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Direita, mas não bolsonarista: os netos dos integralistas rejeitam Fauzi e querem ser ouvidos. Por Walter Niyama

O movimento integralista existe há cerca de 90 anos no Brasil, mas são jovens  que mais se interessam por ele no momento. O número de interessados é pequeno, mas é um contingente que faz barulho. E foi associado, no final do ano passado, a um atentado a bomba — o da produtora do Porta dos Fundos.

Dando sequência a uma série sobre os integralistas, movimento de direita, nesta reportagem dois dirigentes, Lucas Carvalho e Moises Lima, disseram ao DCM que existe diálogo com a esquerda, mas não com nazistas ou skinheads,

“A gente já conversou com pessoas, tanto da direita liberal quanto da esquerda marxista mais ferrenha. Esclarecendo nosso pensamento, não existe como ter briga”, diz Lucas.

“Temos contato com vários grupos dos quais divergimos, bolsonaristas, inclusive com membros do PT, de qualquer partido. Temos contato com o MBL”, acrescentou.

Perguntado se mantém contato com grupos neonazistas e skinheads, Lucas Carvalho afirma que é pouco frequente. Mas não nega que apareçam.

Moises complementa: nazistas aparecem por serem atraídas pelo “falso integralismo”, que a “mídia pinta”.

“Plínio foi o primeiro no Brasil a combater abertamente o fascismo e o nazismo”, comentou, e citou o documento chamado “Carta de Natal de 1935”.

O professor Odilon Caldeira Neto, autor do livro O Fascismo em Camisas Verdes — Do Integralismo ao Neointegralismo, recém-lançado em coautoria com Leandro Pereira Gonçalves, diz que alguns dos maiores grupos integralistas não são adeptos da violência física, mas que é preciso levar em conta que o integralismo não é apenas um grupo, mas uma ideologia politica de vida para seus militantes.

“Então ele é articulado por várias pessoas. Os grupelhos skinheads muitas vezes se inspiram no integralismo”, explica.

A adesão

Os integralistas, para conseguirem mais membros, promovem campanhas, Uma foto, ainda do início dos anos 2000, mostra seus militantes com o famoso uniforme verde-oliva distribuindo panfletos no vão do MASP, na Avenida Paulista, mas hoje a comunicação também se dá por outros meios, como grupos na internet.

“Através da internet principalmente, cada vez mais os jovens, pesquisadores, historiadores, etc. têm chegado ao Integralismo, o verdadeiro, e conforme essa verdade é propagada, ela cresce cada vez mais”, afirma Moisés.

No meio, o atual presidente da FIB ,Victor Emanuel Vilela Barbuy. Foto: Reprodução/Facebook

Lucas lembra ainda a questão familiar como atrativo, como a dele próprio. “O Brasil tinha muitos integralistas na década de 1930, então a quantidade de descendentes que têm uma foto do avô, algo ligado ao movimento, é muito grande, isso eu acho que é o principal motor dessas pessoas para esse tipo de curiosidade. Depois estudam sobre e se identificam”, comentou.

Afirmou ainda que o fato de os integralistas terem ganhado espaço na mídia recentemente se deu apenas porque os veículos começaram a notá-los em meio à onda de movimentos de direita que surgiram.

“Já prevíamos esse cenário. O ano de 2013 antecipou movimentos que aconteceriam no mundo, com as pessoas tendo um interesse político maior”, afirmou Lucas. Seu companheiro, Moisés, acrescentou: “A imprensa está começando a entender agora o que foi 2013, e que teve a eleição de Bolsonaro como reflexo imaturo dessa época”.

O integralista ainda disse que a sociedade, necessariamente, irá para um caminho mais nacionalista e integralista, nas palavras dele, “uma questão de destino de Deus”.

Cientista político José Álvaro Moisés. Foto: Reprodução/TV Gazeta

Para o cientista político, jornalista, escritor, professor da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador de pesquisas sobre qualidade da democracia, professor José Álvaro Moisés, a adesão e reaparecimento também se dá por conta da crise enfrentada pela esquerda e pela centro-esquerda:

“Abriu-se um vácuo politico que permitiu que grupos de direita – que até então viviam escondidos – pudessem aparecer. Esse foi o caso dos novos grupos integralistas e outros semelhantes. O surgimento de forças de direita no país não é necessariamente um problema. É parte da dinâmica democrática. O problema, como acontece na Alemanha, é se esses grupos defenderem posições que atentam contra os princípios democráticos”, disse, em entrevista ao DCM.

Para ele, a razão da atração desses grupos para os jovens está no fato de que a politica tradicional não está conseguindo atraí-los. Algo que ele considera que precisa ser visto como um desafio para política liberal e também para a esquerda democrática.

Sobre o “reaparecimento dos integralistas” , o professor Odilon Caldeira Neto,  professor da Universidade Federal de Juiz de Fora e autor de um livro recém-lançado sobre o movimento, explica que eles nunca deixaram de existir e continuaram em pequenos grupos ou infiltrados organizações e partidos.

“Precisamos levar em consideração também que a academia brasileira, por muitos anos, não se dedicou com ênfase aos estudos da direita. Muitas vezes, os grupos de extrema direita foram pouco estudados e, por conta de um ciclo de governos progressistas, as direitas foram um pouco esquecidas, e muitos achavam eventualmente que elas nem existissem mais. Outro fator foi que o integralismo, por ser formado por pequenos grupos na atualidade, tem que fazer o jogo político atrelado à conjuntura. Então, eles têm que se estruturar de acordo com as ondas conservadoras. Antes, o contexto político não era tão propício”, afirma Odilon.

Porta dos Fundos

Um assunto que levantou debates entre as pessoas foi o especial de Natal produzido pelo grupo de comédia Porta dos Fundos para a plataforma de streaming Netflix. Nela, Jesus, interpretado por Gregório Duvivier, tem um amante e possui dúvidas sobre seguir o caminho que Deus esperava para ele como messias.

Integralistas em vídeo reivindicaram atentado ao Porta dos Fundos. Foto: Reprodução

Diversas pessoas da extrema-direita, conservadores, bolsonaristas e religiosas se revoltaram com a obra, e a sede da produtora do grupo foi atacada com coquetel molotov por um grupo encapuzado que posteriormente gravaria um vídeo reivindicando o ataque: Comando de Insurgência Popular Nacionalista. 

Na época, a FIB negou qualquer envolvimento. Lucas afirma serem a favor de punições via Estado pelo que está previsto em lei: “Existe um limite moral para a liberdade de expressão, não se pode ofender alguém em nome dela. Mas o ataque ao Porta foi algo irracional, inclusive favoreceu o Porta dos Fundos. Um erro completo”.

A polícia identificou um dos membros do ataque, Eduardo Fauzi. Ele foi condenado em 2019 pela agressão contra o Secretário de Ordem Pública do Rio de Janeiro em 2013 e possui dois boletins de ocorrência abertos por sua ex-esposa por ameaça e agressão. Fauzi era filiado ao PSL (que o expulsou após o episódio).

Lucas Carvalho disse que Fauzi foi questionado pelo grupo sobre algum envolvimento com o caso, mas que foram ignorados. E que Fauzi nunca foi, de fato, filiado ao grupo, que as filiações foram suspensas em 2015. A representação dele na FIB seria então algo “informal”. No entanto, o site da FIB  chegou a informar que Eduardo era o presidente da organização no Rio.

Eduardo Fauzi era apresentado como dirigente da Frente Integralista. Foto: reprodução

Moises também destaca que a FIB o expulsou. Os dois afirmaram que tomarão mais cautela com futuros membros.

No dia 18 de abril, foi divulgado na internet um vídeo gravado em frente ao consulado da China no Rio de Janeiro. Nele se escuta pessoas hostilizando as pessoas dentro do prédio, gritando e buzinando. É possível ouvir uma mulher, entre xingamentos, berrar “comunismo é doença, malditos demônios”.

Uma pichação mostrou Fauzi como herói. No entanto, ao que parece, essa manifestação foi organizada por bolsonaristas, alinhados ao pensamento do ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub, pró-Estados Unidos.

Imagem mostra Fauzi sendo exaltado em uma pichação feita na frente do consulado da China. Foto: Reprodução

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Eduardo Fauzi fugiu para a Rússia depois do atentado e não voltou ao Brasil, onde teve a sua prisão preventiva decretada. Ainda assim, faz barulho. Seus advogados entraram com processos contra Gregório Duvivier, um dos donos do Porta dos Fundos, por conta do que este disse em uma live.

”Para mim é muito a cara do Brasil, assim, é meio que dançarino de boate, tem gente que alegou que ele era cafetão, ao mesmo tempo ele é guardador de carros entre aspas, tinha sei lá quantos mil reais em casa, é rico para caralho e guardador de carro, e ao mesmo tempo é integralista, só no Brasil tem integralista e cafetão, é um mix de milícia com integralismo com prostituição, com fundamentalismo, que realmente só no Brasil para ter assim”, afirmou.

Duvivier foi processado na esfera criminal, por injúria, e na esfera cívil, em que Fauzi reclama indenização de 100 mil reais. Não se sabe quem banca essas ações — se Fauzi, em cuja casa a Polícia Civil encontrou R$ 119 mil, ou se algum rico adepto dessa ideologia de direita.

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Os professores Odilon Caldeira e Leandro Gonçalves, autores do livro O Fascismo em Camisas Verdes — Do Integralismo ao Neointegralismo, deram entrevista ao DCM. Veja o vídeo:

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