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A juventude dos anos 1990 sobe ao palco e baixa as calças à “Maioria Absoluta”

O café-teatro do Campo Alegre está transformado num sótão, onde sete jovens atores, personagens sem nome com as fraldas de fora, camisas de flanela desabotoadas, sapatilhas All-Star ou as botas negras e as meias rasgadas remanescentes de uma estética punk, transportam o público para a década de 1990. Anos incontornavelmente marcados pelas lutas estudantis contra as propinas e em prol de um ensino de qualidade e gratuito, às quais se somou também o bloqueio da Ponte 25 de Abril, em 24 de junho de 1994, quando o Governo liderado por Cavaco Silva aumentou o valor das portagens de 100 para 150 escudos. O país vivia o longo período de uma década do cavaquismo, com políticas assentes nas privatizações, em que a abertura de universidades privadas era uma realidade e os fundos comunitários, provenientes de Bruxelas, serviam para cobrir de um cinzento-alcatrão a paisagem portuguesa.

É este o mote para o espetáculo “Maioria Absoluta”, uma criação em estreia do Teatro Experimental do Porto e encenada por Gonçalo Amorim, apresentada no Teatro Municipal Campo Alegre, entre esta quarta-feira e 24 de março. A peça constitui o terceiro episódio da triologia “Tratado da Juventude”, sucedente do “Grande Tratado da Juventude” e de “A Tecedeira que Lia Zola”.

Num período em que as artes e a cultura eram relegadas para a irrelevância e proliferava a perspetiva economicista de não existir alternativa, discurso presente ainda nas políticas contemporâneas. As profecias do fim do mundo, na viragem para o segundo milénio da era cristã, assolavam o imaginário coletivo. “O fim do mundo é quando me partem o coração? Quantos fins do mundo é que já tiveste?”, interroga uma das atrizes. “3”, “10”, respondem-lhe os amigos.

A escola ensinou-lhes 10 maneiras de se venderem ao inimigo, dizem, enquanto a sociedade os instruiu sobre as 100 maneiras de se venderem aos vizinhos, ao mesmo tempo que em palco, riffs distorcidos de guitarra fazem ecoar o Hino da Alegria. Trata-se de um retrato impressionista de uma juventude inquieta - apelidada de “geração rasca”, expressão preconizada pelo jornalista Vicente Jorge Silva, em 1994, num editorial do jornal Público - desprovida das crenças ideológicas e distanciada dos valores da revolução. Eram adolescentes com uma atitude libertária, uma minoria insurgente, para quem a “maioria são os mortos”, lançando como pedras, em cena, palavras de ordem como: “uma maioria absoluta é uma merda, é ter medo de conversar” ou “comparada com o Cavaco, a RDA não é assim tão má”.

José Caldeira

Era assim a geração daquela década, disposta a derrubar os muros da moralidade, numa dicotomia constante entre a luta e a desistência amorfa de todas as causas. A peça termina, simbolicamente, no exterior do teatro, com os sete atores - com os corpos transpirados de batalhas interiores -, alinhados lado-a-lado, de costas para o público, enquanto contemplam o céu noturno e baixam, literalmente as calças para um sistema em que os jovens dos anos 1990 não se sentiam representados. “Olha para cima, meu amor. As estrelas não as pagamos”.

No final de um dos ensaios, o encenador Gonçalo Amorim, lembra os tempos de juventude e de engajamento nas manifestações estudantis, “na luta por um ensino gratuito e de qualidade, com apoio social para quem precisava”. Os anos 1990, com o ícone de Kurt Cobain “sempre a ressoar”, são os “mais parecidos com a nossa época”, nota o responsável artístico. Permitem, prossegue o criador na explicação, “construir uma linhagem desde esse período até agora, porque as maiorias absolutas de Cavaco Silva introduziram em Portugal aquilo que eram as políticas de Margaret Thatcher ou Ronald Reagan, com as privatizações, o controlo das contas e uma perspetiva economicista de não haver alternativa”.

Assistia-se ao “fim da história e das ideologias”, acrescenta Gonçalo Amorim. “Era uma juventude que vivia constantemente com a ideia de que não há pelo que lutar. A juntar a isto, ainda havia a ideia do fim do mundo. Era como uma mistura de ficção científica com algum messianismo”, recorda o diretor do Teatro Experimental do Porto, enquanto questiona “que natureza é esta, própria dos jovens, que os faz ir para a frente de uma guerra”.

“A força que a juventude tem é um misto do viço do corpo e da mente, com muita inconformidade e inconsciência dos atos, necessárias para que o mundo se transforme e ande”, defende o encenador, para quem este regresso à década de 1990 “obriga a fazer uma digestão da História e a olhar para o futuro”.

José Caldeira

A assistente de encenação Sara Barros Leitão frisa a forma como o espetáculo dialoga com a atualidade. “Parte deste motivo dos anos 1990, mas não retrata essa época de uma perspetiva historicista. Esteticamente, é como se estivéssemos a assistir a um videoclipe daquela época, com uma visão impressionista do que foi aquele período. Nenhuma cena começa ou acaba, e não há personagens”, nota a cocriadora de 27 anos.

O paralelismo com os dias correntes fica patente também com a recriação teatral de “uma série de lutas que não terminaram”, como “as lutas LGBT, da emancipação da mulher ou da igualdade de género, que começaram naquela época”, acrescenta a jovem artista. “Somos descendentes dessas políticas em que tudo foi levado ao limite, com a entrada para a CEE, em que tudo nos foi prometido e nada nos foi dado”, finaliza Sara Barros Leitão.

“Maioria Absoluta” estreia esta quarta-feira, pelas 21h30, no café-teatro do Teatro Municipal Campo Alegre, e as récitas prolongam-se até 24 de março. A peça pode ser vista de quarta a sexta-feira, às 21h30, este sábado e no próximo, pelas 19h, e às 16h deste domingo.

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