1. “Estado forte – Saúde – EE banalização”. Que é como quem diz “banalização do Estado de Emergência”. O primeiro tema que foi abordado no debate desse dia, entre seis dos sete candidatos à Presidência, foi a questão da eficácia das medidas de confinamento decretadas pelo Governo e a renovação do estado de emergência. A candidata socialista sempre se mostrou favorável à atuação do Governo e à aplicação de medidas restritivas, mas com um ‘mas’. No seu entender não se devia ter “banalizado” o estado de emergência, renovando-o sucessivas vezes sem que as pessoas percebessem, a páginas tantas, que a situação era de facto excecional e de “tremenda dificuldade”. A crítica era para Marcelo Rebelo de Sousa, que tem elaborado os decretos de renovação do estado de emergência de 15 em 15 dias. O que Ana Gomes defendia era que o Presidente da República tivesse pedido ao Parlamento que elaborasse uma lei de emergência sanitária que desse respaldo legal às medidas que o Governo tinha que impor.

2. “Requisição civil”. O tópico vinha no seguimento do anterior e o objetivo era o mesmo: atacar Marcelo Rebelo de Sousa, que Ana Gomes diz que fez pressão a favor dos privados durante o processo de negociação do Governo e, com isso, prejudicou o processo. Ana Gomes defende há muito a requisição civil de privados para aliviar a pressão hospitalar no SNS e culpa Marcelo por ter impedido o Governo de o fazer desde logo porque, no decreto presidencial, deixou escrito que o recurso a privados deve ser feito “preferencialmente” por acordo.

3. “Offshores – mil milhões”. O caso do “apagão fiscal” de 10 mil milhões de euros que terão sido transferidos para offshores sem passar pela Autoridade Tributária, em Portugal, é um tema que Ana Gomes não larga e, sempre que pode, atira contra Marcelo. A investigação foi aberta em 2017 e está parada desde então, e é Marcelo quem a candidata culpa por inação. No seu entender, o PR devia dar todos os meios e capacidade à PGR para não deixar cair estes processos em saco roto, lembrando que enquanto a escola pública (as propinas gratuitas, como lhe pediram os estudantes em Coimbra) e o Serviço Nacional de Saúde precisam de dinheiro e de investimento, há “dinheiro a ir a rodos para offshores“.

4. “Submarinos – sem meios – mas a espiar jornalistas”. O caso dos submarinos é um caso “emblemático” de alegada corrupção que Ana Gomes tem sempre na ponta da língua para atingir Marcelo no mesmo ponto. É que na Alemanha já se fez justiça neste caso, foram identificados os corruptores, que foram condenados, e em Portugal ainda nada. Ou seja, cabe ao Presidente da República garantir que a justiça tem meios e tem capacidade para dar seguimento aos processos. O salto no raciocínio é claro: a justiça não tem meios para avançar com mega-processos como esses mas investe a espiar jornalistas por alegada violação do segredo de justiça, como foi denunciado na primeira semana de campanha.

5. “Regionalização”. Mais um tópico rabiscado para atingir Marcelo Rebelo de Sousa. Ana Gomes diz sempre que pode que Marcelo foi um dos maiores “bloqueadores” do processo de descentralização e de regionalização, desde logo quando era líder do PSD em 1998, ano em que se fez o referendo. No debate, o tema originou um grande despique entre os dois, com Marcelo a dizer que a Constituição obriga à realização de referendo, e com Ana Gomes a dizer que, antes da consulta popular, a Constituição permite abrir caminho à descentralização e à desconcentração de competências, coisa que não tem sido feita, no seu entender.

6. “Lesados do BES”. Um tópico que a candidata escreveu para não se esquecer mas que não chegou a ser abordado. Vinha no seguimento do caso do “apagão fiscal” e da transferência de 10 mil milhões de euros para offshores, principalmente da parte do BES. Ana Gomes tem dito que esse pode ser mesmo um dos maiores roubos organizador das poupanças dos depositantes, conhecidos como lesados do BES, de que há memória. Daí saltaria para Ricardo Salgado, que ainda aguarda julgamento.

7. “Acesso à justiça – megaprocessos – pacto justiça”. Ana Gomes tinha-se queixado de o tema da justiça não ter sido aflorado no primeiro debate a sete, transmitido na televisão, e talvez por isso, neste debate, não quis deixar nada por dizer. O alvo: sempre Marcelo. Já a prever que o PR ia argumentar com o Pacto de Justiça que celebrou no início do seu mandato, na abertura do ano judicial, Ana Gomes tinha a deixa preparada: “Não serve de nada falar uma vez na abertura do ano judicial e depois a justiça não funcionar”. Ao longo da campanha a crítica aos “mega-processos” tem sido recorrente, com a candidata a dizer que eles apenas existem para “prescrever” e a dizer que apenas servem para alimentar o descrédito nas instituições, que é o primeiro alimento das forças anti-democráticas.

8. “Jorge Sampaio — palavra decisiva para maioria de governo”. Ana Gomes já vinha a ensaiar o discurso na véspera e o gancho de um artigo de Jorge Sampaio publicado no jornal Público serviu o propósito: colar Marcelo Rebelo de Sousa ao papel de normalizador de forças anti-democráticas como o Chega. Quando o tema do debate era o acordo de governação firmado nos Açores, Ana Gomes chamou o ex-PR socialista para o debate, citando-o para dizer que o Presidente tem uma palavra decisiva na definição de maiorias de governo. Ou seja, o PR poderia ter dito que não aceitava qualquer acordo com o Chega, mesmo que fosse do foro parlamentar. Marcelo respondeu-lhe ali mesmo com uma novidade: se o cenário se colocar na governação nacional, exigiria acordo escrito ao Chega, ao contrário do que fez em 2019 com o governo minoritário de António Costa apoiado implicitamente pela esquerda.

9. “Ameaças a jornalistas”. O tema por esta altura era André Ventura e o Chega, que dominou grande parte do debate. Ana Gomes escreveu “ameaças a jornalistas” para não se esquecer de referir o episódio da véspera em que os jornalistas foram ameaçados por membros da comitiva do Chega após terem noticiado que o jantar-comício que estava a decorrer em Braga tinha tido parecer negativo das autoridades distritais de saúde. Um carro da RTP chegou a ser vandalizado.

10. “País não precisa de quem pregue ódio, divisão, racismo”. André Ventura, André Ventura, André Ventura. Enquanto não chegava a sua vez de falar, os tópicos que escrevia falavam por si.

11. “Os últimos são os primeiros – Evangelho São Mateus”. Pelo vistos, Ana Gomes ia com esta fisgada, mas não a usou. Fê-lo mais tarde, nas conferências online que foi mantendo com jovens socialistas nesta última semana de campanha eleitoral. Guarda sempre para o fim, em jeito de apelo ao voto. “Os últimos são sempre os primeiros”, já que o seu nome e a sua fotografia aparecem em último lugar no boletim de voto.

12. “Cultura, identidade”. Eram temas que queria ter abordado, mas não “teve tempo” de falar tanto como gostaria, segundo chegou a relatar ao Observador. Ainda assim, Ana Gomes, que não tem falado assim tanto de cultura (embora tenha organizado uma conferência online dedicada ao tema esta semana), criticou o facto de ter havido “medidas contraditórias” na cultura, que se “adaptou bem” às regras sanitárias, mas está agora novamente impedida de trabalhar. Até comparou o fecho da cultura no atual estado de emergência com a manutenção das igrejas abertas.

13. “Mulheres – Esperança – Jovens”. Ana Gomes tem defendido a maior presença das mulheres nos meios dominados tradicionalmente por homens, e tem feito uma campanha a apelar fortemente à ideia de que, enquanto mulher, fará mais pelas mulheres e pela igualdade de género. O mesmo em relação aos jovens. Prometeu, em Coimbra, criar um conselho consultivo com jovens se for eleita Presidente da República, e prometeu paridade em todos os cargos de nomeação direta do Chefe de Estado.

14. “Integrar os imigrantes”. Ventura tem discurso xenófobo e Ana Gomes responde com discurso inclusivo. Sublinhou a ideia no papel um dia depois de ter visitado o bairro dos navegadores, em Oeiras, como exemplo de bairro social que integra várias comunidades diferentes de imigrantes. Foi recebida de braços abertos pela comunidade cigana, mas deixou o tema de fora do debate com os restantes candidatos presidenciais (à exceção de Ventura).

É de discurso já preparado que Marisa Matias sobe ao palco (virtual) em todos os comícios da campanha. Antes da intervenção, quando assiste aos discursos que a antecedem, a candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda vai tirando notas e aponta os nomes das pessoas a quem tem de agradecer logo no início. Não é muitas de notas, pelo menos nos discursos de comício desta campanha vai tudo escrito a computador, mas muitas vezes há linhas que não são lidas e outras que são acrescentadas. Apesar de já levar parte do discurso escrito, faz questão de adaptar o que diz na intervenção ao dia a dia (e mesmo em resposta aos discursos da noite). Na hora de se aproximar do púlpito, vai sozinha e já leva aos papéis na mão.