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O Carnaval do Recife e Olinda em 5 retratos

O Trilhas da Democracia exibido na segunda-feira de carnaval debateu a resistência da cultura popular com 2 mestres do maracatu de baque virado pernambucano, uma das expressões culturais mais reconhecidas do estado: mestre Fabinho, da Nação Estrela Brilhante do Recife, e mestre Danilo, da Nação Aurora Africana de Jaboatão. 

O que passo a escrever abaixo não passa de, como o título do presente texto assinala, 5 retratos de inúmeros possíveis que capturei com meu olhar de folião que não desliga seu juízo crítico nem mesmo durante os 6 dias momescos nas cidades de Recife e Olinda, um dos carnavais mais famosos do país, em função da sua multiplicidade de ritmos e culturas e do seu caráter popular. Dos 5 retratos, poderíamos designar os 3 primeiros como expressivos da realidade social brasileira, enquanto os 2 demais como indicadores do nosso cenário político atual. 

Retrato 1 – a privatização do carnaval nas duas cidades continua avançando de maneira desenfreada, com a proliferação dos chamados camarotes que realizam as suas festas particulares de grandes dimensões, numa clara sinalização de apartação social ocorrida com a devida autorização dos respectivos governos municipais. 

Retrato 2 – a degradação do trabalho humano permanece se fazendo presente enquanto blocos e troças desfilam pelas ruas do Recife e ladeiras de Olinda – e aqui não me refiro aos vendedores ambulantes, mas sim aos catadores e às catadoras de latinhas de cerveja, que passam os dias de festa recolhendo os dejetos deixados pelos foliões. 

Retrato 3 – a seletiva e violenta abordagem dos policiais militares (os chamados baculejos) contra jovens negros, com seus cabelos descoloridos, só faz aumentar em quantidade à medida que essa parcela da juventude tem no período das festas carnavalescas um dos raros momentos nos quais podem ocupar ruas e ladeiras a fim de se divertir. 

Retrato 4 – como que a demonstrar a baixíssima popularidade do presidente da República, pelo menos entre os foliões de Olinda, o boneco de Jair Bolsonaro (e só o dele num desfile interminável dos famosos bonecos de Olinda) encontrava-se cercado por uma quantidade significativa de policiais militares, que procuravam intimidar as pessoas a não jogarem garrafas de água e latas de cerveja na sua direção – vã tentativa, pois que, volta e meia, estas últimas conseguiam atingir em cheio a cabeça do boneco. 

Retrato 5 – dos 2 refrãos muito pouco elogiosos ao presidente entoados durante o carnaval recifense/olindense (“Ei Bolsonaro vá tomar no c.” e “Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai Bolsonaro é o c.”), a frequência nos blocos e troças da pequena burguesia progressista foi muito maior que nos blocos e troças das classes mais subalternizadas. É claro que os retratos acima apontados não passam de, como todos os retratos, registros momentâneos de um olhar permeado de subjetividade, ainda mais quando o retrato é tirado em meio a uma festa com as dimensões do carnaval de Recife e Olinda.

Porém, parece-me claro que o carnaval está longe de ser uma festa do povo ou um evento no qual a realidade é suspensa em nome da euforia generalizada. Diferentemente, é uma festa coletiva que mostra de maneira potencializada algumas das nossas mazelas sociais (desigualdades, precarização do trabalho, violência policial, por exemplo), bem como as possibilidades e limites da crítica política.