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A “Primavera” de Ali Smith é um espaço para respirar

Ali Smith prossegue, com “Primavera”, uma tetralogia escrita de rajada (um livro por ano), com conclusão prevista para 2020

Leonardo Cendamo/Getty Images

Um belíssimo livro sobre temas pesados que consegue o milagre de ser esperançoso

No cais de uma estação de comboios no norte da Escócia, Richard Lease, um realizador profundamente deprimido com a morte da sua melhor amiga e colaboradora, está imóvel, paralisado, como que suspenso num limbo. Em fuga das “histórias”, tanto das que conta como das que vive, parece ter atingido uma espécie de limite, uma falência existencial.

Esta crise, e o que a ela conduziu (das desilusões profissionais às memórias da desaparecida Paddy, passando pelos diálogos com uma “filha imaginária”, na impossibilidade de conversar com a filha verdadeira), é o objeto de uma das duas linhas narrativas principais de “Primavera”, terceiro volume de uma tetralogia de Ali Smith sobre as estações do ano, reflexo quase em tempo real destes anos turbulentos que se vivem no Reino Unido e no mundo.

A outra linha narrativa acompanha a viagem improvável de Brit, vigilante num centro de detenção para imigrantes ilegais, e Florence, uma rapariga de 12 anos obcecada em “humanizar”a máquina cada vez mais desumana da sociedade, até à mesma estação de comboios, onde o destino das três personagens se une, provisoriamente, numa atmosfera de “conto de fadas”. O desenlace acontece em Culloden, palco da última batalha terrestre na Grã-Bretanha, e esse é só um de muitos simbolismos que Smith convoca.

***** Primavera, de Ali Smith - Elsinore, 2019, trad. de Manuel Alberto Vieira, 302 págs., €18,79, Romance

***** Primavera, de Ali Smith - Elsinore, 2019, trad. de Manuel Alberto Vieira, 302 págs., €18,79, Romance

Embora paire sobre estas páginas o triunfo dos populismos e da mentira, a manipulação das massas, e o acumular de nuvens negras sobre a próxima década, Smith não se limita a erguer um mero espelho do Zeitgeist. “A estratégia narrativa e a realidade são coisas distintas, mas simbióticas” — e é dessa complexa simbiose que o romance vive. Como em “Outono” e “Inverno”, há muitas referências literárias e artísticas: a Dickens e Shakespeare; à coexistência de Katherine Mansfield e Rainer Maria Rilke numa cidade suíça, em 1922, sem nunca se terem encontrado; a Chaplin; aos desenhos a giz em lousas gigantes feitos por Tacita Dean.

De um experimentalismo que nunca se fecha em si mesmo, servido por uma belíssima linguagem, poderosa e lírica, “Primavera” é um livro sobre temas pesados que consegue o milagre de ser surpreendentemente leve e esperançoso. Ao ver as nuvens de Dean, numa galeria, Richard diz que elas tornaram “o espaço para respirar possível depois do confronto com algo que cortava a respiração”. O efeito da escrita de Ali Smith sobre o leitor é similar.