Portugal

CDS dividiu-se entre a juventude e a experiência

Com um congresso muito dividido, o futuro líder do CDS era ontem à noite ainda uma incógnita, mas as palmas a Francisco Rodrigues dos Santos e as vaias para António Pires de Lima, que o criticou, deram sinais sobre o peso dos candidatos.

De um lado está João Almeida, que tem consigo os históricos do partido e a direcção cessante (embora recuse ser o rosto da continuidade); do outro está Francisco Rodrigues dos Santos, que se apresenta como o candidato da mudança. Num cenário de evidente polarização, Filipe Lobo d’Ávila assume-se como o “único candidato” capaz de fazer “pontes” e de “unir” o CDS.

Os cenários de alianças entre os três candidatos estiveram em cima da mesa ao longo do primeiro dia do congresso, mas esperava-se o resultado da votação das moções, previsto para esta madrugada, para ver quais se poderiam concretizar.

O momento mais quente do 28. congresso – e que foi o rastilho para toda a noite - aconteceu quando o ex-ministro da Economia António Pires de Lima criticou a linguagem usada por Francisco Rodrigues dos Santos, na sua moção de estratégia global, ao chamar “quadrilha” à esquerda parlamentar. “Se [Rodrigues dos Santos] tiver poder no CDS, tratará assim os adversários,” afirmou Pires de Lima, para se dirigir a este candidato a líder, advertindo: “Se te queres dar ao respeito, começa tu a respeitar os teus adversários.” E aconselhou-o a “apurar a sua cultura democrática”. Parte da sala desatou aos apupos, enquanto outra parte aplaudia.

Quando Pires de Lima desceu do palco, Francisco Rodrigues dos Santos dirigiu-se a ele e abraçou-o. Mas o episódio viria a marcar o congresso.

Momentos depois, Adolfo Mesquita Nunes, que foi secretário de Estado de Pires de Lima, saiu em defesa do antigo governante: “Um partido que tem orgulho na sua história não apupa um ministro que tirou o país da bancarrota.”

João Almeida viria a reforçar a defesa de Pires de Lima: “Nós, para afirmar a liberdade contra a esquerda que não nos tolera, temos de ser tolerantes cá dentro”. O deputado, também aplaudido por várias vezes, defendeu que o CDS “não é um partido de privilegiados” e que conta “com todos”.

Mas as farpas lançadas ao longo da tarde não ficariam sem resposta. Francisco Rodrigues dos Santos reagiu a Pires de Lima e aos que saíram em sua defesa – “há mais militantes do que os que já foram ministros” - e levantou o congresso pela segunda vez no mesmo dia. “Quem respeita mais o congresso do CDS: quem se preocupa em desqualificar o outro, ou os outros que vêm apresentar pela positiva? Não o fizemos por oposição a ninguém”, disse, tendo sido ovacionado de pé.

Foram, aliás, vários os momentos em que os delegados deram sinais de apoio a Francisco Rodrigues dos Santos, quando o seu nome era referido no palco. O próprio Abel Matos Santos, porta-voz da Tendência Esperança em Movimento, ao anunciar o apoio ao líder da JP, desistindo da sua própria candidatura, levantou o congresso em aplausos.

A tensão na sala desagradou a Filipe Lobo d’Ávila, que lamentou o “clima de crispação”. O candidato à liderança do CDS afirmou ser o “único que consegue fazer pontes com os outros dois candidatos” e disse estar “pronto” para, com “todos”, fazer a sua parte. O crítico da direcção cessante apelou ao voto livre em si próprio, em nome da unidade do partido: “Pelos vistos sou o único capaz de contribuir para a união”.

Um entendimento entre os três candidatos foi também a solução proposta por Nuno Melo, embora anunciando sem dúvidas o seu apoio a João Almeida. Esta foi uma das vozes de peso do CDS que subiram ao púlpito para tentar virar o congresso, da aparente vantagem de Rodrigues dos Santos para conseguir a descolagem por parte de João Almeida.

É que, ainda de manhã, os apoiantes de Lobo d’Ávila e de João Almeida foram surpreendidos pelos aplausos de pé ao líder dos “jotas”. No seu discurso, Rodrigues dos Santos disse protagonizar uma candidatura “sem padrinhos, sem donos” e que não era “sucessora de coisa alguma”. Sem nunca carregar na palavra “direita”, Francisco Rodrigues dos Santos assumiu que quer dar espaço a “novos protagonistas” e recusou o argumento de que não ser deputado é uma desvantagem para um futuro líder do CDS: “A minha assembleia é o país”. 

Durante a tarde, entre os apoiantes de João Almeida, eram visíveis os sinais de desalento. E ao mesmo tempo tentavam desvalorizar as palmas a Francisco Rodrigues dos Santos, constantemente a receber cumprimentos efusivos de delegados. Já à noite, numa segunda intervenção, o candidato deu um sinal de unidade, ao mostrar-se disponível para trabalhar com João Almeida e Filipe Lobo d’Ávila, ao mesmo tempo que tentava desfazer o retrato que era construído sobre si próprio: “Não me diabolizem”.

A inclinação para a mudança acabou por ser reforçada tanto pelo ex-líder José Ribeiro e Castro como pelo conselheiro de Estado António Lobo Xavier. Em declarações aos jornalistas, ambos assumiram estar mais inclinados para as candidaturas de Lobo d’Ávila ou de Rodrigues dos Santos por considerarem que interpretam a mudança pedida no partido e a expectativa do eleitorado.

Os trabalhos do congresso arrancaram com a despedida de Assunção Cristas. Em 13 minutos, a líder cessante confessou que “falhou o resultado”, mas não explorou os motivos para a derrota eleitoral, preferindo deixar que seja o decorrer do “tempo” a julgá-la.

Assunção Cristas nunca se referiu a Paulo Portas – o líder que a convidou para o partido – nem mesmo quando lembrou que entrou no CDS há 12 anos, “vinda de fora”. A vereadora de Lisboa (o único cargo político que ocupará depois de deixar a presidência do partido) rejeitou sair da liderança com desilusão, por sempre ter sabido “que em política nunca se pode esperar reconhecimento”. “Saio triste pelo resultado, mas tranquila por saber que dei tudo o que podia por aquilo em que acredito”, disse. Momentos depois abandonava o pavilhão do congresso.