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Como Bolsonaro uniu minha família. Por Zambarda

Jair Bolsonaro. Foto: Wikimedia Commons.

Tenho alguns motivos pessoais para não ser favorável ao candidato Bolsonaro. E eles vão além das divergências políticas.

Desde quando eu e meu irmão éramos crianças, minha mãe contava as histórias sobre o passado de meu avô. Ele não falava muito sobre suas origens. 

Preferia comentar sobre qualquer outro assunto. Sobre o programa do Silvio Santos.

Mas vovô era italiano. Nasceu na região de Trento. Tenho dupla cidadania graças a ele e um passaporte pra União Europeia. Ele me ajudou com a documentação pouco antes de falecer.

Trento era domínio italiano na Segunda Guerra Mundial. Antes foi área da Alemanha e da Áustria. Por esse motivo, tenho parentes alemães e austríacos nas origens da família de minha mãe. Por parte de pai, tenho bisavós que foram escravos negros e toda essa mistura sempre fez parte da minha família.

Vovô tinha uma aparência física diferente de muitos italianos de outras regiões. Tinha cabelos claros e olhos azuis. Você não o diferenciaria dos alemães.

Ele contava essa história para os meus pais, mas dificilmente falava do assunto diretamente para os netos. 

Vovô foi combatente da Marinha Italiana na Segunda Guerra Mundial. Aproximando-se do final da guerra, sentiu saudades da mãe, que enfrentou a perda de muitos entes queridos nas duas guerras mundiais, e foi visitá-la.

Meu avô foi dedurado por um dos seus camaradas da Marinha. Pelo Tribunal Militar, foi condenado à morte e considerado desertor. Antes, faria trabalhos forçados em campo de concentração.

Ele viu o que os alemães e os italianos fizeram com os judeus e os militares o obrigavam a rezar um Pai Nosso em homenagem a Adolf Hitler diariamente. Sobreviveu porque a guerra acabou antes de sua execução.

Meu sobrenome Zambarda vem dele.

Ao sair da cadeia, ele viu a fome, o desemprego e as casas destruídas. No porto, decidiu ir para o país da primeira bandeira visualizasse. Veio pro Brasil.

E ele sempre disse uma frase para minha mãe que nunca esqueci: “só quer a guerra quem nunca viveu uma”.

Minha mãe é uma mulher branca. Meu pai, negro, enfrentou preconceitos por sua cor de pele. Preconceito que mamãe vive desde quando eles eram só namorados.

Minha família nunca foi 100% de esquerda ou progressista. Convivemos, com respeito, com quem pensa de maneira mais conservadora, mais liberal, mais igualitária e de esquerda pró-LGBT e nem sempre nossos votos para presidente foram iguais.

Neste ano, votaremos todos contra Bolsonaro.

Somos uma das poucas famílias que não estão divididas pelo extremismo que vive o Brasil.

Porque, considerando o que meu avô passou durante a Segunda Guerra, considerando o preconceito com a cor de pele que meu pai passou, o machismo que incomoda minha mãe e muitas outras coisas, um candidato desses é inaceitável para a nossa história.

E seus seguidores podem ser violentos conosco.

Eu tento, por dever pessoal e jornalístico, me opor a qualquer personalidade política que queira reviver no meu país os horrores preconceituosos, racistas e totalitários.

Se Bolsonaro for eleito, é desses diferentes riscos que estamos falando.  

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