Portugal

Os números da pandemia, os estados de alerta e calamidade, o cortejo. As diferenças entre a festa do FC Porto e a festa do Sporting

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Julho de 2020, maio de 2021: duas festas bem diferentes com apenas 10 meses de distância

Julho de 2020, maio de 2021: duas festas bem diferentes com apenas 10 meses de distância

FC Porto e Sporting celebraram com 10 meses de diferença e festas foram bem diferentes. Dragões não tiveram cortejo e único momento tenso foi nos Aliados. Leões aproveitaram ausência de preparação.

A grande distinção que tem de ser feita entre os festejos dos adeptos do FC Porto na época passada e os festejos dos adeptos do Sporting nesta terça-feira é, obrigatoriamente, o facto de ter existido um cortejo por parte dos jogadores dos leões. Não são necessariamente as diferenças nos números da pandemia; não é necessariamente o processo de vacinação que já decorre e que há um ano era uma miragem; não é necessariamente o cansaço pandémico que se foi acumulando e provocando uma perceção mais otimista e facilitista do momento que vivemos. A grande distinção, 10 meses depois, foi a existência desse cortejo. E, claro, de um campeão que não o era há 19 anos.

Ainda assim, é necessário comparar tudo o que aconteceu a 15 de julho de 2020, quando o FC Porto venceu o Sporting no Dragão e conquistou a Primeira Liga, com tudo o que aconteceu este 11 de maio de 2021, quando o Sporting venceu o Boavista em Alvalade e conquistou a Primeira Liga. Começando, talvez, pelo mais óbvio: os números da pandemia em Portugal. Em julho do ano passado, no dia em que os dragões foram campeões nacionais, o país registou 375 novos casos de Covid-19, o número mais alto dos cinco dias anteriores, e oito vítimas mortais. Esta terça-feira, Portugal registou 268 novos casos de Covid-19 e uma vítima mortal.

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Na altura, em julho de 2020, Portugal encontrava-se dividido em três estados de exceção: contingência, alerta e calamidade. Todo o território nacional continental estava em situação de alerta, com exceção da Área Metropolitana de Lisboa; nessa Área Metropolitana de Lisboa estava-se em situação de contingência, à exceção dos municípios e freguesias abrangidos pela situação de calamidade; eram 19 as freguesias da Área Metropolitana de Lisboa que estavam então em situação de calamidade. Ou seja, em linhas gerais, a região do Porto estava mais desconfinada do que a região de Lisboa: o que significava que, a Norte, podiam aglomerar-se até 20 pessoas na via pública, um número que na Área Metropolitana de Lisboa estava limitado a 10. Em todo o país, verificava-se (como agora) a proibição do consumo de bebidas alcoólicas na rua mas ainda não era obrigatória a utilização de máscara na via pública, algo que só passou a estar em vigor no final de outubro.

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Em julho do ano passado, os adeptos do FC Porto também celebraram sem grande respeito pelas regras de distanciamento social. Mas não houve ajuntamentos

Rui Oliveira

Atualmente, Portugal está em estado de calamidade, um nível superior à situação de alerta que estava implementada na maioria do território nacional há um ano. A proibição do consumo de bebidas alcoólicas na rua mantém-se e vigora então a obrigatoriedade do uso de máscara na via pública — duas regras que esta terça-feira foram amplamente desrespeitadas, tanto junto ao Estádio José Alvalade como no percurso da festa leonina até ao Marquês de Pombal. Os ajuntamentos públicos estão também limitados a 10 pessoas — neste caso em todo o país –, algo que obviamente não foi cumprido.

Ora, outra diferença entre a festa do FC Porto e a festa do Sporting acaba por ser o número de vozes que, há um ano e na iminência de os dragões se sagrarem campeões nacionais, tiveram posições públicas em que apelaram à calma, ao cuidado e à manutenção do distanciamento. O assunto até foi tema das habituais conferências de imprensa diárias das autoridades de saúde, onde Graça Freitas lembrou que o vírus continuava “a circular em Portugal”. “As circunstâncias de comemorar um Campeonato ou outra efeméride qualquer são exatamente as mesmas. Devem seguir as recomendações internacionais e as pessoas têm de evitar ajuntamentos e utilizar máscaras”, disse, na altura, a Diretora-Geral da Saúde.

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Também Jamila Madeira, então secretária de Estado da Saúde, alertou para a necessidade de controlar a euforia. “Este ano, a celebração do Campeonato terá de ser feita de uma forma contida. O lado efusivo tem de passar para uma perspetiva doméstica”, disse. E Rui Moreira, presidente da Câmara Municipal do Porto, chegou a dizer que não era possível controlar ou preparar os festejos e pediu que se evitassem as aglomerações. “Isto não são celebrações que têm data marcada. Ao contrário de outros eventos, aqui não sabemos quando vai suceder, em que dia, em que momento. Pode ser hoje, pode ser amanhã, pode ser daqui a uma semana, duas semanas. Não é possível, nesta matéria, tomar essas medidas de prevenção (…) Temos visto que a população tem sabido celebrar momentos muito importantes na cidade e gostaríamos de apelar a todos para que, em todos os momentos, tenham a contenção necessária para não estragarmos aquilo que, apesar de tudo e com muito esforço e sacrifício, temos conseguido”, explicou o autarca.

Atualmente, Portugal está em estado de calamidade, um nível superior à situação de alerta que estava implementada na maioria do território nacional há um ano. A proibição do consumo de bebidas alcoólicas na rua mantém-se e vigora então a obrigatoriedade do uso de máscara na via pública -- duas regras que esta terça-feira foram amplamente desrespeitadas, tanto junto ao Estádio José Alvalade como no percurso até ao Marquês de Pombal.

Desta vez, com o Sporting à beira de ser campeão e com datas a ser apontadas como possibilidade diariamente nos media, nenhum representante da DGS ou do Ministério da Saúde comentou o assunto previamente. Na semana passada, apenas quinta-feira à noite, o secretário de Estado do Desporto abordou o assunto a dizer que estava a tratar com as polícias e o Sporting. E na sexta-feira, depois de da Câmara Municipal de Lisboa ter sido dito que se tratava de uma questão policial, Fernando Medina (que vai receber os campeões dia 20) acabou por garantir que estava a trabalhar para que os festejos “ocorressem em condições de segurança física, mas também segurança sanitária”, e disse existir “uma grande preocupação” para não ser dado “um passo atrás” em relação à gestão da pandemia”, daí estarem a tentar “evitar aglomerações e pontos de grande concentração de pessoas”, pelo que iam ser “desenhados os modelos”, que a seu tempo divulgariam.

Esta terça-feira, a única recomendação feita por parte da DGS surgiu perto das 20h, a cerca de meia-hora do início do jogo em Alvalade e quando já milhares de adeptos leoninos estavam na rua há várias horas. “Neste sentido, tendo em conta o risco acrescido para a saúde pública que estas eventuais celebrações podem representar, a DGS emitiu um conjunto de recomendações para as autoridades locais e forças policiais”, podia ler-se na nota enviada à Lusa, onde o organismo não deixava de garantir que participou num “conjunto de reuniões” com a autarquia lisboeta e o Ministério da Administração Interna sobre a possível aglomeração de adeptos do Sporting na noite desta terça-feira.

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Do lado da PSP, e excetuando as declarações não oficiais que foram sendo feitas, a única conferência de imprensa aconteceu durante a tarde também de terça-feira, a poucas horas do início do jogo do Sporting contra o Boavista — e, novamente, quando já milhares de pessoas estavam nas ruas e junto ao estádio. As autoridades recordaram apenas que os ajuntamentos seriam dispersados e que o consumo de álcool na via pública era proibido, para além de terem aconselhado os adeptos a festejar em casa ou num único local. Antes, ao Observador, o Comissário Artur Serafim já tinha adiantado que existiam equipas da PSP de prevenção, prontas para reforçar o dispositivo policial montado se assim fosse necessário. Algo que acabou por acontecer, tanto em Alvalade como junto ao Marquês de Pombal.

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Por fim, a festa em si. Quando o FC Porto venceu o Sporting, em pleno Dragão, e reconquistou a Primeira Liga, já se sabia à partida que jogadores e adeptos não celebrariam em conjunto. A equipa levantou o troféu em pleno relvado, festejou com cerveja e música à mistura e daí saiu diretamente para o autocarro e para casa, cruzando-se apenas com alguns grupos de apoiantes que permaneceram junto ao estádio para ver a comitiva passar. Os adeptos dos dragões juntaram-se essencialmente na habitual Avenida dos Aliados, onde existiam talvez mais carros do que pessoas a pé, e o primeiro momento de maior tensão aconteceu na Alameda do Dragão, quando um grupo associado a uma claque organizada tentou invadir esse espaço e foi travado pelas autoridades presentes no local.

A dada altura, junto a Alvalade, antes dos jogo, já eram milhares os adeptos a festejar antecipadamente

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

“A claque dos Super Dragões ainda tentou festejar na Alameda das Antas, mas o cordão de segurança montado pela PSP não vacilou. Não restavam dúvidas de que o próximo destino seria o salão de festas da cidade: Avenida dos Aliados. Já passava da meia-noite e meia e na Baixa viam-se mais carros, a andar em passo de caracol, a buzinar e com bandeiras nas janelas, do que pessoas a andarem a pé. ‘Ainda não temos ordens para fechar a Avenida ao trânsito. Até agora tudo decorre sem incidentes’, revelou fonte da PSP no local ao Observador”, podia ler-se, na altura, na reportagem do Observador feita no Porto. Ainda assim, os ajuntamentos nos Aliados geraram alguma polémica, até porque eram imagens que não se viam há muitos meses e porque alguns adeptos foram afastados pela polícia com pontapés, e Rui Moreira acabou por comentar o assunto.

“No São João, fizemos uma campanha de sensibilização da população e depois decidimos que não havia necessidade de fechar a cidade. Só fechámos a Ponte Luís I porque o Metro do Porto nos pediu. Depois exigimos que os restaurantes fechassem mais cedo. Ontem, quarta-feira, essa situação não se colocava, porque o jogo acabava às 23h30 e os cafés e restaurantes estavam fechados. Fechava a Avenida dos Aliados? E se não ganhasse? Voltava-se a fechar e depois abria-se? (…) Não tenho responsabilidade sobre as questões de ordem pública, é a PSP que manda em mim, que me pediu os meios que coloquei à disposição: Polícia Municipal, ambulâncias e bombeiros por causa de engenhos pirotécnicos. Falámos com o FC Porto e o FC Porto percebeu que não se podiam fazer as celebrações. Os jogadores nem à varanda do estádio foram”, atirou o presidente da Câmara Municipal do Porto.

[Veja aqui a forma como a polícia afastou alguns adeptos dos Aliados em julho do ano passado:]

Do lado do Sporting, como se sabe, os jogadores não ficaram por Alvalade. Depois de Coates levantar o troféu e de toda a equipa festejar no relvado, a comitiva subiu aos dois autocarros panorâmicos e fez o trajeto desde o estádio até ao Marquês de Pombal. O percurso inicial previa a passagem pela zona do viaduto da Segunda Circular mas, devido ao ajuntamento que estava a acontecer nesse local, acabou por seguir pela Alameda das Linhas de Torres. Num cortejo que arrancou já para lá das 2h da manhã, a passagem dos autocarros motivou a corrida de milhares para o Marquês de Pombal, o clímax dos festejos, onde voltaram a existir diversos momentos de tensão entre os adeptos e as autoridades. Os grupos juntaram-se nas bermas das estradas e nas rotundas, para acompanhar a passagem da equipa, e acabaram por motivar vários aglomerados ao longo do caminho — algo que não teria acontecido se, tal como com o FC Porto, não tivesse existido um cortejo.

Quando o FC Porto venceu o Sporting, em pleno Dragão, e reconquistou a Primeira Liga, já se sabia à partida que jogadores e adeptos não celebrariam em conjunto. A equipa levantou o troféu em pleno relvado, festejou com cerveja e música à mistura e daí saiu diretamente para o autocarro e para casa, cruzando-se apenas com alguns grupos de apoiantes que permaneceram junto ao estádio para ver a comitiva passar.

No caso da festa dos leões, praticamente todas as reações, respostas e recomendações surgiram já perto do final do jogo ou já mesmo quando foi confirmada a conquista do título: António Costa apelou aos adeptos que celebrassem “em segurança” e lembrou que “a pandemia não acabou” perto da meia-noite e Marcelo Rebelo de Sousa, já esta quarta-feira, disse esperar que “dentro de 15 dias não tenhamos notícias menos boas por causa da euforia que houve nas ruas de Lisboa”. “Compreendo que as pessoas se emocionem e que queiram expandir a sua alegria mas vamos esperar que isso não tenha custos para os lisboetas. Aquilo que aconteceu não deve ser padrão para as próximas semanas e meses. Se toda a gente começa a entender que desconfinamento significa não observar regras, isso pode levar a situações que não são boas. Foi uma noite que não correu tão bem em termos de saúde pública, agora não generalizemos. Quem deve prevenir, não conseguiu prevenir. As entidades responsáveis mas também todos os cidadãos. Deve haver um comportamento cívico”, afirmou o Presidente da República.

A turbulenta viagem do autocarro do Sporting de Alvalade para o Marquês

Depois, e por fim, surge a questão da previsibilidade. Se era certo que há um ano, quando o FC Porto ganhou o Campeonato, muitos adeptos sairiam à rua para celebrar um título numa época que foi interrompida a meio, que obrigou a uma reviravolta na classificação (o Benfica esteve na frente durante o pré pandemia e com vantagem durante muito tempo) e que motivou a reconquista da Liga, mais certo seria ainda que milhares (milhões?) de sportinguistas não ficariam em casa no dia em que os leões foram campeões nacionais mais de 19 anos depois, o seu maior jejum de sempre. Se faltou algum civismo e muito respeito pelas regras que todos cumprimos há mais de um ano, faltou preparação e abundou ingenuidade. E muito disso passa pela existência do tal cortejo dos autocarros panorâmicos.

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