Uma das coisas que mais me entristece enquanto cidadão é quando um titular de um cargo público, neste caso o secretário de Estado Adjunto e das Comunicações, me trata como uma criança de 3 anos ao explicar porque não concorda com as minhas opiniões e a forma jocosa e trivial as retratam e tentar refutar.

A escolha da localização do novo aeroporto de Lisboa tem-nos acompanhado nas últimas décadas e até hoje o problema não está nas localizações propostas, está sim na forma como foram selecionadas. Na verdade a escolha de um local meramente por critérios “políticos” é perfeitamente aceitável, mas se assim for assume-se essa razão “política” e deixem de construir encenações e estudos apenas com o objectivo de desviar a nossa atenção do principal problema… a falta de estratégia.

Para percebermos esta falta de estratégia, basta olhar para as recentes declarações do sr. secretário de Estado Adjunto e das Comunicações. Mais concretamente em relação às matérias de impacto na fauna e flora, afirma que “ciência sem dados comprovados não é ciência”. Esclarece então quais são os dados comprovados de que dispõe, acrescentando que “os pássaros não são estúpidos e é provável que se adaptem” e em relação aos eventuais problemas de locomoção de caranguejos constata que estes ”podem ser lentos, mas não estão em extinção”. Termina afirmando as aves podem eventualmente “encontrar outras rotas migratórias, outras paragens estalajadeiras”.

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São estes os tais dados comprovados da ciência fundamentam a razão pelo qual a escolha que defende é a mais adequada para o novo aeroporto de Lisboa.

Se as aves não são estúpidas será que o sr. secretário de Estado está a querer dizer que quem se preocupa com o impacto nas populações de aves de uma obra estratégica num ecossistema estratégico é estúpido?

O Estuário do Tejo é um pilar fundamental de um vasto conjunto de populações mundiais de aves, e como tal a localização do aeroporto assume verdadeiramente um carácter “estratégico”, que tem estado ausente das sucessivas aproximações ao problema. E essa sempre foi e será a grande pedra no sapato desse tal novo aeroporto.

Esse carácter estratégico obrigaria a uma verdadeira escolha entre diversas localizações, quer no estuário, quer na sua periferia e mesmo algumas relativamente afastadas. Só fazendo a comparação entre diversas localizações é que será possível escolher tecnicamente e politicamente aquela que com uma conjugação de impactos/benefícios mais vantajosa para os obejctivos estratégicos previamente definidos. Alguma vez foi abordado esta questão? Não me parece.

Repetem-se abordagens localizadas no espaço e no tempo, de preferência sem possibilidade de comparação entre elas. Não quero com isto dizer que os estudos estão mal feitos. O problema é que esses estudos só não servem é para definir a estratégia do novo aeroporto.

O objectivo político tem sido o de esperar que apareça a conjuntura ideal para que o estudo favorável à decisão política, previamente tomada, passe despercebida por entre os pingos da chuva.

A forma leviana como se encara os recursos naturais e a forma jocosa como se trata aqueles que com eles se preocupam fica bem espelhada nessa frase “os pássaros não são estúpidos e é provável que se adaptem”.

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Apesar de não saber como enquadrar o conceito de “estupidez” nas ciências que estudam as aves e as suas dinâmicas, atrevo-me a dizer que talvez tenha razão, no sentido que as aves não são imbecis ou que são desprovidas de qualquer tipo de inteligência. Mas será essa constatação banal suficiente para fundamentar a localização de um aeroporto? E de um aeroporto no meio de um estuário?

Se a escolha recair sobre a opção com mais banalidades, então eu conheço mais umas quantas deveriam ser tidas em linha de conta:

O estuário do Tejo tem ainda uma “função” que assume especial relevância nas épocas de migração das aves, mais concretamente o de “estação de serviço”. Assim acrescento:

Mas serão estas minhas constatações suficientes para tomar uma decisão? É claro que não, apenas estou a responder aos “dados comprovados” a que o sr. secretário de Estado faz referência, mantendo o mesmo nível de rigor e de detalhe. O que pretendo demonstrar é que não podemos continuar a tomar decisões estratégicas baseadas em meras trivialidades e banalidades, sustentadas por estudos de carácter local.

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Termino constatando que o adjectivo “estúpido” na verdade não deve ser utilizado quando fazemos referência ás aves, mas sim para qualificar um conjunto cada vez mais alargado de políticas, estratégias, planos, regulamentos e decisões políticas, em particular no que toca a temas de recursos naturais. E esta escolha, tal como as anteriores, está nesse grupo, não pelo local, mas pelo facto de não ter sido uma escolha, mas sim uma imposição de um local comparando-o. Uma escolha pressupõe várias opções e não apenas uma.

O artigo do sr. secretário de Estado deixa ficar bem patente que a escolha sempre foi política e que toda a encenação à volta da questão se destina a desviar as atenções desse facto. A consulta pública de “centenas de páginas” apenas serve para dizer “sim ouvimos o povo”, mas a nossa escolha (a meramente política) é que está correcta, como os estudos comprovam.

Resta-me apenas voltar ao termo técnico “estúpido” e pensar quão estúpidos ficarão os aviões no meio de milhares de flamingos, de gansos, de ibis-pretos, de maçaricos-de-bico-direito, de marrequinhas, de arrabios, de patos-trombeteiros ou de colhereiros.

Mas o que é mesmo muito estúpido e pensarem que nós todos precisamos que nos expliquem as coisas como se fossemos miúdos de 3 anos.