Dezembro de 2018: pelo menos um vídeo publicado no Facebook informa que testes numa antena da rede 5G provocaram a morte de centenas de pássaros cerca de dois meses antes num parque da cidade de Haia. Dezembro de 2019: um vídeo captado em Anglesey, País de Gales, onde se veem centenas de estorninhos mortos numa estrada e nas imediações desta, leva utilizadores do Facebook a especular que a causa foi a ativação de uma torre 5G da operadora Vodafone.

Os dois casos não parecem ligados entre si, exceto na causa de morte atribuída. E no entanto as autoridades locais, na Holanda e no País de Gales, rejeitaram a hipótese de que a nova rede de telecomunicações pudesse ter tido influência na mortandade dos animais.

Utilizadores do Facebook partilharam vídeo das aves mortas em Haia e concluíram, sem base factual, que a causa tinha sido um “teste 5G”

Não cabe nesta verificação de factos analisar se o sistema de telecomunicações 5G é ou não seguro. Especialistas garantem não haver riscos para a saúde e outros têm dúvidas. É possível que os receios tenham influenciado as conclusões dos utilizadores do Facebook quanto à causa da morte das aves, até porque nas partilhas dos vídeos houve quem referisse o alegado perigo das radiações 5G sobre animais e pessoas.

No caso holandês, o Museu de História Natural de Roterdão e a Universidade de Wageningen fizeram autópsias a alguns dos pássaros mortos e concluíram, de acordo com o site de verificação de factos fullfact.org, que o impacto no solo ou em árvores foi a causa provável de morte. Não explicaram porque é que os animais, em bando, se precipitaram sobre o solo, mas sugeriram que isso se deveu a pânico causado por algum elemento perturbador, como uma ave predadora. Além disso, o governo holandês garantiu que à data dos factos, em outubro de 2018, não tinham tido lugar testes à rede 5G na zona de Haia.

No caso britânico, registado mais de um ano depois daquele, as autoridades informaram através da internet que suspeitam ter-se tratado de um “fenómeno natural”.  A hipótese mais consistente, divulgada pela BBC, aponta para uma desorientação destas aves conhecidas por formarem bandos de enormes dimensões: a perseguição de uma ave de rapina ou o reflexo da estrada molhada, semelhante à superfície de uma massa de água, terão levado os pássaros a projetarem-se inadvertidamente.

Mais recentemente, a 25 de fevereiro, um elemento da polícia galesa publicou um vídeo no Facebook sobre um novo caso de morte de aves numa zona rural e a legenda não poderia ser mais clara: “Nenhuma relação com o 5G, nenhuma relação com objetos voadores não identificados e, esperamos, nenhuma relação com atos criminosos. As aves recuperadas serão sujeitas a exames toxicológicos.” A Vodafone, citada pelo jornal Daily Post de Gales, já tinha assegurado que na zona de Bodedern (Anglesey), local onde os pássaros morreram, não só não tinham sido feitos testes 5G como nem havia uma infraestrutura desse género instalada pela operadora.

A alegação de que a morte de um número significativo de pássaros em Haia e no País de Gales teria sido provocada pela radiação da rede de telecomunicações 5G, como muitos utilizadores do Facebook escreveram, não tem base factual à luz dos dados disponíveis — independentemente das dúvidas científicas em torno dos efeitos do 5G — e não colhe perante as conclusões divulgadas por autoridades de ambos os países.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

Errado

De acordo com o sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact-checking com o Facebook.

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