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A Ferrari voltou a ser competitiva, mas Mattia Binotto não se deixa deslumbrar: “Ser campeão mundial é outro nível de tarefa”

Quem olha para a equipa hoje, pensa que de um ano para o outro se conseguiram reinventar de uma forma extrema. Mas a verdade é que a jornada para a Ferrari conseguir regressar à luta pelos primeiros lugares corrida após corrida começou há cinco anos, a última vez em que a equipa esteve na luta pelo título mundial.

Mas 2017 e 2018 terminaram em desilusão para a Ferrari. A altura não era muito diferente da atual, a Fórmula 1 tinha feito algumas mudanças nos regulamentos e a equipa de Maranello tinha conseguido acertar a parte técnica do carro. No primeiro ano, Sebastian Vettel liderou grande parte do campeonato, mas acabou por perder o título para Lewis Hamilton, da Mercedes, nas últimas corridas. No ano seguinte aconteceu exatamente o mesmo. Foi então que o chefe de equipa Maurizio Arrivabene, incapaz de encontrar uma justificação para o sucedido, foi substituído por Mattia Binotto.

“Quando cheguei ao cargo de chefe de equipa, disse que era uma equipa muito jovem. Não que fôssemos jovens em termos de idade, eu tinha 50 anos na altura, mas éramos jovens nas nossas funções. Precisávamos de ganhar experiência. Éramos bons em termos de potencial, mas verdes em termos de experiência e de ferramentas", disse Binotto em entrevista à BBC Sport, realçando também a dificuldade que tiveram em desenvolver o carro.

O primeiro ano do novo chefe de equipa também não foi calmo, se é que isso é possível na Fórmula 1. Começou com uma mudança de pilotos: a saída do veterano Kimi Raikkonen e a chegada do jovem Charles Leclerc. O plano foi desenhado por Sergio Marchionne, o antigo presidente e diretor executivo da Ferrari, e mesmo com a sua morte no verão de 2018, no final do ano cumpriu-se a sua visão. O principal objetivo era colocar Vettel, sobre quem tinha algumas dúvidas, contra um jovem piloto que tinha tudo para ser uma estrela.

mark thompson

Um super motor permitiu a Leclerc conquistar sete pole positions, sendo que a equipa chegou a ser a mais rápida na qualificação por seis vezes consecutivas a determinada altura. Algo que fez soar os alarmes de desconfiança nas garagens rivais. Mais tarde a Federação Internacional do Automóvel (FIA) revelou desconfiar que o motor da Ferrari não estaria sempre dentro dos limites dos regulamentos, mas a equipa rejeitou essa afirmação.

"Isso pertence ao passado, prefiro não falar mais sobre isso. No entanto, o que estávamos a fazer na altura estava a empurrar de alguma forma a linha de interpretações. De facto, não era ilegal, ou teríamos sido desqualificados", afirmou Binotto.

Mas o motor continuou a estar no centro do problema no ano seguinte: “Nesse ano, a Ferrari não foi a única a perder potência na grelha. A maioria dos fabricantes perdeu potência nessa altura. Mas fomos nós quem mais perdemos e fomos de uma posição de vantagem para uma clara desvantagem”, disse.

Além disso, 2020 foi o ano em que a pandemia causada pela covid-19 se espalhou pelos quatro cantos do mundo e obrigou à paragem do Mundial de Fórmula 1. Mas engane-se quem pense que essa pausa poderia significar tempo para o desenvolvimento do carro, uma das medidas de emergência tomadas pela Fórmula 1 foi proibir o desenvolvimento durante a temporada. No final, a Ferrari levou na bagagem a época menos competitiva nos últimos 40 anos.

joe portlock - formula 1

Em 2021, a Ferrari terminou a época na terceira posição, ainda longe da Red Bull e da Mercedes, mas com alguns pontos de vantagem em relação ao seu rival direto, a McLaren. Já sem Vettel na equipa, o espanhol Carlos Sainz chegou e convenceu toda a gente. A equipa ainda não estava na posição que queria estar, mas o crescimento de que Binotto falava inicialmente estava a acontecer.

A mudança a nível de cultura foi enorme. Algo a que internamente chamam de uma “cultura sem culpa” e que vem de uma das garagens do lado: a da Mercedes.

“Trabalhámos muito sobre isso. É encarar o erro mais como uma oportunidade de uma lição aprendida, em vez de culpar e apontar dedos. Trata-se de ter a coragem de ouvir, de ouvir e de fazer algo que seja realmente de mente aberta. Trata-se de trabalhar em equipa, de um único indivíduo compreender a responsabilidade comum”, afirmou Binotto.

Outra mudança que poderia ter acontecido em 2021, mas não aconteceu por causa de alguns atrasos, teria sido a implementação de algumas das inovações que a equipa só apresentou em 2022. Segundo Binotto, ainda bem que esses atrasos existiram porque deram mais tempo à equipa para se preparar.

Todo este caminho foi o necessário para chegar a 2022 e ser uma das equipas que todas as outras temem. A Ferrari está neste momento na luta pelo primeiro lugar no campeonato de construtores, tem Leclerc lançado na luta pelo campeonato de pilotos (116 pontos) e Sainz não muito longe, com 83 pontos.

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"Tem sido um esforço realmente fantástico da equipa da unidade de potência", disse Binotto, atribuindo 75% da melhoria ao motor e 25% ao sistema de recuperação de energia.

Mas a Red Bull, com Max Verstappen e Sergio Pérez, tem-se mostrado também à altura do desafio, além de que no paddock muitos acreditam que, apesar do mau início de época, a Mercedes pode aparecer a qualquer momento. E é aqui que 2017 e 2018 voltam à memória, mas Binotto não mostra qualquer sinal de preocupação.

“Estabelecemos os nossos objetivos de voltar a ser competitivos em 2022. O nosso objetivo é sermos competitivos e não ganhar o campeonato. Ser competitivo é um facto, ser campeão mundial é outro nível de tarefa. Sem dúvida que o que pretendemos fazer é tentar abrir um ciclo: sermos campeões mundiais e não apenas uma vez, tentar permanecer lá. Mas penso que isso leva tempo”, afirmou.