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Portugal

6 opiniões rápidas sobre as eleições que deixaram tudo na mesma em Espanha

Não tenhamos ilusões: a situação em Espanha complicou-se e o principal responsável pela aventura que foi convocar eleições neste momento, Pedro Sánchez, sai enfraquecido de uma ida às urnas em que jogou tudo

Quatro eleições depois, não se vê como possa a Espanha sair do impasse. O Parlamento está agora mais dividido e mais radicalizado do que antes da ida às urnas e os dois partidos que negociaram a formação de um governo (PSOE e Unidas Podemos) têm hoje menos deputados do que tinham antes.

No anterior Parlamento talvez tivesse sido possível uma coligação “centrista” entre os socialistas e os liberais do Ciudadanos, mas a catástrofe eleitoral do partido de Albert Rivera também fechou essa porta.

Uma grande coligação, um governo patriótico, uma solução à alemã, com socialistas e populares? Seguramente não com Sánchez depois da forma como ele derrubou o governo de Mariano Rajoy. Sobretudo não com um PP que viu o Vox crescer como cresceu à sua direita. Sobretudo nunca deixando a oposição nas mãos de Pablo Iglésias, à esquerda, e de Santiago Abascal, à direita: o risco de morte do centro seria demasiado grande.

Ontem foram eleitos para o Parlamento de Madrid, pela primeira vez, deputados anti-sistema da Catalunha. A candidatura da CUP não era apenas mais uma candidatura de extrema-esquerda – foi a ruptura com uma tradição: os independentistas mais radicais, os que têm organizado a violência nas ruas de Barcelona, nunca quiseram candidatar-se à Câmara dos Deputados de toda a Espanha, mas agora fizeram-no com o objectivo declarado de assegurar a ingovernabilidade do país. Devem ter conseguido o seu objectivo.

O reverso da medalha do catalanismo mais extremista é o Vox, cuja ascensão meteórica fez dele a terceira força parlamentar. É o rosto do nacionalismo espanhol, um nacionalismo que regressou em força como reação à radicalização do nacionalismo catalão. O Vox não anuncia o regresso de qualquer regime autoritário, mas a sua votação foi tão expressiva que tudo indica que será mais difícil fazer pontes e estabelecer consensos.

Não tenhamos pois ilusões: a situação em Espanha complicou-se e o principal responsável pela aventura que foi convocar eleições neste momento, Pedro Sánchez, sai enfraquecido de uma ida às urnas em que jogou tudo. Taticista como sempre, achou que podia ganhar em dois ou três dias de propaganda (em torno da transladação do corpo de Francisco Franco) o que tinha perdido em meses de paralisia governativa na Moncloa. Enganou-se, pois quem acabou por ganhar foi o Vox.

Paradoxalmente, a abstenção aumentou nestas eleições. Talvez um sinal de que muitos espanhóis não acreditavam que com estes líderes houvesse saída para o impasse, talvez porque muitos achavam – e acharam bem – que tudo ia ficar na mesma. Nessa abstenção podem estar os que esperam por uma solução moderada ou os que desesperam por uma qualquer solução. Pelo que eu diria que há pelo menos dois líderes que neste momento já são parte do problema, dificilmente serão parte da solução: Pedro Sánchez, que cavou mais o buraco em que já estava metido, e Albert Rivera, que viu o Ciudadanos quase desaparecer. Saberão eles sair de cena? E haverá outros que façam o que não souberam fazer, isto é, conversar, mas sabendo que Espanha querem, Catalunha incluída?

É talvez pedir demais.

Quem foi o assessor, especialista, consultor ou mais provavelmente o tonto que convenceu o líder do PSOE a desenterrar Franco e levar os seus ossos do Vale dos Caídos para um cemitério próximo de Madrid? Seja ele quem for, deve ser dispensado hoje mesmo.

1. Os eleitores espanhóis disseram o que já tinham dito: PSOE e PP têm de entender-se. A realidade confirma o acerto dessa mensagem dos eleitores: a complexidade da situação na Catalunha exige uma grande coligação. Delimitado no tempo e circunscrito no seu âmbito, esse acordo entre PSOE e PP pode ser para a Catalunha aquilo que o chamado “espírito de Ermua”, surgido após o assassinato de Miguel Angel Blanco, unindo PP e PSOE, foi para o combate à ETA, pois não é possível que um grupo ou uma região mantenham reféns não apenas um país mas o seu próprio regime. A outra possibilidade é os líderes do PSOE e PP continuarem a apostar na repetição dos sufrágios enquanto as instituições se deslaçam. PSOE e PP temem perder votos para as respectivas margens caso negoceiem de facto. Mas pior que perder votos é perder o respeito do país.

2. Quem foi o assessor, especialista, consultor ou mais provavelmente o tonto que convenceu o líder do PSOE a desenterrar Franco e levar os seus ossos do Vale dos Caídos para um cemitério próximo de Madrid? Seja ele quem for (e escrevem vários jornais que é o próprio Pedro Sánchez) deve ser dispensado hoje mesmo. A transformação da transladação de Franco numa espécie de segundo funeral, além de um espectáculo mórbido, não só não deu um voto ao PSOE como, estou convicta, lhe roubou alguns daqueles que agora tanta falta lhe fazem. Por mim, podemos começar já a apostar quantas vezes nos debates futuros Sánchez e os líderes do PSOE que lhe hão-de suceder vão ouvir expressões como “profanador de sepulturas” e “desenterrador de mortos” para fins eleitorais? Desengane-se quem pensar que estas acusações só virão das bancadas da direita.

3. Em 2015, nas eleições que nesse ano tiveram lugar na Andaluzia, Santiago Abascal fazia campanha em cima de uma caixa de fruta. As fotografias dessas acções de propaganda eleitoral mostram que nenhum transeunte parou ou virou a cabeça para perceber o que dizia aquele homem de barba relativamente desalinhada. Tudo parecia estar a correr mal a ‘Santi’, como então era conhecido Santiago Abascal no PP, partido de que ele fora dirigente juvenil e de que o seu pai fora um destacado militante no País Basco, num tempo em que isso significava risco de vida. Quando as urnas se abriram na Andaluzia os resultados confirmavam o que as imagens já anunciavam: o Vox tivera o resultado miserável de 18 mil votos. Nesse dia, Esperanza Aguirre, Maria San Gil ou o próprio Aznar, líderes do PP que sempre tinham promovido Santiago Abascal, talvez tenham acreditado que a aventura de “Santi” ia ficar por ali e ele regressaria ao PP, de onde saíra desiludido com Rajoy.

Abascal a fazer campanha em 2015, em cima de um banco

Santiago Abascal não voltou ao PP e em 2018, na mesma Andaluzia e por sinal com o mesmo cabeça de lista que apresentara em 2015, o Vox conseguiu mais de 391 mil votos, elegeu 12 deputados para o parlamento regional e sentou-se à mesa para negociar com o PP um acordo para viabilizar um governo não socialista na Andaluzia. Se os populares alimentavam ainda algumas ilusões sobre a possibilidade de tratarem condescendentemente Abascal, perderam-nas quando perceberam que ele indicara como negociador a segunda figura do partido, Ortega Smith, um advogado e ex-militar especializado na gestão de situações de risco e alta tensão.

A 10 de Novembro de 2019, o rapaz da caixa da fruta que saiu do PP declarando que Rajoy nunca lhe atendeu o telefone, lidera a terceira força política de Espanha. A barba deixou de estar desalinhada (a barba está para Santiago Abascal como o cabelo para Pablo Igesias) mas podemos deixar para outro dia a forma como o Vox criou a imagem de um líder. Porque aquilo que agora conta é que com Santiago Abascal o Vox conseguiu aquilo que o PSOE teve com Gonzalez: um líder. A questão que mais cedo ou mais tarde se colocará é se o Vox será capaz de sobreviver a Santiago Abascal.

4. Não basta dizer que um partido é de extrema-direita para que ele seja de extrema-direita. Segui exaustivamente estas eleições em Espanha e não percebo em que se fundamentam comentadores e jornalistas para definir o Vox como um partido de extrema-direita. Repetem-no incessantemente (o PP agradece, certamente) mas não indicam que propostas do Vox caem nesse âmbito. A não ser, claro, que a definição de extrema-direita deixe de ser feita com base nos programas dos partidos e no seu modo de actuar e passe a ser feita a partir daquilo que os seus opositores dizem. Em resumo, percebe-se que o Podemos (agora Unidas Podemos) ou o PSOE declarem que o Vox é de extrema-direita, mas isso é manifestamente insuficiente para o rotular enquanto tal.

5. Iglesias e Rivera chegaram ao parlamento espanhol em 2015. O líder do Podemos era o radical e Rivera, do Ciudadanos, o liberal. Quatro anos depois, Iglesias vive com Irene Montero, porta-voz do partido, e é pai de três filhos (dois são gémeos, nasceram prematuríssimos e a preocupação com a sua saúde uniu todas as bancadas políticas e pôs Iglesias a atender chamadas telefónicas dos reis Felipe e Letizia que alegadamente pretende destronar). O Podemos sobreviveu à saída de um dos seus fundadores e à crise em torno do estilo de vida de Iglesias, que passou de um apartamento em Vallecas para um chalet numa zona burguesa dos arredores de Madrid.

Rivera não mudou de casa, mas mudou de mulher. Ou, mais propriamente, foi andando de casa em casa. Agora vive com a cantora Malu, de seu nome verdadeiro Maria Lucia Sanchez Benitez. Moral da História: um casamento estável é um bom investimento eleitoral em qualquer área política, como bem prova o radical Iglesias versus o liberal Rivera.

O afastamento de Rivera da liderança do Ciudadanos após esta desastrosa noite eleitoral pode trazer para a frente deste partido a muito carismática Inés Arrimadas, que apenas tem um senão ou, se quisermos, tem uma vida pessoal com aquele toque de imprevisibilidade e salero de que a Espanha é capaz mesmo nos momentos mais inesperados: Inés Arrimadas, essa espécie de pasionária da unidade de Espanha, essa mulher que hoje mesmo, grávida, quando foi votar viu como na mesa de voto havia quem se negasse a cumprimentá-la, é casada com um nacionalista catalão, o que promete mais um capítulo na atribulada vida sentimental dos líderes do Ciudadanos.

… Podia continuar mas, como dentro de alguns meses a Espanha pode estar outra vez em eleições, o melhor é ficarmos por aqui.

Tudo correu mal ao PSOE nesta noite eleitoral — que sai derrotado, apesar de se manter o partido mais votado.

Houve vencedores óbvios (Vox) e vencidos inquestionáveis (Ciudadanos). Mas, nas contas que importam, estas eleições foram uma grande derrota para Pedro Sánchez, o líder dos socialistas espanhóis.

Para se ter noção do descalabro de Sánchez, importa ler os resultados da eleição desta noite de Novembro comparativamente aos de Abril de 2019. Há sete meses, o PSOE obteve uma vitória destacada (28,7% e 123 assentos) que coincidiu com o pior resultado de sempre do PP (16,7% e 66 assentos, menos 69 assentos do que na eleição anterior). O que tinha tudo para ser a afirmação da sua supremacia esbarrou na incapacidade do PSOE em formalizar acordos com o Podemos (14,3% e 42 assentos) à esquerda ou com o Ciudadanos (15,9% e 57 assentos) ao centro-direita. Uma situação de bloqueio que consumiu a paciência dos espanhóis e monopolizou o debate público (juntamente com a situação da Catalunha). Portanto, uns meses depois, o que estava em causa, sobretudo para o PSOE, era crescer eleitoralmente para garantir um apoio estável a um governo seu.

Só que tudo correu mal ao PSOE nesta noite eleitoral — que sai derrotado, apesar de se manter o partido mais votado. Sánchez pediu um reforço eleitoral face a Abril, para formar um governo forte e robustecer a sua posição negocial no parlamento — mas afinal perdeu assentos parlamentares. Sánchez quis arrasar a concorrência do PP, mostrando-se como a única força política com dimensão para liderar um governo — mas viu o grande partido da direita espanhola recuperar de um péssimo resultado e subir na sua representação parlamentar. Sánchez tinha esperança numa negociação parlamentar com o Ciudadanos (que era a terceira força partidária), na medida em que o seu líder (Rivera) havia levantado o veto ao PSOE e estaria agora disponível para viabilizar um governo socialista — mas o Ciudadanos, punido pelos ziguezagues estratégicos, levou uma sova eleitoral: passou a ser a quinta força partidária e perdeu quatro quintos dos seus deputados. Por fim, Sánchez viu o Vox (o partido mais à direita) crescer e alcançar o terceiro posto de representação parlamentar, enquanto o Podemos fica sensivelmente na mesma — ou seja, o parlamento cresceu à direita, endurecendo a oposição aos socialistas.

É certo que a ascensão do Vox irá agora preencher discursos e servir de pretexto para a esquerda se unir, apesar das suas diferenças. Pablo Iglesias (Podemos), no seu discurso da noite eleitoral (em que se esqueceu de falar do seu próprio mau resultado), deu o mote e sublinhou a responsabilidade histórica do momento, que para ele consiste em formar um governo progressista para “travar a extrema-direita”. Sim, nada é mais eficaz para a criação de uma “geringonça” do que a existência de um inimigo comum. Mas o problema da esquerda, que antes era político, agora é aritmético: seria necessário juntar o PSOE, o Podemos, o Más País, o Ciudadanos e ainda outros pequenos partidos não-independentistas — uma solução muitíssimo improvável e instável.

A única solução que resta é uma hipotética aliança entre o PSOE, curto vencedor em perda de velocidade, e o PP, cujo novo líder, Pablo Casado, desconhecemos como político. Teriam de formar uma aliança – nem que fosse temporária – no sentido de estudar com o mais ponderoso partido da Catalunha, a ERC, um plano para pacificar de vez o conflito separatista

As eleições espanholas deste domingo estão completamente dominadas pela questão do “separatismo catalão”, o que é mau e fez com que o governo central gastasse o seu tempo com ela e com o desenterro de Franco sem satisfazer ninguém, antes pelo contrário. Como Jorge Almeida Fernandes mostrou na sua crónica deste fim de semana sobre Espanha, as opções eleitorais ficaram reduzidas ao choque estéril entre o nacionalismo espanhol e o nacionalismo catalão alimentados pela permanente agitação “catalanista” e pelos media…

Tudo remonta à forma oportunista como o primeiro-ministro de então, Mariano Rajoy, e o PP se furtaram a responder de forma política ao primeiro pseudo-referendo convocado por Artur Más, então presidente da Generalitat, há exactamente cinco anos (2014). Em vez de convocar os “separatistas” perante o governo, o Parlamento e o Senado no sentido de organizarem uma forma legítima de sondagem ao conjunto da opinião pública residente na Catalunha, Rajoy protelou indefinidamente o seu misto de desintervenção política, recurso aos tribunais e repressão da agitação de rua até o governo do PP cair devido à condenação por corrupção.

Pedro Sánchez, novo líder do PSOE, também não mostrou qualquer plano e deixou funcionar o tribunal de modo que só incendiou a “questão catalã”, ao mesmo tempo que remexia demagogicamente nas cinzas do ditador Franco. O seu governo minoritário sobreviveu até à convocação de novas eleições em 2018, que ganhou sem maioria mas revelou-se incapaz de formar governo até às eleições de hoje, sem jamais propor qualquer saída constitucional para o conflito catalão…

Encerradas as urnas, os votos rapidamente contados apontam para uns perderem o que outros ganharam, mas são trocas dentro dos dois “blocos” informais designados como “Esquerda” (PSOE, Podemos e o pequeno Más País, de Iñigo Errejón) e “Direita” (PP, Vox e Ciudadanos), além de uns 40 deputados oriundos de uma dezena de partidos regionais (os “independentistas catalães” somam a maior parte desses votos). O perfil do próximo parlamento é muito parecido com o anterior e, em princípio, o PSOE, embora formalmente vencedor apesar de ter perdido votos, terá enorme dificuldade em formar governo. Voltámos à estaca zero.

Com efeito, não é só a aliança do PSOE com os “separatistas catalães” que está excluída mas também os votos de Podemos e de Errejón, os quais permitiriam à “Esquerda” espanhola perfazer 150 e picos deputados, ou seja, pouco mais a soma da “Direita”. Caso essa aliança fosse politicamente possível, os partidos do País Basco (uma dezena de deputados) dariam à “Esquerda” uma vitória incompleta mas perante a qual a abstenção dos “separatistas” permitiria a Pedro Sánchez constituir governo. Tudo leva crer, porém, que não há espaço político nem sócio-cultural, sobretudo depois da irrupção em grande do Vox, para uma “geringonça” destas… É pois à repetição do mesmo espectáculo que teremos de assistir. Agora, Ciudadanos, que chegou a ter votos para fazer governo com o PSOE mas nenhum dos líderes a quis fazer, ficou reduzido a uma dezena de deputados.

A única solução que resta é uma hipotética aliança entre o PSOE, curto vencedor em perda de velocidade, e o PP, cujo novo líder, Pablo Casado, desconhecemos como político. Teriam de formar uma aliança – nem que fosse temporária – no sentido de estudar com o mais ponderoso partido da Catalunha, a ERC, um plano para pacificar de vez o conflito separatista, viabilizando um referendo legal e pacífico com condições mutuamente aceites, o qual seria em princípio favorável à permanência da Catalunha numa Espanha ainda mais federalizada do que já é hoje comparando com a União Europeia. Mas não se vê no horizonte nada que se pareça com isto!

O impasse da ingovernalidade dificilmente será ultrapassado. As duas maiorias aritméticas são politicamente muito difíceis. A única mudança significativa é o reforço do nacionalismo, que não são boas notícias

Os espanhóis foram chamados às urnas pela quarta vez em quatro anos e pela segunda em sete meses. O principal objetivo era ultrapassar a ingovernabilidade que a fragmentação partidária trouxe a Madrid. Apurados os votos, há duas possíveis maiorias, qualquer uma muito difícil de construir politicamente.

A primeira já ficou conhecida por “Frankenstein”. Seria uma coligação de todos os partidos da esquerda espanhola, incluindo formações como a ERC e a CUP (os partidos independentistas catalães). Ainda que a imprensa espanhola esteja a insistir na existência de blocos à esquerda e à direita, a verdade é que a radicalização da situação na Catalunha tornou esta solução quase impossível.

A segunda possível maioria é o bloco central formado pelo PSOE (28%) e pelo PP (20,8%) – que juntos não chegam à maioria dos votos populares (48%), mas têm uma maioria de mandatos (120 para o PSOE, 88 para o PP) no parlamento. Seria um cenário inédito em Espanha, e não seria decerto do agrado dos eleitores que nos últimos quatro anos tornaram claro que estão insatisfeitos com os partidos tradicionais. Era possivelmente a única solução de estabilidade – e capaz de fazer face à situação da Catalunha – mas dificilmente será aceite pelos espanhóis.

Ainda que o PP tenha subido relativamente às eleições de abril, o único partido que vê a sua posição francamente reforçada é o Vox. Dois elementos contribuíram consideravelmente para os 52 mandatos do partido nacionalista: o conflito catalão escalou consideravelmente e a transladação de Francisco Franco trouxe para o quotidiano espanhol um conjunto de sentimentos – que, nos últimos anos, têm cada vez mais importância na decisão do voto – entre os quais um sentimento nacionalista que reclama maior unidade, e tem maior preferência pela firmeza do que pelo Estado de Direito. Mas se o Vox terá beneficiado da conjuntura atual, também soube perceber que a fragmentação veio para ficar e, neste contexto, uma mensagem nacionalista teria impacto no eleitorado.

Assim, o impasse da ingovernalidade dificilmente será ultrapassado. As duas maiorias aritméticas são politicamente muito difíceis. A única mudança significativa é o reforço do nacionalismo, que não são boas notícias, nem para Espanha, nem para a Europa.

Daqui resulta um duplo teste à Constituição, assaltada em sentidos opostos: o separatismo catalão pugna por diluir os laços de união social e institucional até à inexistência; o Vox bate-se por intensificá-los ao ponto de liquidar as autonomias regionais.

Os partidos responsabilizados pelo regresso às urnas pela quarta vez em quatro anos – ou pela segunda vez em seis meses – não tiveram bons resultados: o PSOE perdeu três deputados e cerca de 750 mil votos, o que faz dele o segundo partido que mais eleitores perdeu; o Unidas Podemos perdeu sete mandatos; e o Ciudadanos sofreu uma verdadeira hecatombe que dificilmente deixará Albert Rivera na liderança do partido.

Os Populares recuperaram votos e mandatos, mas, tendo em conta que vinham de uma derrota histórica, a recuperação não impressiona. A única força política em condições de clamar vitória é o Vox, que passou de 24 deputados para 52, superando as sondagens que lhe eram mais favoráveis. A ultraderecha espanhola ocupa agora o lugar de terceiro partido nacional.

Na sua essência, os nacionalismos são fenómenos emocionais. E a recente explosão de emoções violentas na Catalunha instigou o nacionalismo espanhol. Em Setembro, antes dos distúrbios na Catalunha, o Vox tinha 9% nas intenções de voto e terminou a noite de ontem com cerca de 15%.

Embora antagónicos, o separatismo catalão e o Vox são indissociáveis. O primeiro necessita de ideias autoritárias e centralistas em Madrid para validar a sua retórica de vitimização e justificar as várias ilegalidades cometidas no passado recente. O segundo precisa de pulsões separatistas que consubstanciem o discurso “España se rompe” e, dessa forma, abrir espaço para reversões na política territorial de autonomias. Numa frase, o catalanismo radical e o Vox reforçam-se mutuamente.

Daqui resulta um duplo teste à Constituição, assaltada em sentidos opostos: o separatismo catalão pugna por diluir os laços de união social e institucional até à inexistência; o Vox bate-se por intensificá-los ao ponto de liquidar as autonomias regionais. Ambas as vias destruirão os compromissos que estão na base da Lei Fundamental espanhola, aprovada no ano de 1978 em referendo com voto favorável de 88% dos eleitores do país, uma percentagem que subiu para 90,5% na Catalunha. A Constituição foi o ponto de encontro de diferentes sectores políticos, muitos dos quais em conflito, o que permitiu a transição para a democracia e a modernização de Espanha. Ao quererem descaracterizar por completo a política territorial, separatismo catalão e Vox atingem a Constituição no seu âmago, pondo em causa os acordos sociais e políticos que fundam a democracia espanhola. Dada a dinâmica interdependente de ambas ameaças, os próximos tempos não inspiram optimismo.

A jogada não poderia ter corrido pior a Sánchez. Espanha está mais ingovernável que nunca, nunca na sua história democrática teve um Congresso tão fragmentado — com 17 partidos — e nunca esteve tão extremado como agora

Pedro Sánchez não resistiu à tentação de ir ao pote e acabou no maior “inconseguimento” da sua vida política. Ao forçar as quartas eleições em quatro anos, o líder do PSOE pensou mesmo que iria alcançar a maioria absoluta que lhe permitiria governar sem ceder às exigências do Podemos, nem fazer quaisquer outros acordos. Fez all in, não percebendo que estava também a pôr a cabeça no cepo ou a fazer um referendo a si próprio e ao seu partido.

A jogada não lhe poderia ter corrido pior. Espanha está mais ingovernável que nunca, nunca na sua história democrática teve um Congresso tão fragmentado — com 16 partidos — e nunca esteve tão extremado como agora: não só pela subida vertiginosa do Vox (que quase duplicou  a votação), como pelos pequenos partidos independentistas que entraram pela primeira vez no Congresso.

É verdade que o grande perdedor da noite foi o Ciudadanos, que caiu de 57 para 10 deputados e vai obrigar Albert Rivera a sair de cena. Mas Pedro Sánchez bem pode ter sorrido que não enganou ninguém. A vida complicou-se-lhe bastante. Exemplo disso foi o facto de o PSOE ter tido uma janela de vídeo em directo aberta no Twitter para a sede do partido à espera que o líder falasse mais de meia hora, sem que nada acontecesse. O presidente do governo espanhol e os seus conselheiros deviam estar de calculadora na mão e caneta no punho a fazer contas e a refazer discursos sucessivamente, sem chegarem a lado nenhum.

Quando Sánchez apareceu em modo triunfante e tentou ir falando enquanto os apoiantes o interrompiam com gritos oportunos (cheguei a desconfiar que houvesse aqueles produtores dos programas televisivos com cartazes a pedir palmas e gritos por detrás dele), o discurso redondo não demorou mais de dois minutos. Afinal só tinha uma simples mensagem para passar: garantir que desta vez é que era e que “sim ou sim” haveria governo. Por isso ia já falar com todos os partidos a partir desta segunda-feira (menos os que têm um discurso de “ódio”), e pedir-lhes generosidade e responsabilidade para desbloquear a situação política. O problema é que o bloqueio dura há quatro anos. E nos últimos a culpa foi dele.

De uma forma crua e simples, Sánchez foi a jogo e perdeu. A jogada de Franco não lhe serviu de nada. A não demarcação clara da questão da Catalunha revelou muito sobre as cartas que iria pôr sobre a mesa. A mão que agora Iglesias lhe estendeu sem reservas foi apenas uma fuga para a frente de um Podemos também em queda que não quis assumir a sua própria derrota e só se queixou dos outros. Não há alianças com as quais Pedro Sánchez possa sair destas eleições como vencedor. Ficou na borda do tal pote da tentação e prestes a cair nele.

Há apenas uma solução. Um Bloco Central. O agora moderado Pablo Casado disse que a bola estava do lado de Pedro Sánchez. Mas antes o PP também tinha dito que estava na hora de Sánchez desistir de liderar o governo. Seria uma incoerência ver o líder do PSOE, que tantas vezes pediu a António Costa para lhe ensinar a formar uma geringonça, aceitar esta opção. Parece mesmo impossível que, tendo voltado a ganhar, Sánchez aceite deixar a liderança. Mas foi ele quem defendeu que o importante é conseguir sair deste impasse. E isso pode passar algures aqui pelo meio.

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