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Conheça a escola que ensina métodos de tortura e assassinato a futuros policiais e conta com apoio dos Bolsonaros

Publicado originalmente na Ponte Jornalismo

Por Jessica Santos e Jeniffer Mendonça

Antiga conhecida da Ponte, a AlfaCon, escola preparatória para aspirantes a policiais militares e federais, voltou a ser notícia nesta semana. Um vídeo em que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) se dirige especificamente a estudantes da escola e diz que daria posse a todos caso passassem em concursos federais voltou a circular nas redes sociais.

A Ponte checou que a gravação é de julho de 2018, antes da eleição (veja aqui a publicação original), e foi repostada no perfil do Instagram do fundador e presidente da escola, Evandro Bitencourt Guedes, e nas redes sociais da AlfaCon no dia 22/10, com uma edição por cima, destacando o número de 4 mil vagas para policiais federais e policiais rodoviários federais.

Isso porque no dia 15/10, durante a live que faz toda a semana, Bolsonaro declarou que abriria edital de concursos para 2 mil policiais federais e 2 mil policiais rodoviários federais em 2021. Evandro aproveitou o anúncio para fazer propaganda da sua empresa e alguns veículos de imprensa repercutiram o vídeo como se fosse recente.

E não foi a primeira vez que a família Bolsonaro demonstrou apoio à instituição. Foi em julho de 2018 que o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente, disse durante um curso da AlfaCon que bastariam “um cabo e um soldado” para fechar o STF (Supremo Tribunal Federal).

Professor Caveira

As histórias envolvendo a AlfaCon vão além de declarações de políticos. Em outubro de 2019, a Ponte publicou uma reportagem sobre a instituição. Nela, foi apresentada a figura de ex-capitão PM de SP, demitido em 2009, advogado e professor de Direito, Norberto Florindo Júnior, também conhecido como Professor Caveira. Entre os ensinamentos do docente, que já foi acusado de posse de cocaína em seus tempos de PM, estão a tortura e a omissão de socorro.

Norberto Florindo Júnior em sua didática sobre tortura

“Bandido ferido é inadmissível chegar vivo ao pronto-socorro. Só se você for um policial de merda. Você vai socorrer o bandido, como?! Com esta mão, você vai tampar o nariz e, com esta, a boca. É assim que você socorre um bandido”, explica em um dos vídeos.

Em outro, Norberto se vangloria de sua ficha de “baixas”: “São 28 [homicídios] assinados, um embaixo do outro, mais uns 30 que não assinei [risos]. Vai se foder, já prescreveu tudo! Foda-se, não estou nem aí”.

Na época das denúncias sobre as técnicas de tortura e execução transmitidas por Norberto, que teriam sido cometidas enquanto era policial militar em São Paulo, a Corregedoria da PM paulista informou que abriu investigação para apurar os crimes confessados.

Tem peru? Tem! Não é feminicídio

A conduta do “Professor Caveira” é corroborada pelo fundador da empresa, Evandro Guedes, agente penitenciário federal até 2015, quando foi exonerado, e ex-policial militar do Rio de Janeiro. Em uma aula, ele conta quando jogou uma bomba dentro de uma cela cheia de presos em revide por ser xingado. “Tem uma granada de luz e som que você só pode jogar a uma quadra, não pode em local confinado. Falei para dizer de novo e o cara falou. Joguei lá e fechei”, conta. “Não foi uma boa ideia, mas todo mundo ficou quieto. Teve uns probleminhas, alguns ouvidos estourados e pessoas machucadinha, mas o controle foi feito. Eu sempre amei fazer isso”, confessa.

O fundador da AlfaCon ainda caçoa de um hipotético caso de assassinato de uma mulher trans para explicar feminicídio. “Eu estou metendo no rabão dele, bonitinho, dei um tiro na cara do traveco. Tem peru, tem?! Não é feminicídio, não. Travesti sem pinto? Feminicídio”, diz em gravação.

Quem está por trás

A AlfaCon, que tem uma unidade em São Paulo e duas no Paraná, onde fica sua sede, tem como uma de suas acionistas a Somos Educação, empresa administrada pelo grupo privado de educação Cogna Eduação (ex-Kroton), que existe desde 1966 e engloba marcas de ensino como as universidades Anhanguera, Unopar, Unime e Unic, os colégios Pitágoras e a escola de cursos preparatórios e de pós-graduação LFG, entre outros. Sua atuação vai da educação básica à pós-graduação, incluindo cursos à distância.

Em nota à Ponte em outubro do ano passado, o grupo Somos explicou que “é acionista minoritária e, portanto, sem qualquer controle sobre a operação, corpo docente e executivos da AlfaCon Concursos Públicos”. “A Somos repudia veementemente qualquer prática discriminatória e de violação aos direitos humanos praticados por quaisquer pessoas”, seguiu a nota. Já o grupo Cogna, também procurado pela Ponte à época, preferiu não se manifestar.

A AlfaCon, no entanto, não teve qualquer problema com o conteúdo de suas aulas, mesmo após a Ponte, em outubro do ano passado, ter compilado e exposto várias das ilegalidades ensinadas pela escola. A revelação do conteúdo não motivou qualquer ação das autoridades e a AlfaCon continuou a receber apoio da sua “sócia minoritária”.

Procurado em abril deste ano, Norberto não aceitou falar com a Ponte, mas se pronunciou pela pela primeira vez sobre as denúncias no final de um vídeo. Ao dizer que, no final do ano passado teve “gente má fé querendo deturpar” a sua reputação, explicou que sua metodologia é diferente. “A gente sempre usa aqui nas aulas de métodos didáticos, métodos, digamos assim, um pouco não convencionais para chamar a atenção do aluno”, justifica. “São estilos de aulas. Sai um pouco de palavrão, sai um pouco de baboseira, merda, mesmo, mas tudo para despertar você.”

Também em abril desse ano, Evandro Guedes, dono da AlfaCon, publicou um vídeo em seu perfil no Instagram se defendendo após uma gravação, que não conseguimos confirmar a data, em que fazia discursos racistas em aula ter viralizado. Em vídeo intitulado “aos mimizentos”, explicou que seus exemplos são “toscos, mas com eles todo mundo lembra as questões”.

“A galera fica pegando trecho dos meus vídeos e fica fazendo sensacionalismo. Na boa? Eu quero que esses caras se explodam. Foram reclamar que eu chamei de negão e favelado. Porra, mermão, eu moro em Barra do Piraí, meus amigos é tudo preto, porra”, argumentou Evandro.

“Para assistir minha aula é faca na caveira. Vocês vão entrar na polícia para fazer o quê? Para agradas bandido? Ninguém vai para a polícia para cometer homicídio. Eu nunca precisei na polícia militar ser covarde com ninguém”, prossegue.

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