Brazil

História da ex-guerrilheira Maria Auxiliadora vira filme

Aos 23 anos, Maria Auxiliadora Lara Barcelos, a Dora, entrou para a luta armada contra a ditadura. Foi presa, torturada, exilada no Chile e agora sua história virou filme, que estreou na Mostra de Cinema de Tiradentes e segue até 31 de janeiro

Siga o Brasil 247 no Google News Assine a Newsletter 247

Por Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia 

“Sou boi marcado, fui aprendiz de feiticeira… Eu era criança e idealista. Hoje sou adulta e materialista, mas continuo sonhando. Dentro da minha represa não tem lei nesse mundo que vai impedir o boi de voar.” A frase é da ex-guerrilheira Maria Auxiliadora Lara Barcelos, a Dora, citada no discurso de posse da ex-presidente Dilma Rousseff, juntamente com Carlos Alberto de Freitas, o Beto. Emocionada, Dilma os homenageou, dizendo que gostaria de tê-los ao seu lado naquele momento.

Para resgatar essa história pouco conhecida, a atriz e criadora Sara Antunes mergulhou na trajetória dessa aguerrida mineira, estudante de medicina e guerrilheira, criando o curta “De Dora, por Sara”, que estreou na Mostra de Cinema de Tiradentes e segue até 31 de janeiro disponível no link do festival. Sara montou também o espetáculo digital Dora, que estreia dia 5 de março, pela plataforma Vimeo.

Aos 23 anos, Maria Auxiliadora entrou para a luta armada contra a ditadura, como integrante da organização Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares). Foi presa no dia 21 de novembro de 1969, com Antônio Roberto Espinoza e Chael Charles Schreier. Dora, ou Dodora – como era chamada -, e Chael foram vítimas de torturas severas. Ela passou por choques elétricos e palmatórias nos seios e Chael morreu, por conta dos pontapés e socos que levou, 24 horas após os maus tratos.

Por tudo isto, foi incluída na lista dos presos trocados – num total de 70 militantes de esquerda – aceitos pelo Chile, do presidente Salvador Allende. Com o golpe que levou Allende à morte e muitos exilados à prisão, conseguiu sair e viveu na Bélgica, França e, em 1974, fixou-se na Alemanha, onde viveu até 1976, quando atormentada pelos traumas do passado, se jogou nos trilhos do metrô, aos 31 anos.

Para realizar este trabalho, Sara conta que “a pesquisa é como um caleidoscópio fragmentado, mesclando trechos de cartas, imagens de arquivos e relatos autobiográficos da atriz”.

Angela Bicalho, mãe da cineasta, faz uma participação especial, traçando um paralelo entre a vida de Dora e a trajetória familiar da diretora. Dora, mineira como os pais de Sara, nasceu no mesmo ano em que sua mãe e se envolveu na resistência à ditadura, tendo sido presa e exilada, assim como aconteceu também com o pai da Sara, Inácio Bueno.

De posse de um material histórico inédito, confiado pelos familiares à atriz e cineasta, Sara traça um percurso de registro de memória e afirmação das trajetórias femininas na política.  “Neste projeto, não pretendo mitificar heróis, também não se trata de uma homenagem, mas acho importante debruçar sobre a história do país do ponto de vista de quem participou dela. Principalmente, as mulheres”, afirma.

Sara detalha que “em seus dias na prisão Dora foi exposta a diferentes tipos de violações, sobretudo de cunho desmoralizante frente à sua condição de mulher. Entre ser colocada em exposição como objeto para visitação de militares curiosos e degradação moral diante dos companheiros. Dora denunciou as violências sofridas na ocasião de seu julgamento, na Justiça Militar”.

Sobre a importância de trazer Dora à cena, explica: “ao reconstruirmos a subjetividade de períodos traumáticos que deixaram marcas profundas na história deste país, confrontamos a política da amnésia com que se pretende, reiteradamente, apagar um passado incômodo para criar campos de ignorância histórica que, novamente, convocam abertamente forças repressoras. Dora é um projeto importante de reparação histórica, de pretensão multidisciplinar em que as lutas femininas do Brasil estão em foco”, resume Sara.

Conteúdos confiados à Sara, pela família, geraram diferentes obras

Desde que tomou conhecimento da história de Dora que Sara vem gestando a ideia de um espetáculo, com estreia prevista para 2020. Com a pandemia o projeto ganhou novas possibilidades e nasceu o curta “De Dora por Sara”, filmado e dirigido em parceria com Henrique Landulfo, que estreou na mostra de Tiradentes (em janeiro de 2021). Para Sara, trata-se de um projeto transmídia. “Ele não foi pensando assim, mas se transformou pela necessidade do momento. Nasceu como cinema, será apresentado como teatro no formato on-line e, futuramente, quando for possível, pretendo levar para o teatro presencial. São obras distintas, mas complementares”, detalha.

Esse projeto é a continuação de uma pesquisa que a atriz vem fazendo sobre história e representação das mulheres no Brasil como nas criações: “Hysteria”, “Hygiene”, “Negrinha”, “Guerrilheiras”, ou “Para a Terra Não há Desaparecidos” e “Leopoldina, Independência e Morte”.

“Em um momento como o que vivemos, de negação da história, trazer o documento real, o arquivo e os fatos, é de suma importância. Temos aqui o registro e compartilhamento em grande escala, e a chance de fazermos o ato teatral se transformar em ativação de memória social, ponte entre tempos, potencializando o corpo feminino em luta. É uma oportunidade imensa de registrarmos outro olhar para as mulheres da história brasileira e promover um encontro que nos foi negado e segue sendo”, conclui.

O conhecimento liberta. Saiba mais

A você que chegou até aqui, agradecemos muito por valorizar nosso conteúdo. Ao contrário da mídia corporativa, o Brasil 247 e a TV 247 se financiam por meio da sua própria comunidade de leitores e telespectadores. Você pode apoiar a TV 247 e o site Brasil 247 de diversas formas. Veja como em brasil247.com/apoio

Football news:

Morata contracted a cytomegalovirus infection. The Juve striker fainted after the game with Porto
Prosecutors have reopened the case against Jerome Boateng for assaulting an ex-girlfriend in 2019. She died in February
Gian Piero Gasperini: I will not talk about the removal, or UEFA will disqualify me for 2 months
Zidane on the removal of the Broiler: I don't know if the penalty was excessive. The real world was not his best match, but the win
Ex-referee Iturralde on the removal of the Broiler: Borderline foul. It was possible to show both yellow and red
Gasperini on 0:1 with Real Madrid: You just need to win in Madrid. There is no need to speculate
Toloi about 0:1 with Real Madrid: Atalanta played a great match. We're still in business, now we have to win