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Uma não biografia de Zeca Afonso: Teresa Moure escreve e Maria João Worm desenha

Teresa Moure escreve, Maria João Worm desenha, e o resultado é a distenção do tempo no relato de uma vida. A biografia surge num plano que ultrapassa o da vida contada em anos e se projeta num agora que é o nosso

Esta é e não é uma biografia de José Afonso em banda desenhada. O texto de Teresa Moure e o desenho de Maria João Worm escolhem vias pouco óbvias para uma biografia, não deixando de documentar uma vida. A infância em Moçambique, os anos de Coimbra, a censura ou o 25 de Abril estão nestas páginas, bem como amores, amigos, descendência e, mais tarde, a doença.

O que este livro não faz é tentar fixar uma cronologia e à sua volta organizar uma vida, como se dias e anos fossem passíveis de arrumação tão regrada. Em vez disso, a narrativa vai entretecendo texto e imagem como quem puxa fios de um novelo, desvendando episódios da vida de José Afonso e cruzando-os uns com os outros em diferentes momentos, nomeadamente os de um presente-futuro em que o cantor já não existe. Esses momentos trazem outras pessoas, descendentes de gente que José Afonso conheceu, amigos, pessoas que se sentem de algum modo suas herdeiras. E esse registo da herança estrutura o livro, colocando a biografia num plano que ultrapassa o da vida contada em anos e projetando-a num agora que é o nosso. Este livro traz também uma visão do biografado muito marcada pela relação de José Afonso com a Galiza e pela admiração que tantos galegos — entre eles, a própria Teresa Moure — continuam a devotar ao autor de ‘Grândola, Vila Morena’, cantada ao vivo pela primeira vez em Santiago de Compostela. A partir de um argumento com tantas derivações, Maria João Worm cria uma gramática visual que convoca um teatro de sombras, não no sentido lúgubre, mas num registo que plasticamente lembra de facto esses recortes de papel onde luz, cor e sombra contam uma história. Afastada qualquer tentação realista do traço, essa escolha produz uma narrativa que coloca a leitura num olhar sobre o passado, mas sobretudo num plano em que o que se dá a ver é a memória e os seus ecos, mais do que uma suposta realidade. E, afinal, talvez isso seja tudo o que podemos guardar do que passou.

Este é um artigo do semanário Expresso. Clique AQUI para continuar a ler.

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