Brazil

Equinos e bovinos no Carnaval

Limpar o cocô de centenas de equinos, asininos e bovinos que desfilavam na rua puxando carros alegóricos, ou conduzindo as guardas de honra e seus arautos e as guardas mirins, era tarefa penosa para o departamento de limpeza pública da cidade. Clubes como o Cruz Vermelha, Fantoches e Inocentes incorporavam no seu cortejo entre 50 e 80 animais, cada um, a depender do tema-enredo. Outros clubes menores também dependiam dos animais, era impossível fazer andar um carro alegórico sem bois ou cavalos. O cocô de rua pode ter sido uma das motivações, além da boa educação, para o público acompanhar os desfiles sem invadir o espaço dos préstitos.

Os animais precisavam se alimentar, beber água e dormir. Fornecedores os traziam da área rural e do subúrbio, para locação por uma semana, montavam a infraestrutura na Praça Marechal Deodoro, que já era um ponto de cocho e cama equina durante a Lavagem do Bonfim. Lavar os cavalos, pentear e “escovar” as crinas, azeitar as ferraduras e vesti-los com luxuosos mantos bordados, com filetes dourados, essa era tarefa de uma comissão específica. Os blocos contavam com responsáveis para essas atividades. No Fantoches, Arlindo Fragoso e Francisco Cunha cuidavam das alegorias; Frederico Albertazzi da música e da contratação das charangas e Dona Celestina Maria dos Santos “do luzimento do cortejo”.

Durante meses, costureiras confeccionavam o grosso das fantasias - as importadas eram para os figurantes mais representativos do enredo - guardavam segredo e evitavam falar com estranhos. Mesmo assim, vazava para os concorrentes, o que ocorria, não apenas no atelier de costura, mas, no galpão onde eram montados os carros. Difícil manter o segredo do tema enredo com tanta gente envolvida, inclusive jornalistas que faziam parte das comissões dos clubes e desfilavam, senão eles, seus filhos e filhas, montados a cavalo, ou como figurantes nos carros alegóricos.

O que fez a fama do Cruz Vermelha, Fantoches da Euterpe e do Inocentes em Progresso, pondo-os em destaque sobre as demais agremiações, não foi apenas o luxo, mas a quantidade de carros e, consequentemente, a riqueza conceitual do enredo. Contar uma história com dois ou três carros de ideias era uma coisa, contar com dez a doze carros era outra. Para cobrir os custos de um préstito tão dispendioso, os clubes realizavam vários bailes pré-carnavalescos, e corriam entre os associados e gente do comércio os livros de ouro, onde os contribuintes assinavam constando o valor ofertado.

Para que o público entendesse o enredo, os clubes distribuíam cartilhas e publicavam nos jornais o tema, a ordem dos carros, o significado dos personagens e das alegorias; quem não lia os jornais e não tinha base cultural para entender enredos que se baseavam em fatos da história universal ficava a ver navios. Daí o sucesso dos blocos menores que priorizavam os carros de críticas com referências ao cotidiano dos baianos e da política e cuja dramatização tornava mais fácil o entendimento. Entre 1895 e 1905 o Carnaval contou com outra categoria de clubes, os blocos de africanos. Alguns desfilavam com poucos figurantes, outros como a Embaixada Africana com vários carros alegóricos e enredos que nos remetiam à história das monarquias do continente com seus símbolos e crenças.