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A arte e os votos

Decorria ainda a campanha presidencial nos EUA, em 2016, quando abordei neste espaço o assunto da música enquanto ferramenta política. Apesar de na altura, e durante os quatro anos seguintes, terem sido emitidas centenas de cartas do tipo “cessar e desistir”, por artistas cuja música foi utilizada como pano de fundo ou como ligação emocional com os eleitores, a verdade é que os artistas têm pouco a fazer se o utilizador/político (leia-se Trump) paga todas as taxas exigidas por lei e usa a música para os seus comícios e manifestações eleitorais. Por isso, essas cartas servem mais para se demarcar das posições políticas e pessoas que possam ser associadas com a música que estão a utilizar. Os últimos quatro anos demonstraram nitidamente como a polarização política pode levar à polarização artística mas também como a associação com artistas pode representar um fator substancial na determinação dos votantes.

A lista dos artistas ofendidos e revoltados por terem sido desta maneira, involuntariamente, associados com Trump, é bastante extensa: Pavarotti, Queen, Earth, Wind & Fire, George Harrison, Neil Young, R.E.M., Adele, Elton John, Rolling Stones, Prince, Pharrell Williams, Rihanna, Guns ‘N Roses, Ozzy Osborne, Tom Petty, Leonard Cohen, Phil Collins, entre muitos outros – todos eles, autores de êxitos mundiais cuja música ou texto foram desvirtualizados para que os adeptos do Trump formassem uma identificação artificial e falsificada com a mensagem artística deles. Na verdade, nem na sua própria inauguração lhe foi fácil encontrar nomes sonantes que quisessem atuar.

Durante a sua presidência, foram igualmente poucos os artistas que o publicamente apoiaram, entre eles, os atores Jon Voight e Roseanne Barr, os cantores Ted Nugent e Kid Rock e, curiosamente, os “rappers” Lil Pump, 50 Cent (pelo menos inicialmente) e Lil Wayne.

Do outro lado, da lista dos artistas a apoiarem Joe Biden, constam muitos nomes com carreiras verdadeiramente brilhantes, tais como os cantores Taylor Swift, Ariana Grande, Beyoncé, Madonna, Lady Gaga, Diddy, Justin Timberlake, Cardi B, Eminem, Zendaya, Bruce Springsteen, Carole King, Cher, Barbra Streisand, Jason Mraz, John Legend, MC Hammer, Cyndi Lauper e Melissa Etheridge, os atores Alec Baldwin, Tom Hanks, John Leguizamo, Debra Messing, Seth MacFarlane e Leonardo DiCaprio, o escritor George R.R. Martin (A guerra dos tronos) e o realizador Rob Reiner.

Será isso por, na plataforma de 2020 do Partido Democrático dos EUA, constar que “as artes são essências para a nossa sociedade livra e democrática, para a nossa cultura e para as nossas economias locais. Os democratas orgulham-se do apoio às artes e educação e continuarão com as políticas e programas que promovem as artes criativas”? Enquanto que, da plataforma de 2020 (copiada da plataforma de 2016) do Partido Republicano dos EUA não consta NENHUMA palavra sobre as artes.

E quanto é que valeu ao Biden a manifestação de apoio da Lady Gaga, que apareceu ao seu lado num dos últimos ralis, um dia antes das eleições presidenciais, no estado de Pensilvânia que ele acabou por ganhar (facto fortemente disputado por Trump) por uns magros 1.2% entre quase 7 milhões de votantes? Isso em contexto de ela já ter estabelecido a reputação como filántropa e ativista, tendo recentemente angariado 127 milhões de dólares para trabalhadores da linha de frente durante a pandemia e uns anos atrás ter vestido o agora famoso - e infamo - vestido feito da carne de vaca, para protestar as restrições governamentais aos direitos dos soldados gay. Esse tipo de apoio valeu-lhe o convite para cantar o hino do país na inauguração do novo presidente, tendo participado na cerimónia também Jennifer Lopez, que, dizem, dançou e derramou umas lágrimas quando recebeu a notícia da vitória de Biden. Mas tomar partido torna-se às vezes perigoso para os artistas: Taylor Swift relatou que esteve a incentivar os seus representantes para criticarem publicamente o Trump e eles estavam a barafustar, com muito medo de que isso podia custar-lhe a rejeição por uns tantos fãs. E para quem instrumentaliza a arte para intervir no processo político o custo pode ser até muito maior – veja-se apenas o exemplo de Bobi Wine no Uganda, já detido pelas autoridades por várias vezes no passado, e que neste momento continua na prisão domiciliar depois das eleições no país, que ele se atreveu de contestar.

“A arte é política!”, declarou recentemente a antropóloga Maria Paula Meneses, e já George Orwell observou que, se alguém afirma que a arte não devia ter nada com a política, ele próprio já tacitamente (e, talvez, inconscientemente) está a assumir uma posição política.

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