Brazil

Entre o banheiro privativo e a desconstrução da história

Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia, critica a reforma no Planalto para dar espaço à primeira-dama. "Além de pagar por uma adaptação já realizada anteriormente, ainda teremos o dano social de ter reduzido o espaço de uso público da biblioteca, para dar lugar à necessaire de dona Michelle e as de suas 'amigas'”, ironiza

Por Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia - Não foi mencionado o motivo pelo qual a dona Michelle está de mudança, com a sua “galera” da ONG (?) “Pátria Voluntária”, pela terceira vez. Ela já esteve na Casa Civil, já ampliou as dependências do Ministério da Cidadania pela módica quantia – paga por nós -, de R$ 330 mil e agora invade as dependências do lugar destinado a guardar aqueles livros cheios de letrinhas, que na visão do presidente, para nada servem. 

Questionado sobre o assunto, Bolsonaro colocou na mesa as seguintes alternativas: ou aplaudem a iniciativa de Michelle, ou levam pela cara uma nova banana. Ficou valendo a segunda opção, já que do lado de cá não achamos graça nenhuma em trocar o espaço que guarda três mil discursos dos nossos ex-presidentes – nenhum que chegue perto da dificuldade verbal do marido dela – por rolos de papel higiênico, para serem usados em seu banheiro privativo.

Sobre a mudança para a nova “sede” fica registrado apenas que Michelle frequentou mais o cabeleireiro – já mudou três vezes a cor do cabelo desde que o marido assumiu a presidência – do que as dependências que lhe foram destinadas no Ministério da Cidadania. Teria a moça dificuldades de relacionamento, a ponto de “melar” as atividades de sua ONG (?)? Ou a ponto de ter que empreender mudanças a todo momento? Ou Bolsonaro, o paranoico, não permite que sua mulher trabalhe fora do alcance dos seus olhos?

Certo é que além de pagar por uma adaptação já realizada anteriormente, ainda teremos o dano social de ter reduzido o espaço de uso público da biblioteca, para dar lugar à necessaire de dona Michelle e as de suas “amigas”. 

O acervo, de 42 mil itens, além de conter os discursos presidenciais ainda reúne 5,4 mil normas inferiores indexadas, obras com ênfase em Direito, Economia e Administração. A biblioteca é especializada em Ciências Sociais e possibilita ter a acesso à legislação que determinou a criação e a função dos ministérios e das secretarias, e biografia, discursos, mensagens ao Congresso dos ex-presidentes do País e a composição de seus ministérios.

De acordo com a descrição contida no site do Palácio do Planalto, “a Biblioteca da Presidência da República foi fundada no governo do Presidente Wenceslau Brás (1914-1918), sendo composta inicialmente por setecentos e setenta e duas obras (772), em três mil seiscentos e noventa e cinco (3695) volumes. Por algum tempo o papel da Biblioteca concentrou-se basicamente em atender a demanda por informações legislativas e pesquisas jurídicas dos servidores da casa, o que motivou a equipe de bibliotecários da Presidência a promover sua primeira reorganização. Desse projeto, realizado a partir de 1951, no governo do então presidente Getúlio Vargas nasceu uma nova biblioteca, especializada nas áreas de legislação, direito administrativo, direito constitucional e ciência política. Dentre os novos serviços que passaram a ser oferecidos destacavam-se os de caráter histórico-informativo relativo aos presidentes e vice-presidentes do Brasil.”

É neste trecho da descrição, porém, que o assunto “desconstrução” passa a nos interessar. Para quem nos últimos meses tem se preocupado em embaralhar a história recente e reescrevê-la a partir de 1964, negando todas as obviedades e atrocidades já comprovadas, inclusive, do ponto de vista documental, passa a nos interessar:

Em 1961, com a mudança da capital para o Distrito Federal, a Biblioteca da Presidência da República foi instalada no Palácio do Planalto e o seu acervo continuou a ser atualizado nas áreas inicialmente estabelecidas. A partir de 1979, o Serviço de Documentação, ao qual a Biblioteca estava subordinada, passou a fazer parte da estrutura e competência do Gabinete Civil, o que levou a Biblioteca a incorporar parte do acervo bibliográfico da Secretaria do Conselho de Segurança Nacional. Nesse mesmo ano, a Biblioteca foi transferida para o anexo I do Palácio do Planalto, onde se encontra até hoje”.

Alô historiadores, alô pesquisadores! Estão lá documentos testemunhos de uma época em que tal como agora, a democracia não gozava dos seus melhores dias. O presidente lotou o palácio de militares – um deles, o General Heleno, foi do gabinete do golpista e linha duríssima, Sylvio Frota, ex-ministro do Exército na ditadura. Quem nos garante que a reforma não é uma fachada para fazer desaparecer documentos importantes do período? Quem nos garante que esta não é uma “faxina ideológica”, que fará sumir do mapa a história tal como os fatos se deram? 

Pode ser que sim, pode ser que não, mas enquanto D. Michelle está preocupada com o seu “xixi” privativo, eu cá me preocupo se os respingos de sua “mudança” não resvalam para o corredor, onde preciosidades estão empilhadas, à espera do “esquecimento”. Historiadores! Uni-vos.