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Sem desenvolvimento estratégico, em 2050 não será possível alimentar toda população do mundo, por Ergon Cugler

Sem desenvolvimento estratégico, em 2050 não será possível alimentar toda população do mundo

por Ergon Cugler

Relatórios publicados recentemente pela ONU apontam que com o crescimento populacional e as atuais barreiras tecnológicas, até 2050 não será possível alimentar toda população. Enquanto isso, a miséria avança lentamente, tornando cada vez mais urgente o debate sobre as mudanças climáticas, sociais, políticas e econômicas em relação às tecnologias 4.0 que tomam conta do mercado internacional.

Segundo o mais recente relatório apresentado pela Organização das Nações Unidas (ONU), mais de 820 milhões de pessoas em todo mundo (1 em cada 9) não tiveram suficiente acesso a alimentos em 2018, configurando um aumento de 10 milhões de pessoas se comparado ao ano anterior e crescimento no terceiro ano consecutivo (valor duas vezes maior que percentual de crescimento populacional no período).

A íntegra do estudo publicado em julho pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) também indica que 26,4% da população mundial (2 bilhões de pessoas) está em situação de insegurança alimentar moderada ou grave com dificuldade no acesso a alimento saudáveis, sendo ainda 1 em cada 7 bebês, fator que prejudica 21,9% das crianças menores de 5 anos (148,9 milhões) ao gerar atraso em seu crescimento e 7,3% (49,5 milhões) com peso abaixo do indicado para sua estatura.

Há ainda outro relatório apresentado pela ONU na mesma semana destacando o aumento do Índice de Pobreza Multidimensional (IPM), no qual aproximadamente 21,3% da população mundial (mais de 1,3 bilhão de pessoas) se encontra em situação de pobreza multidimensional – indicador que engloba fatores conjunturais, tais como acesso à saúde, nutrição e habitação – a partir da pesquisa realizada em mais de 100 países.

O relatório completo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) ainda aponta que mais de dois terços (886 milhões) vivem em países de renda média, enquanto os demais 440 milhões estão em países de baixa renda. Tais dados expõem o cenário de desigualdade existente principalmente em países desenvolvidos, onde mais da metade da população multidimensionalmente pobre são crianças menores de 18 anos e um terço são crianças com até 10 anos.

Riscos

Ao relacionar os estudos da ONU com as publicações da Oxford Poverty and Human Development Initiative (OPHI) evidencia-se que o acelerado crescimento populacional somado às mudanças climáticas e a degradação dos recursos hídricos e fundiários devem tornar o mundo mais vulnerável à insegurança alimentar, com o risco de não ser mais possível alimentar toda população até 2050 – quando esta deve saltar de 7 para cerca de 10 bilhões de pessoas – demandando produção adicional de um bilhão de toneladas de cereais e 200 milhões de toneladas de carne por ano.

Há ainda o processo de desindustrialização que afeta principalmente países com baixo grau de desenvolvimento tecnológico – sendo uma tendência internacional identificada pela Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad) – e o risco de exponenciação da insegurança alimentar e da pobreza multidimensional se intensifica, estabelecendo aos países com menos recursos tecnológicos uma posição subalterna em relação àqueles que desde já desenvolvem alternativas para superar as ameaças de racionamento de recursos.

Enquanto multifacetada, a miséria demanda alinhamento de diversos setores para combatê-la, sendo político, econômico, social e inclusive climático – considerando as constantes mudanças e a responsabilidade sustentável em elaborar alternativas – mas sem também existir empenho no desenvolvimento tecnológico, todo esforço permanece inerte.

Tecnologia 4.0

Da produção de alimentos até sua chegada aos lares, as tecnologias da informação e comunicação (TICs) apresentam soluções digitais para superar barreiras tanto estruturais quanto sociais no combate à miséria, desde que desenvolvidas de imediato.

Na agricultura, por exemplo, a otimização do gerenciamento das plantações através do uso de inteligência artificial e big data pode potencializar o processamento de dados climáticos, fitossanitários, relativos à nutrição e irrigação, dinamizando a automatização da irrigação, a identificação de componentes do solo e a atualização em tempo real das condições climáticas através de imagens fornecidas via satélite, sendo possível promover um aumento das safras, até 2030, de 900 kg por hectare.

A redução de desperdícios também é outro desafio, sendo possível utilizar de machine learning na elaboração de malhas logísticas cada vez mais inteligentes e evitar a alocação de recursos distante do volume necessário através de informações integradas, a qual passa a demandar não somente menos energia para o transporte, mas também menor espaço físico para conservação dos recursos.

A inteligência artificial tem contribuído inclusive na investigação científica, sendo possível buscar milhões de informações dispostas em artigos já publicados e correlacioná-los de modo mais veloz que a prática manual, gerando novas possibilidades para o avanço da pesquisa. Tal mecanismo pode elaborar desde novas técnicas para otimização do plantio e seus recursos ou elaboração de carnes sintéticas mais próximas da proteína animal, como também garantir maior grau nutricional através criação de complementos alimentares que combatam diretamente a desnutrição.

Há ainda a preocupação com a preservação do meio ambiente, onde estudos da União Internacional de Telecomunicações (UIT) apontam que com o uso TICs desde o cultivo, pode-se poupar cerca de 250 trilhões de litros de água em 2030 e reduzir em até 20% o desperdício de alimentos, retraindo em cerca de 20% o consumo de gás carbônico e em até 70% o consumo de petróleo, proporcionando medidas mais sustentáveis.

Responsabilidades

O cenário projetado para as próximas décadas é extremamente grave caso não esteja alinhado ao empenho dos países no desenvolvimento de tecnologias colaborativas para a redução das desigualdades e do profundo combate à miséria em suas múltiplas esferas, até porque a ciência ajuda a desenhar políticas sociais, desde que exista o compromisso por parte dos agentes públicos em relacionar tais políticas com tecnologias sociais.

Para tanto, a regulamentação de tecnologias precisa ser dinamizada, tendo em vista sua constante mutação e velocidade com qual se renova. Tal movimento não deve ferir os ritos de tramitação existentes no país e muito menos seu sistema político, mas tal compreensão não deve significar colocar os avanços tecnológicos único e exclusivamente a serviço da burocracia, mas desenvolver mecanismos burocráticos que estejam a serviço do avanço tecnológico, renovando instituições para cumprirem as demandas inerentes ao progresso.

Quanto ao avanço, é necessário contínuo e progressivo financiamento de programas de pesquisa científica, sejam produzidas pelas universidades e possibilitando a inovação que o ambiente acadêmico tem por fim promover, ou ainda através da pesquisa gerada pelo próprio setor produtivo ou centros de pesquisa na ampliação de tecnologias com a implementação de conhecimentos desenvolvidos pela academia.

A partir de mecanismos desenvolvidos, assegurar políticas públicas de ampliação da ciência, tecnologia e inovação, trazendo a responsabilidade para o Estado propiciar programas que relacionem a produção científica com impacto direto na redução de desigualdades e barreiras no que se refere a capacitação educacional e profissional da população, pois com o conjunto de avanços tecnológicos, os países que não garantirem a transição qualitativa de sua mão-de-obra nas próximas décadas, terão não apenas elevados índices de desemprego, mas ingerência econômica em níveis catastróficos. 

Para garantir que a tecnologia esteja a serviço da população, torna-se ainda necessário ampliar o debate acerca de políticas antitruste – com desenvolvimento de agências regulamentadoras que utilizem do próprio avanço tecnológico para identificar e enfraquecer práticas de monopólio – e fortalecendo a existência da competição desde que atrelada à inovação científica e com maior inclusão econômica e social. Ao mesmo tempo, estimular plataformas que propiciem a redução de intermediários nas vendas da safra, garantindo maior participação de pequenos e médios produtores e possibilitando redução de custos ao consumidor final.

Torna-se central desenvolver redes colaborativas que contenham decisores políticos, organizações multilaterais, organizações não governamentais e agentes do setor privado para então superar as lacunas de infraestrutura entre padrões tecnológicos nos países menos desenvolvidos e em desenvolvimento e promover o compartilhamento de tecnologias para a redução do custo de produção de novos mecanismos, bem como garantir a integração de habilidades digitais por meio da conectividade e compatibilidade de plataformas existentes.

A solução não é simples e muito menos imediatista, no entanto, para garantir não apenas a redução da miséria, mas impedir seu avanço, é urgente ter responsabilidade científica ao combater a concentração de tecnologias por megacorporações e assegurar o compartilhamento de ferramentas tecnológicas, devolvendo, então, a ciência para o povo.

* Contribuições de Marcelo Nakamura Saito, também pesquisador da Universidade de São Paulo (USP).

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