa à RTP. Os portugueses “querem mais e melhor em proximidade”, disse no seu discurso. E que percebeu o sinal. Para já as suas palavras foram para o combate à pandemia, a prioridade das prioridades, a sua “primeira missão”. Veremos o que quer isto dizer.

Poupo-me à classificação do partido de André Ventura porque, verdadeiramente, já convivemos com extremos há demasiado tempo em Portugal para ficarmos agora com os cabelos em pé. A grande leitura destas presidenciais 2021 é a certeza de que o PSD e o CDS têm que mudar profundamente o seu papel na política portuguesa.

Raquel Abecassis

A melhor notícia da noite é que os portugueses, entre o risco da pandemia e o risco de uma segunda volta, preferiram apostar na máxima de que votar é seguro e foram votar mais do que se esperava.

Marcelo ganhou confortavelmente e, face às circunstâncias, teve um resultado mais do que confortável (60,7%) que o confirma como um Presidente amado pelos portugueses. No tempo que vivemos é de esperar que Marcelo use a sua legitimidade directa para reforçar o seu papel na condução dos destinos de um país em que o governo minoritário está perdido e aflito com a gestão da pandemia. O país disse ao Presidente que conta com ele para a reconstrução do país depois desta tragédia.

A notícia desta noite não é, contudo, a vitória mais do que previsível de Marcelo. André Ventura foi a votos e um ano e quatro meses depois das legislativas alcança um resultado estratosférico (11,9%) que o coloca sem margem para dúvidas como o novo protagonista da direita em Portugal.

Poupo-me à classificação do partido de André Ventura porque, verdadeiramente, já convivemos com extremos há demasiado tempo em Portugal para ficarmos agora com os cabelos em pé.

A grande leitura destas presidenciais 2021 é a certeza de que o PSD e o CDS têm que mudar profundamente o seu papel na política portuguesa. Têm que se inspirar em Marcelo e no seu modelo de direita social, ou então podem ter como seguro que a pancada vai chegar, mais cedo do que tarde. Talvez o CDS seja a primeira vítima, mas a ameaça chegará a médio prazo também ao PSD. E enquanto isso o PS mantém-se tranquilo e confortável, com poucos votos, mas suficientes para se manter no poder.

As autárquicas estão à porta e o tempo urge se PSD e CDS querem ganhar tempo para sobreviver.

À esquerda as notícias também não estão de feição, ou se mantêm ligados à máquina socialista, ou morrem em grande parte, também por causa de Ventura. Apesar das más notícias vindas do Alentejo, João Ferreira tem um motivo para festejar, derrotou Marisa Matias e assim provou que a estratégia do PCP está a dar mais resultado do que a arrogância do BE.

A partir desta noite, Marcelo Rebelo de Sousa fica sozinho no pedestal, com uma agravante: a crise, que é económica, social e também de regime, de ora em diante só o enfraquecerá. O segundo mandato arrisca-se a ser penoso.

André Abrantes Amaral

A ambição de Marcelo é governar Portugal. A ruína em que se tornou a governação de António Costa, a que se soma a divisão da direita, permitiu-lhe sonhar. Tornar-se, no decorrer do segundo mandato, no árbitro influente do regime; no Presidente que faz e desfaz governos. Para tal necessitava de uma vitória esmagadora que o impusesse como salvador da pátria (e do sistema político). A partir desta noite fica sozinho no pedestal, com uma agravante: a crise, que é económica, social e também de regime, de ora em diante só o enfraquecerá. O segundo mandato de Marcelo arrisca-se a ser penoso.

Ana Gomes, que teve esta noite o prémio da sua carreira, já anunciou apoiar Pedro Nuno Santos para próximo líder do PS. A viragem dos socialistas à esquerda ficará então completa e será conseguida à custa do BE, como se viu nestas eleições. Desde a geringonça (feita porque muitos militantes socialistas bem que podiam ser do BE) que os partidos de extrema-esquerda se extinguem ou o PS se parte. Resta saber se ainda há socialistas moderados com peso eleitoral. A inexistência de um candidato presidencial dessa área política (que não Marcelo) leva a crer que não.

André Ventura subiu vertiginosamente quando comparado com as legislativas há pouco mais de um ano. O problema de Ventura, além das frases sem conteúdo que explicam a inconsistência de algumas opções políticas, é que não passa de um cavaleiro que anda por aí sozinho, aparentemente sem rumo e sem juízo. Segundo consta, à sua volta há um deserto imenso de pessoas capazes e de ideias concretas. Veremos se pega neste resultado e prova que não. O risco é desaparecer tão depressa quanto apareceu.

Mayan Gonçalves acabou por ser o candidato da direita que não se revia nem em Marcelo nem em Ventura. A sua existência já foi uma vitória. O resultado desta noite deixa no ar a ideia que um candidato mais conhecido, com mais traquejo e igualmente bem preparado podia ter virado estas eleições do avesso.

Na desconcertante opinião de Marisa Matias, há agora milhares de fascistas em cada distrito, incluindo em Évora, em Beja e em Setúbal, onde nas últimas legislativas o segundo lugar que Ventura agora conseguiu tinha sido do PCP.

Não liguem às fanfarronices de ocasião, nem às fantasias para mobilizar eleitores nem aos delírios de campanha — André Ventura não ficou em segundo lugar, como prometera, nem teve 22% dos votos, como sonhou, mas conseguiu uma votação que impressiona ou atemoriza, consoante a propensão de quem olhar para o resultado.

Pouco mais de um ano depois de entrar (por pouco) no Parlamento, André Ventura teve 11,9% e foi o segundo candidato mais votado em nove distritos do continente.

E conseguiu estes resultados com o ruído e a fúria da praxe. Copiando um guia de campanha usado em vários países do mundo, insultou os adversários, insinuou conspirações, apontou inimigos. Uns optam por qualificar André Ventura como sendo de extrema-direita, outros como de direita radical, outros como de direita populista, numa busca por um rigor terminológico que poderia ter como resposta aquela frase célebre: “De que vale um nome, se o que chamamos rosa, sob outra designação, teria igual perfume?”. O perfume de André Ventura é também, como o da rosa, inconfundível — use-se o nome que se usar. Ele é o que é. E tem os resultados que tem.

Com este resultado, fica demonstrada a incompetência da direita clássica em Portugal. Ainda na noite deste domingo, Rui Rio insistiu no caminho que nos trouxe até aqui: jurou que o PSD é de “centro” e tratou a direita como uma portadora da peste — assegurou que ela valerá o que valerem o Chega e a Iniciativa Liberal, deixando firmemente o PSD de fora dessas contas.

Quanto à esquerda, é o habitual. Marisa Matias, por exemplo, fez uma análise que somou a precipitação à miopia e arranjou os culpados do costume: “Muitos dos eleitores de direita votaram num candidato de extrema-direita”. A candidata do Bloco, que não percebeu nada do que lhe aconteceu nesta campanha, entende, portanto, que neste domingo o país acordou magicamente de extrema-direita. Na sua desconcertante opinião, há agora milhares de fascistas em cada distrito, incluindo em Évora, em Beja e em Setúbal, onde nas últimas legislativas o segundo lugar que Ventura agora conseguiu tinha sido do PCP.

Não valia a pena esperar outra coisa. Desde 1974 que a esquerda repete a mesma fórmula de diabolização do adversário, que nos levaria a concluir que Diogo Freitas do Amaral e André Ventura eram a mesma coisa. Alguma vez chegariam a este desesperante resultado, em que lhe faltam as palavras para explicar que Ventura é uma coisa diferente. Faz lembrar a história do marechal Castello Branco, o primeiro Presidente da ditadura militar brasileira. Criticado pela oposição ao regime ao longo de todo o seu mandato, e sabendo que o seu sucessor era adepto da linha dura, despediu-se do cargo com uma frase ominosa: “Não gostaram do barítono? Esperem pelo tenor”.

Em Portugal, o tenor chegou. E ninguém parece interessado em arranjar a fórmula para o tirar do palco.

Ignorar os quase 500 mil votos no líder do Chega (passou de 1,29% nas legislativas para estes 11,9% de agora) é cegueira ideológica. Achar que temos meio milhão de portugueses xenófobos, racistas e fascistas só lhe dará força. Foi assim que chegou aqui

André Ventura terá todos os defeitos que lhe atribuem. Extremista, populista, oportunista, perigoso, e é só ir juntando-lhe adjetivos. Não é o único, mas essa é uma outra discussão. O que é preciso dizer é que depois de ele ter tocado um sininho nas legislativas e de a seguir ter pegado na sineta nos Açores, agora fez foi soar bem alto os carrilhões de Mafra.

Porque, apesar dessa teoria de que não é possível tirar ilações partidárias de umas eleições presidenciais, já é impossível não olhar para o fenómeno André Ventura. Ignorar os quase 500 mil votos no líder do Chega (passou de 1,29% nas legislativas para estes 11,9% de agora) é cegueira ideológica. Achar que temos meio milhão de portugueses xenófobos, racistas e fascistas só lhe dará força. Foi assim que chegou aqui: porque no outro extremo apontaram como opção democrática não lhe dar posse caso vencesse; quiseram calar as suas visões em vez de as rebater; ou ilegalizar o seu partido constitucionalmente.

O problema não começou agora, vem em crescendo. É quase como a pandemia em Portugal. Não há quem não avise, mas dão-lhe todas as aberturas. Limitam-se a reagir, nunca a agir, quanto mais a antecipar. Os fenómenos extremistas e populistas têm uma razão de ser. Motivos que a cada dia ganham mais raízes na sociedade e se multiplicam.

Os temas que se discutem nos centros urbanos, que tanto preocupam os líderes partidários, que motivam longas polémicas nas redes sociais, não dizem nada a certa parte do país. É só ver onde Ventura foi segundo (como em todo o Alentejo, à frente do PCP). Aí, o que lhes importa é a corrupção que vê nas autarquias. A rede de interesses partidários que domina certas regiões e da qual todos dependem (o caso de Reguengos destapou apenas a ponta de um icebergue, o da socialista Hortense Martins continua por explicar). A insegurança que se vive e a forma como se muitos se sentem cada vez mais desprotegidos, isolados e ignorados. Alguns valores tradicionais. E nada disto é cliché.

Deixaram-lhe o caminho aberto e André Ventura está a construir uma auto-estrada. Foi só copiar os modelos do Vox aqui ao lado, de mais dois ou três ‘amigos’ europeus que lhe vieram dar apoio, de outros figurões pelo mundo fora. Para já criou problemas graves para resolver: como vai a direita moderada conseguir reconfigurar-se sem o seu apoio e este meio milhão de votos? Como vai Marcelo resolver a exigência escrita para um acordo de governação se ele se colocar, se não o fez nos Açores nem ele existiu na geringonça? E como vai a extrema-esquerda continuar a falar de alto para quem teve 11,9% e os seus dois candidatos, João Ferreira e Marisa Matias, se ficaram por 4,3% e 4%?

Marcelo é o único vencedor destas eleições presidenciais (teve o melhor resultado de sempre, atrás de Soares e Eanes), mas porque na verdade era o único candidato. Mas a política portuguesa ganhou também um megafone que já é impossível de calar. Tenham medo. Tenham muito medo.

Por isso, mesmo sem nunca o verbalizar em público, Marcelo chegou a sonhar ter nesta reeleição mais do que os 70% de Soares em 1991. Falhou a coroação como Presidente-Rei. Marcelo I, o afectuoso, desceu à Terra.

Marcelo ganhou à primeira volta e isso não é pouco para quem é mais intrépido no momento de resgatar banhistas na costa algarvia do que no momento de ir a votos. A derrota contra Sampaio em Lisboa em 1989 é um fardo que Marcelo carrega e alimenta os seus fantasmas internos. Após a debacle alfacinha, só concorreu à liderança do PSD quando sabia ter a vitória na mão e só avançou para Belém em 2016 com a garantia de que António Guterres não ia a jogo. Mas as suas reflexões bambas variam entre o crónico medo de perder e ter um lugar único na história, em ser o melhor, em cumprir o desígnio de homem providencial.

Por isso, mesmo sem nunca o verbalizar em público, Marcelo chegou a sonhar ter nesta reeleição mais do que os 70% de Soares em 1991. Não chegou sequer perto, o que faz com que esta vitória — o terceiro melhor resultado de sempre em presidenciais e o melhor resultado de um candidato de direita — não seja propriamente retumbante. Falhou a coroação como Presidente-Rei. Marcelo I, o afectuoso, desceu à Terra.

E Marcelo não fez a viagem sozinho. Com menos bazófia também André Ventura podia estar a cantar vitória por ter passado dos 1,29% do quase-unipessoal Chega em 2019 (67.826 votos) para quase 12% e perto de meio milhão de votos. Teve sete vezes mais votos do que nas legislativas, mas cometeu o erro estratégico de dizer que punha o lugar à disposição no Chega caso ficasse atrás de Ana Gomes. Teve de se demitir. Para quem jurava ter o maior dos apoiantes que um crente pode ter (Deus), o terceiro lugar não é brilhante. É coisa de comum mortal.

Ana Gomes ganhou mais do que perdeu, mas é uma vitória pírrica. Sem que lhe fosse exigido, elegeu Marcelo como principal adversário. Falou numa segunda volta que sabia ser impossível. Foi a que mais cresceu desde a casa de partida, mas acaba com menos votos e percentagem que o desconhecido e apartidário Sampaio da Nóvoa (que há cinco anos ultrapassou a barreira do milhão de votos e teve 22,9%). Se Pedro Nuno Santos for líder do PS, poderá voltar daqui a 5 anos. Caso contrário, sobra-lhe o Twitter e o comentário político. Ficou a meio caminho entre o céu e a Terra: à frente de Ventura, mas muito atrás de Marcelo e Nóvoa.

João Ferreira não conseguiu levantar totalmente o PCP do chão, mas melhorou o resultado de há cinco anos e ficou à frente do Bloco de Esquerda. Deu o corpo à luta e, apesar da ortodoxia e do leninismo old fashioned que tem no colarinho azul, manteve viva a ideia de que pode mesmo ser o sucessor do sóbrio avô Jerónimo. O Partido, tal como a Terra, a quem o trabalha.

Também houve Marisa. A campanha dos lábios vermelhos transformou-se numa espécie de campanha L’Oreal invertida. Em vez de um “Porque eu mereço”, Marisa Matias podia personificar um: “Eu não merecia”. Conseguiu o único pódio da história eleitoral do BE há 5 anos, manteve o partido na Europa e até conseguiu reforçá-lo há um ano e meio, não merecia ser atirada para a arena no pior momento do BE pós-geringonça. Levou com o peso do voto contra no OE. Neste caso não foi Marisa, que parece nunca se ter deslumbrado, que desceu à Terra. Foi mesmo o Bloco.

Tiago Mayan Gonçalves, o liberal, teve um resultado suficiente (mais do que duplicou o resultado da IL em 2019) para ter as pior das condenações de homem livre e solto das amarradas do pai Estado: ser apresentado novamente como candidato a um cargo público. Câmara do Porto? Cabeça de lista pelo Porto nas legislativas? Cabeça de lista nas Europeias? Ganhou algum capital, mas foi o último dos seis principais e teve menos votos do que Tino em 2016. O vendaval liberal, não passou, afinal, de uma corrente de ar.

Nota de rodapé: Tino é uma nota de rodapé, não por sobranceria da elite urbana, não por ser do povo nem por se dizer menos letrado que os outros. É mesmo porque nada acrescenta ao combate político a não ser frases de algibeira e graçolas populistas.

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