A saída do Reino Unido da União Europeia estava marcada para o passado dia 31 de Outubro, às 24h, mas pela terceira vez não se concretizou apesar de haver um acordo aceite por ambos os lados e aprovado pelo Parlamento Britânico.

Foram convocadas eleições gerais no Reino Unido para tentar desbloquear a situação e não se sabe ainda se a saída se vai concretizar ou não. Dependerá muito dos resultados das eleições, cujo desfecho está longe de poder ser dado como certo.

As consequências da saída foram já muito discutidas, da forma mais inflamada e com posições radicalizadas que vão desde a queda no abismo propalada pela revista The Economist (após 30 anos como assinante desta revista foi com o Brexit que vi, pela primeira vez, a demagogia predominar em alguns dos seus articulistas) até ao paraíso na Terra de alguns Brexiteers.

O que não foi discutido até agora foram os perigos de não haver uma saída. E porquê? Em diferentes conversas em Portugal e em outros países, incluindo com pessoas ligadas a instituições europeias, vou-me apercebendo que na Europa ninguém quer enfrentar a realidade que é o Brexit, preferindo enterrar a cabeça na areia e fingir que se trata apenas de uma irracionalidade de xenófobos saudosistas do Império Britânico e que “se os jovens tivessem votado, o “Remain” teria ganho”.

O primeiro, e mais imediato, perigo do não-Brexit é a incerteza económica que se vai avolumando e que prejudica todos, famílias e empresas. Curiosamente, e apesar de todos os prognósticos sensacionalistas, o Reino Unido é uma das grandes economias que melhor está a resistir a esta incerteza.

Recentemente chegou-se ao ridículo de ter a nova Economista-chefe da OCDE, que é francesa, a ser obrigada, enquanto criticava Trump, a juntar os EUA aos valores das economias francesa e alemã para conseguir apresentar um gráfico sobre os efeitos do Brexit que demonstrava que o crescimento médio destas três economias era superior e que a saída do Reino Unido estava a ser um desastre. Mas sem os EUA o crescimento britânico era superior à média de França e Alemanha.

O segundo perigo é o mais preocupante pois representaria a descredibilização da Democracia numa época em que o populismo igualitário está mais ameaçador do que nunca (também no Reino Unido, vejam-se as políticas de Corbyn), e em que o populismo xenófobo já conquistou uma fatia apreciável dos eleitorados.

O perigo não é no Reino Unido, onde a Democracia está enraizada há muito, como aliás o demonstra os 72% de participação no referendo de 2016 e o civismo com que os britânicos lidam com a questão. O perigo está em vários países e na própria UE, onde a Democracia está fragilizada. Não é aceitável a forma displicente e arrogante como foram tratados recentemente pelos líderes da UE alguns dos povos da Europa. Refiro-me a Grécia e Itália, em primeiro lugar, mas também aos outros países que fizeram referendos, especialmente sobre a proposta de Constituição Europeia, e cujos resultados foram pura e simplesmente anulados por pressão administrativa e a retirada de fundos europeus.

O mais importante entre o que os europeus fingem não querer perceber é que o Brexit é a recusa de (parte de) um povo em continuar a receber ordens de quem não foi por si eleito, demonstrando uma maturidade democrática que não existe no resto da Europa. O Reino Unido quer sair por duas razões muito simples: quer liberdade e não aceita a falta de Democracia em Bruxelas. Mesmo os que votaram “Remain” são sensíveis a esta questão. Apenas para cá do canal é que se finge que ela não existe.

O terceiro perigo vem do facto de que enquanto este assunto não estiver resolvido nem o Reino Unido nem a UE podem seguir em frente. O Reino Unido para ultrapassar a divisão interna do país e conseguir testar se o “take back control” se traduz efectivamente em mais desenvolvimento, mais crescimento económico e um melhor nível de vida para os britânicos.

Na UE, pelo contrário, há medo de que este teste resulte e que sirva de demonstração de que as instituições europeias estão a funcionar como um travão ao desenvolvimento. Por isso existe a cínica convicção de que quanto mais se arrastar o processo de saída maiores são as possibilidades de o teste ser negativo para os britânicos, mesmo que para isso se prejudique os povos europeus ou que seja necessário vir a ter um comissário europeu inglês indesejável (as apostas vão para Nigel Farage). É esta cínica convicção que explica a separação entre a negociação para a saída e a negociação para a relação futura entre UE e Reino Unido, de que Theresa May não gostou mas que acabou, imprevidentemente, por aceitar.

Mas esta atitude face ao Brexit é apenas um sinal de declínio das sociedades europeias que continuam a acreditar na utopia da bicicleta que não pode parar, mesmo que vá em direcção ao precipício. Os europeus preferem refugiar-se no conto de fadas em que uma Europa unida vai ser o farol do desenvolvimento da humanidade do que tentar corrigir os erros, as limitações e os perigos que estão associados ao funcionamento da União Europeia.

O Brexit é um sintoma do que está mal na União Europeia, e que toda a gente sabe mas se recusa a admitir e a discutir. As instituições europeias transformaram-se numa estrutura burocratizada, demasiado bem paga para o trabalho que faz e para o contributo que dá às sociedades e aos povos da Europa, e que está obcecada pela ideia de criar uma federação europeia que permita recuperar o lugar do continente enquanto centro do Mundo. E as discussões actuais na UE são mais para dividir o “bolo” que sobra do Brexit do que para colocar a “pastelaria” a criar riqueza.

Para Portugal, uma UE centrada no eixo franco-alemão seria trágica e só agravaria a nossa subsídio-dependência dos países europeus. Para além de termos de aturar o ego e os complexos de grandeza de Macron, que visita a China acompanhado de uma ministra e de empresários alemães enquanto ameaça bloquear a entrada dos países dos Balcãs na UE, o acordo com o Mercosul ou nos tenta ultrapassar nas relações com África, que são muito mais importantes para Portugal, teremos ainda de arcar com os acordos alemães para o fornecimento de energia da Rússia ou a crescente dependência da China. Portugal só tem a perder se passar a ser representado pelo Sr. Macron, pela Sra. Merkel ou pelos que os substituírem.

Ao contrário de franceses e alemães, o Reino Unido nunca quis falar em nosso nome e a nossa autonomia foi ajudada pelos britânicos ao longo de mais de 900 anos de História. Foi assim em 1147 na conquista de Lisboa, em 1385 na manutenção da independência face a Castela, em 1589 no apoio ao Prior do Crato, a seguir a 1640 na Restauração da Independência, em 1703 com o Tratado de Methuen e a Guerra da Sucessão Espanhola, ou no Século XIX durante as invasões napoleónicas, e é assim desde 1986, em que os britânicos foram a única defesa para uma UE subsidiária, descentralizada e realista.

Os britânicos atacaram-nos barcos, forçaram o comércio com as nossas possessões ultramarinas e fizeram-nos um ultimato no final do século XIX, mas nunca tiveram o fim último de invadir o nosso território. O Ministério da Educação prepara-se agora para mudar a História de Portugal para que estes factos não sejam tão evidentes e a nossa absorção pelo eixo franco-alemão seja mais aceitável.

O texto reflecte apenas a opinião do autor