Eram 16 horas em Lisboa, mas 8 da manhã na Califórnia, de onde Bryan Craston e Aaron Paul — ou Walter White e Jesse Pinkman — se ligaram em direto a uma espécie de happy hour na Web Summit. Horas pouco recomendadas, portanto, para beber cocktails.

“São 8 da manhã na Califórnia, posso dizer que nunca fiz um cocktail a… na verdade, isso é mentira. Já fiz cocktails a estas horas“, brinca Aaron Paul, antes de fazer um brinde virtual com o ex-colega de televisão e Darren Cleary, diretor de desporto da Web Summit que participou na conferência a partir de um bar em Dublin. O melhor cenário para o que se aproximava.

Em menos de quatro minutos, Paul e Cranston ensinaram a fazer um cocktail onde o ingrediente rei é o Dos Hombres — o mezcal artesanal que o duo de “Breaking Bad” criou em conjunto depois de a série chegar ao fim. “Não é um projeto de vaidade, é o nosso bebé.”Aaron Paul: Três anos depois do fim de BreakingBad, estávamos a jantar sushi, em Nova Iorque, e o Bryan perguntou-me: ‘Achas que é muito cedo para fazermos um projeto juntos? Uma peça de teatro ou uma série?’ Eu pensei que talvez fosse cedo demais. E disse que poderíamos enveredar por algum negócio. Ele perguntou qual e eu: ‘O que achas do negócio das bebidas alcoólicas?’. Riu-se de mim. Na altura, eu só bebia mezcal. O Bryan tinha outra opinião e tive de o educar.

Bryan Cranston: O Aaron só bebia mezcal. Nem sequer bebia água, era só mezcal.

Riem-se os dois. É este o tom que acompanha a conversa: um quase insulto mútuo, mas inofensivo, por ser irónico.

Para quem se habituou a ver a dupla a cozinhar metanfetaminas numa autocaravana, Darren Cleary não hesita em fazer a comparação óbvia dos “dois M’s”: “São conhecidos por cozinharem metanfetaminas mas na vida real estão a cozinhar mezcal“.

O ritmo é rápido e Darren Cleary tem dificuldade em acompanhar todos os passos. São precisas duas onças (um “ounce ” são cerca de 30 ml) de Dos Hombres, às quais se junta outra onça de um xarope de água e mel e bitter aromático (mas “se não tiver em casa não é preciso”). Depois vem o sumo de um limão “fresco” — tem de ser fresco, sublinha Paul. Tira-se parte da casca, que vai ser mergulhada no cocktail, no final, depois de o preparado ser misturado num shaker e adicionado a um copo com gelo. “É muito fácil de fazer”. Na verdade, fizeram-no em menos de quatro minutos.

“Para as noites frias”, Aaron sugere que possa ser aquecido. É, aliás, assim que Cranston prefere: sem gelo, com mais mel. E numa caneca.

Algumas variedades de mezcal incluem uma larva no fundo da garrafa. E uma das perguntas do público que chega ao duo é se já experimentaram beber assim. Cranston não gosta da ideia porque “quando chegarmos ao final da bebida já teremos bebido as entranhas da minhoca. “Nunca faríamos isso.”

Mas, afinal, a que sabe o Dos Hombres? Para descrever o sabor, o ator molha o dedo com Dos hombres, coloca-o no pulso e abana o braço. Aí sente o aroma: “É frutado” resume.

E se, como o Guilherme Teixeira (ver foto), ficou com curiosidade em saber onde pode comprar Dos Hombres em Portugal, Aaron Paul responde que estão a fazer os possíveis para venha a ser possível. “Chegaremos lá, sem dúvida“.

Se Aaron Paul já tinha descoberto o mezcal antes daquele jantar de sushi, Cranston não estava convencido.”Só bebíamos nos tempos da escola secundária como castigo por chegarmos atrasados ou dizermos uma piada má”, conta. Ficou convencido quando foi a um bar só dedicado à bebida. “Fizemos um acordo de ir a Oaxaca, no México, para encontrar uma bebida que ambos adorassem. Se não encontrássemos não avançaríamos”.  Mas encontraram, “depois de uma longa semana”.

Termómetro da Web Summit online: menos é mais, Paddy

“Foi um dos momentos ah-ah”, relata Aaron Paul. Com a garrafa e a marca feitas faltava um distribuidor. Ligaram à “maior cadeia de líquidos da Califórnia”, mas só duas semanas depois de “chamadas insistentes” é que conseguiram uma resposta. “Acho que foi só porque as pessoas se fartaram de mim“, diz Aaron Paul. Craston não resiste à oportunidade: “Acontece o mesmo com a tua carreira de ator. Continuas a ligar e ninguém te atende“. Voltam a rir-se os dois, numa dinâmica de cumplicidade que lhes permite dizerem o que querem um ao outro sem esperarem consequências.

O mesmo tom volta mais tarde. “O que os levou a juntar forças?”, pergunta um espectador. “Senti-me mal pelo Aaron. Achei que depois do Breaking Bad ele tinha poucas opções”. E outra vez, já numa outra conferência no palco principal, depois de Aaron Paul dizer que avançou para o negócio “com uma das melhores pessoas que conheço”. “Gostava de poder dizer o mesmo”, respondeu-lhe Cranston.