Portugal

Intrigas, mentiras e vídeo – duas horas no Governo Bolsonaro

A divulgação do vídeo da reunião do Governo brasileiro de 22 de Abril pelo Supremo Tribunal Federal (STF) forneceu, inadvertidamente, uma oportunidade rara para vislumbrar os bastidores da gestão de Jair Bolsonaro. O resultado é extraordinário. Ao longo de duas horas, Presidente e ministros atacam instituições sem qualquer moderação, pedem a prisão de governadores e autarcas, discorrem sobre paranóias e conspirações, e abusam de expressões de grandiosidade em auto-elogios.

A gravação é uma peça crucial no inquérito que tenta apurar se Bolsonaro tentou interferir junto da Polícia Federal (PF) em benefício de familiares. O caso tem origem nas declarações do ex-ministro da Justiça, Sergio Moro, que apontou a reunião em questão como prova de que havia essa intenção por parte do Presidente brasileiro. O conteúdo da reunião já era conhecido e a sua divulgação atesta o que já se sabia. Bolsonaro afirma, a certa altura, que está disposto a demitir Moro se não puder trocar a chefia da PF no Rio de Janeiro.

A reunião decorreu a 22 de Abril e tinha como assunto principal a discussão do plano de relançamento da economia no período pós-pandemia. A iniciativa é apresentada pelo ministro da Casa Civil, o general Braga Netto, num tom tecnocrata e o objectivo da reunião é que os restantes ministros incorporem o espírito da reconstrução económica nas suas pastas.

Entre algumas propostas, como o reforço do cultivo de trigo, o encontro rapidamente muda de tom. O ambiente é tenso, com cada ministro a tentar mostrar quem segue mais de perto o espírito do “bolsonarismo”, enquanto o próprio Presidente se divide entre ataques aos seus ódios de estimação e recados aos companheiros de Governo. A colorir toda a reunião está o vernáculo escolhido pelos seus participantes, com destaque para Bolsonaro, que usa por cinco vezes o termo “merda”, quatro “putaria” e duas vezes “filho da puta”, entre outros.

Sobre o plano económico em cima da mesa Bolsonaro pouco fala. Mas há uma forte insistência do Presidente em exigir aos seus ministros que defendam mais o Governo publicamente. “Não é só ficar dentro da toca o tempo todo, não! É só porrada em cima de mim o tempo todo”, queixa-se Bolsonaro. É um tema recorrente ao longo das duas horas.

A virulência das intervenções do Presidente é marcante. O governador de São Paulo e o prefeito de Manaus são uma “bosta”, o do Rio de Janeiro um “estrume”, há uma agência do Ministério da Economia que é uma “putaria”, os serviços de informação são “uma vergonha” e a Folha de São Paulo é também uma “bosta”.

No dia da reunião, a pandemia da covid-19 estava em franco crescimento e registavam-se mais de 45 mil casos oficiais e quase três mil pessoas já tinham morrido. Porém, a única preocupação manifestada pelo Presidente naquele dia era um pedido para que as mortes de pessoas que contraíram a doença e que tivessem comorbidades não fossem registadas como óbitos por covid-19.

Ódios variados

Para o ministro do Ambiente, Ricardo Salles, a atenção dada pela imprensa à pandemia é uma “oportunidade” para avançar com a “desregulamentação” de medidas de protecção ambiental. A hora, diz o ministro, é de “ir passando a boiada”. As declarações de Salles foram de imediato condenadas pelas organizações ambientalistas brasileiras.

A intervenção mais violenta coube ao ministro da Educação, Abraham Weintraub, que tenta assumir o posto de expoente máximo ideológico do “bolsonarismo” no seu estado mais puro. A sua fúria é dirigida aos juízes do STF – “por mim, botava esses vagabundos todos na cadeia” – mas também aponta o dedo a colegas do Governo. “Percebo que tem muita gente com agenda própria”, diz, acrescentando que sabe da existência de “intrigas palacianas”.

O ministro manifesta o receio de que o Governo esteja a perder o foco daquilo que é a sua missão ao alinhar com as regras do jogo político de Brasília, excepto ele próprio. “Eu sou o único que levou processo aqui.” O “desabafo” termina com uma lista pessoal de ódios: “Odeio o partido comunista. Odeio o termo ‘povos indígenas’ (…) ‘povo cigano’. Só tem um povo nesse país. (…) É povo brasileiro.”

A ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves, também sugere a prisão de governadores por causa das medidas de confinamento no combate à pandemia. Vários membros do Governo mostram preocupação com as acções de expulsão de cidadãos das praias e de outros locais públicos pela polícia, por violarem as regras impostas pelos governos estaduais, mas para Damares esta é a “maior violação de direitos humanos da história do Brasil nos últimos trinta anos”.

A reunião desenrola-se sem um aparente fio condutor, com a performance a sobrepor-se ao conteúdo. Há espaço até para teorias da conspiração, como a suspeita, levantada por Damares, de que havia um plano para assassinar índios em Roraima para “colocar nas costas do Presidente Bolsonaro”. O próprio Presidente parece sugerir, a certa altura, que há espiões chineses infiltrados nos ministérios.

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