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Brazil

O Equador e seu beco. Cadê a saída?

O colunista Eric Neponucemo afirma que o Equador entrou em um beco sem saída. Ele diz: "os líderes indígenas já disseram que não aceitam a submissão ao FMI que destroça direitos conquistados. O que Moreno tem para dizer a eles?". Neponucemo completa: "este é o beco em que se encontra o país. Agora, é buscar a saída – ou do beco, ou do presidente"

Por Eric Neponucemo, para o Jornalistas Pela Democracia - Neste domingo, treze de outubro, se completam dez dias de manifestações concentradas em Quito, a capital, mas que se reproduzem país afora. O Equador está praticamente paralisado: em muitos pontos já há um claro desabastecimento de comida e combustíveis, e boa parte das estradas estão tomadas por correntes de manifestantes que se dirigem a Quito.

Sexta-feira houve uma nutrida passeata até a Assembleia Legislativa, na capital. Já o sábado foi dia de manifestações de mulheres indígenas, com milhares delas marchando pelos bairros mais abastados e gritando consignas contra o governo. 

Se na sexta os manifestantes foram reprimidos com gás lacrimogêneo e balas de borracha, no sábado, enquanto elas marchavam sem sofrer repressão violenta, eles voltaram a cercar a Assembleia. E de novo ocorreram choques com a polícia, com cenas de muita violência. 

A essa altura já se somam cinco mortos (entre eles um dirigente indígena), há pelo menos outros novecentos feridos e o número de pessoas presas passa de mil. Nessa cifra não estão incluídos os presos e feridos do sábado, dia doze. 

A grande novidade dos últimos dias, no entanto, foram as imagens de soldados do Exército imóveis diante dos manifestantes que deveriam reprimir e às margens de marchas que deveriam dissolver. Essas imagens foram registradas nos caminhos que conduzem as grossas fileiras de manifestantes que chegam do interior até Quito.

Já na capital a situação é bem diferente, embora as manifestações tenham começado pacíficas. A reação da polícia e de tropas do Exército ao tentar desfazer passeatas tem sido de tal forma desproporcional que despertou reações negativas mundo afora.

Lenín Moreno, o presidente, já no início das manifestações transferiu a capital para Guayaquil, e insiste em anunciar aos quatro ventos que está disposto a dialogar. 

O autor dos discursos lidos por ele recebeu instruções para ser enfático, e foi: dirigindo-se aos líderes de movimentos indígenas, Moreno lançou um chamado ‘aos dirigentes para que sentemos e conversemos’ sobre o ‘883’. O número corresponde ao famigerado decreto que disparou o preço dos combustíveis e é a ante-sala de uma vasta série de outras medidas que prejudicarão ou eliminarão direitos conquistados e consolidados há décadas. 

O alvo principal de seu pedido é um só: Jaime Vargas, principal dirigente da Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador. 

A CONAIE, como é conhecida a confederação, é o eixo ao redor do qual giram todas as manifestações, reunindo sindicatos, estudantes, organizações sociais e anônimos que se juntam às marchas multitudinárias. 

Como se tal demonstração de suposta boa vontade fosse pouco, Moreno também anunciou a instalação de uma mesa de negociações que teria como mediadores emissários que seriam enviados pela ONU. 

Esqueceu apenas dois detalhes: avisar à ONU e ouvir dos líderes indígenas que eles estavam de acordo. 

A resposta de Jaime Vargas foi curta e clara: ‘Isto não vai parar até que o FMI saia do Equador’. Aproveitou e advertiu seus seguidores: ‘A tarefa é ir à luta, renovar forças e manter o bloqueio das ruas e a ocupação de prédios públicos e sedes de governo’. 

No sábado, porém, houve mudança de rumo. Depois de consultar outras lideranças indígenas, a CONAIE aceitou uma tentativa de diálogo.

Não há sinais de que o panorama especialmente turbulento no Equador se faça mais suave. Moreno está pendente do FMI, que impôs a série de medidas que levaram à atual situação. 

Seu futuro, porém, depende muito mais do que decidam as ruas. 

Aliás, convém recordar que de cada quatro equatorianos, um é indígena. E que suas manifestações derrubaram Abdalá Bucaram em 1997, Jamil Mahuada em 2000 e Lucio Gutiérrez em 2005.  

Uma vez mais o que se vê é o que se viu nesses três episódios: uma longa, árdua manobra de isolamento e desgaste do presidente de turno. 

Os líderes indígenas já disseram que não aceitam a submissão ao FMI que destroça direitos conquistados. O que Moreno tem para dizer a eles? 

Este é o beco em que se encontra o país. Agora, é buscar a saída – ou do beco, ou do presidente.

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