Alguns jogadores percebem na altura, outros precisam de alguns anos (e distância), outros nem assim. Os técnicos são diferentes em tudo mas, numa norma que se aplica aos mais expressivos, quanto mais “pegam” num jogador, mais estão a investir na sua evolução. E Alan Kardec, antigo avançado do Benfica, é um bom exemplo disso. “Sei que todos os momentos que trabalhei com ele foram importantes para a minha carreira porque pude evoluir. É uma pessoa diferenciada nas questões tática e técnica, consegue fazer a equipa jogar. Teve essa linha de cobrança bem alta, como faz à beira do campo, quando começa a gritar como um louco… Recebia [‘puxões de orelhas’] mas acho que era um dos preferidos. O perfil dele é mesmo esse”, explicou à Rádio Energia 97, de São Paulo.

Há quem não ache muita graça mas aquela forma de ser de Jesus na sua zona técnica (ou fora da mesma, o que lhe valeu a admoestação com três amarelos) consegue ter impacto nos mais variados momentos do jogo. E é por isso que Filipe Luís, lateral ex-Atl. Madrid de 34 anos que estava de regresso aos titulares, considerou que o técnico “é o ideal” para o Flamengo, “não por ser europeu mas porque é superior e, tendo uma maneira de falar que é explosiva, consegue corrigir os erros da equipa”. No entanto, na receção ao Bahia que tinha imposto a única derrota desde que o português assumiu o comando do conjunto do Rio de Janeiro, Jesus ficaria na bancada por castigo.

Se no início era acarinhado por todos até por uma questão quase de curiosidade, o português foi-se tornando cada vez mais amado e idolatrado pelos adeptos do Flamengo à mesma proporção que era mais odiado (entre o respeito crescente) pelos adversários, sobretudo os mais diretos como se percebeu no último triunfo com o Botafogo. Em tudo o resto, os números falavam por si: depois da vitória no dérbi carioca, o Mengão bateu o recorde de pontos num Campeonato com 20 equipas a duas voltas (74-72), superou a série máxima seguida sem derrotas na prova do clube (18-17), voltou a ganhar fora ao Botafogo uma década depois (antes já tinha quebrado um jejum de 45 anos sem triunfos fora com o Athl. Paranaense), pulverizou o número de triunfos consecutivos em casa.

Jesus tornou-se um fenómeno e, depois de várias músicas das claques cariocas, o português José Malhoa não quis passar ao lado e escreveu uma letra dedicada ao treinador e amigo que se tornou vira no Brasil.

“Jesus, alê! Alê, alê! O Flamengo te aplaude de pé!

Ele era um sonhador, vivia a pensar em sua vida vencer
Muito suor e bom trabalho no futebol ele quis crescer
Conseguiu ser um treinador que fez tanto furor com um Ferrari nas mãos
Hoje, o mundo sabe o seu nome, porque ele é um campeão

Jesus, alê! Alê, alê! O Flamengo te aplaude de pé!

Ele também conduz os homens e faz renascer as almas dos jogadores
Ele vive intensamente e a todos defende seja como for
Conseguiu ser um treinador que fez tanto furor com um Ferrari nas mãos
Hoje, o mundo sabe o seu nome, porque ele é um campeão”

No entanto, uma volta depois, o adversário era o Bahia. Com essa dificuldade extra de não poder contar com o técnico no banco (viu o jogo num camarote fechado do Maracanã, em contacto constante com um dos adjuntos que passava as indicações a João de Deus). E a primeira parte mostrou que o jogo seria tudo menos fácil, como foram tantos outros na condição de visitado entre várias goleadas à mistura que foi somando: em 45 minutos sem muitas oportunidades e com dois remates perigosos de fora da área (Everton Ribeiro aos 9′, João Pedro aos 25′), o Bahia conseguiu adiantar-se no marcador já perto do intervalo depois de um autogolo de William Arão, no seguimento de uma insistência de Elber após grande defesa de Diego Alves (39′).

Gabriel Barbosa, William Arão e Gerson ainda tiveram remates enquadrados antes do descanso para defesas de Douglas mas o Flamengo ia mesmo pela primeira vez a perder para o intervalo, lançando uma segunda parte com um contexto muito definido: o conjunto do Rio de Janeiro a forçar com tudo no último terço para chegar ao empate e partir para novo triunfo, o Bahia a jogar nas transições para tentar acabar de vez com o jogo. E depois de duas saídas muito perigosas dos visitantes, foi o Mengão que conseguiu a igualdade: Everton Ribeiro ganhou espaço pelo corredor central, Gabigol cruzou de primeira e Reinier, que entrou ao intervalo, a fazer de cabeça o 1-1 (55′).

Mais uma vez, Jesus lançou um jovem que estava no banco. Mais uma vez, Jesus viu um suplente utilizado entrar para marcar. E após um remate muito perigoso de William Arão, o jovem de 17 anos que renovou esta semana contrato com o Flamengo (depois de ter falhado o Mundial Sub-17, numa longa guerra entre o clube e a seleção) ficou a centímetros da reviravolta após um cabeceamento de Bruno Henrique que deixou a bola a pingar na área (66′). O golo, ainda assim, era uma questão de tempo e surgiu pouco depois: mais uma assistência de Gabriel Barbosa após grande passe de Filipe Luís e desvio de Bruno Henrique na área para o 2-1 (72′). Só faltava mesmo mais uma marca de Gabigol depois das duas assistências, algo que surgiria a três minutos do final após um livre direto de Arão à trave – e com esse golo igualou o registo máximo do clube, de Zico, em 1980 a 1982.

Apesar das dificuldades, o Mengão ganhou e aumentou a vantagem para o Palmeiras para dez pontos quando só faltam seis jornadas para o final do Campeonato. Desta forma, o título está cada vez mais próximo, com registos que superam aqueles que foram alcançados pelas equipas de Zico na década de 80 e de Ronaldinho, já este século. Mas há outro nome recordado nas bancadas do Maracanã. “‘Flamengo Hepta’ tem 13 letras. Salve o eterno Rei Zagalo”, dizia um cartaz de um adepto, recordando o facto do antigo jogador e treinador do clube ser supersticioso com o número 13. Com estas contas, só com muito azar Jesus não conseguirá sagrar-se campeão…

E para se perceber a dimensão do cartaz e do significado da expressão, uma breve explicação para aquilo que é defendido pelos adeptos do Flamengo: em 1987, o Sport foi considerado o único campeão do Brasil mas, a partir de 2011, a Confederação Brasileira de Futebol reconheceu também o Flamengo como campeão, somando-se assim aos cinco títulos conseguidos (1980, 1982, 1983, 1992 e 2009) o de 1987. “O Flamengo apresentou no início de fevereiro um estudo complexo a pedir à CBF que reconsiderasse a decisão de 1987 e reconhecesse o Flamengo como campeão junto com o Sport. O presidente Ricardo Teixeira passou para mim o estudo e, diante dos novos argumentos, vimos que seria justo e não causaria problemas jurídicos a ninguém”, explicou Carlos Eugênio Lopes, diretor jurídico da Confederação Brasileira, citado pelo Globoesporte. Contas feitas, 2019 seria… o sétimo.