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Brazil

Guedes mostrou que preconceito faz parte da política econômica

A queixa do ministro da Economia sobre empregadas domésticas que vão a Disney revela um cerebro impregnado por preconceitos contra a maioria dos brasileiros, escreve Paulo Moreira Leite, do Brasil 247

Por Paulo Moreira Leite , para o Jornalistas pela Democracia - Ao se queixar das trabalhadoras domésticas que já puderam ir a Disney, Paulo Guedes consumou uma proeza poucas vezes testemunhada no Estado brasileiro.

Sabemos que, na vida cotidiana, ninguém se surpreende com declarações preconceituosas, que refletem um país que acumulou uma história com 300 anos de escravidão.

A novidade, aqui, é que, pela boca do ministro da Economia do governo Bolsonaro, cérebro dos mais graves ataques ao bem-estar da maioria dos brasileiros, comprova-se que que o preconceito está longe de ser um elemento fora do lugar -- mas tornou-se  parte constitutiva da política econômica do país.

Influi na tomada decisões, determina as medidas que são tomadas, explica as escolhas feitas.  

O ministro disse:

“Não tem negócio de câmbio a R$ 1,80. Vamos importar menos, fazer substituição de importações, turismo. [Era] todo mundo indo para a Disneylândia, empregada doméstica indo para a Disneylândia, uma festa danada!”

Para quem não entendeu, vamos explicar. O ministro não está preocupado com eventuais vantagens ou desvantagens de uma política de cambio alto ou cambio baixo, tema que alimenta um debate eterno entre economistas neoliberais e desvolvimentistas. A discussão não é técnica.

Está preocupado com o efeito do dolar  a 1,80   na vida da maioria dos brasileiros. Fica incomodado com a "festa danada" da "empregada doméstica indo para a Disneylandia". Sabemos o tipo de mentalidade  que fica incomodada com a "festa danada" das pessoas  pobres", não é mesmo? Também sabemos a cor da pele que costuma ser associada a essas pessoas, certo?

Não é um momento isolado. Quando debateu a reforma administrativa,  Paulo Guedes disse que é preciso acabar com a estabilidade do funcionalismo público porque se trata de um "parasita".  

Novamente: não se trata de um debate objetivo, no qual se pode fazer um debate para tentar convencer o país das vantagens e desvantagens relativas aos dois sistemas. O ministro quer impor uma visão indiscutivelmente preconceituosa sobre os funcionários públicos, aqui retratados como aproveitadores incorrigíveis.

O problema das autoridades movidas pelo preconceito reside na natureza intransponível de uma visão de mundo sem dúvida associada ao ódio.

No século XIX, nas décadas finais da campanha abolicionista, o escritor José de Alenar, umas das principais lideranças que defendiam a permanência da escravidão, era incapaz de   reconhecer a barbárie em construção na sociedade brasileiras daquele tempo. Preferia dizer que o cativeiro era necessária para "civilizar" o negro. Não era um cidadão qualquer -- mas um dos principais romancistas da época, influente e reconhecido como poucos.

É fácil reconhecer a matriz do Brasil de 2020, de Paulo Guedes e Jair Bolsonaro.

Alguma dúvida?

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