Brazil

Bolsonaro nos empurra o custo-reeleição

“O custo-reeleição pode ir além da reforma tributária, a nova CMPF e nos trazer uma crise econômica grave antes mesmo da eleição. Todos pagarão a conta, principalmente os pobres”, escreve a jornalista Tereza Cruvinel

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O custo da obsessão de Bolsonaro pela reeleição vem aí e todos pagarão a conta, principalmente os pobres. Neste domingo o ministro Paulo Guedes e o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros, esperavam apresentar a Bolsonaro o texto que acertaram sobre a reforma tributária. E a nova CPMF está lá, apesar das juras que Bolsonaro fez na campanha de que não criaria imposto. Mas o custo-reeleição não fica só nisso e pode nos trazer uma crise econômica grave antes mesmo da eleição.

A nova CPMF virá com uma boa desculpa: servirá para compensar a desoneração da folha de pagamento das empresas, e assim preservar ou gerar empregos. Esta semana o Congresso deve derrubar o veto de Bolsonaro ao projeto que prorrogava este benefício (para 17 setores econômicos)  por mais um ano. Se o governo perde arrecadação, precisa de compensação.

Guedes virá com uma proposta mais ampla de desoneração, para todos os setores. Empregos de um salário-mínimo terão o custo zerado. E para salários maiores, reduzido. Bolsonaro, que fatura o auxílio emergencial que não criou, explicará o imposto que criou (se o Congresso aprová-lo) como arma contra o desemprego. Embora seja incerto, dizem economistas, que a desoneração evitará demissões. Poderá, no máximo, estimular a formalização de empregos. Contratações acontecem é quando a economia cresce.

Apesar da embalagem, o novo imposto - que todos vão pagar nas transações eletrônicas, seja pagando boleto na lotérica ou fazendo transferências milionárias - terá, principalmente, o objetivo de gerar recursos para financiar um novo programa social para substituir o auxílio, agora de R$ 300,00, que acaba em dezembro. E com isso, continuar turbinando a aprovação de Bolsonaro, que segundo a pesquisa CNI IBOPE alcançou 40%. Há controvérsias que novas sondagens vão esclarecer.

Guedes, o antigo Posto Ipiranga, agora serve ao projeto reeleitoral para sobreviver no cargo. Sua autonomia acabou na pandemia, quando Bolsonaro começou a colher os louros do auxílio emergencial e passou a pensar só na reeleição. Quando interesses políticos passam a prevalecer sobre a gestão econômica, boa coisa não acontece. Por isso também a reeleição é nefasta ao país. Leva o presidente de plantão a sacrificar o necessário pelo desejado. Quem vai tomar medidas impopulares tendo uma eleição pela frente?

No pacote, que Guedes e Barros planejam discutir com os líderes aliados no Congresso amanhã, estará também a isenção de imposto de renda para quem ganha até R$ 3 mil. Já podemos imaginar Bolsonaro faturando esta medida junto aos mais pobres. É mesmo escandaloso que hoje pessoas com salário a partir de R$ 2.200, praticamente dois salários-mínimos, sejam mordidas pela Receita. Mas a proposta de Guedes-Barros é dar com uma mão e tirar com a outra. Deduções de gastos com saúde e educação vão acabar.

Haverá outras perfumarias tributárias, simplificação de impostos, nada que importe muito para a arrecadação. Mas, mesmo que a nova CPMF renda muito dinheiro, o governo continuará num dilema: para prorrogar ou substituir o auxílio emergencial,  terá que furar o teto de gastos. O Renda Cidadã, ou que nome tenha, vai custar muito mais que o Bolsa Família, que conta com R$ 24 bilhões no orçamento de 2021.  E a ala militar do governo ainda sonha com aquele plano de obras, o Pro-Brasil.

Ou se fura o teto, ous e corta em outras áreas. Mas onde, se o que resta no orçamento para investimento é muito pouco, se Bolsonaro, pensando na reeleição,  repele propostas indecentes da equipe de Guedes, como o congelamento das aposentadorias?

Não há escolha boa para o governo. Se der um cavalo de pau, esquecer o rigor fiscal (o déficit vai bater nos R$ 800 bilhões este ano), espantará o mercados e os investidores, já inseguros quanto aos rumos do governo. Mantido o teto de gastos e o fiscalismo neoliberal,  sacrifica-se a recuperação possível da economia. Medidas amargas teriam que ser tomadas, na reta para a disputa da reeleição em 2022. Não há sinal de que Bolsonaro tope coisa assim.

Certo é que, errante e populista, o governo pode nos levar a pior dos mundos,  com mais pobreza, juros subindo e a inflação voltando. Aliás, ela já está aí, no preço dos alimentos e dos insumos da construção civil, principalmente.

Dias ainda mais difíceis virão, com a chegada da conta da reeleição. A da pandemia estamos pagando com vidas.

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