Portugal

Faltou “planeamento” da festa do Sporting e responsabilidades estão por apurar. Casos podem subir

Faltou planeamento adequado por parte das autoridades em relação aos festejos do campeonato do Sporting, nesta terça-feira. A crítica é feita por especialistas em saúde pública, virologia e epidemiologia ouvidos pelo PÚBLICO, que antecipam um possível aumento dos contágios pelo novo coronavírus.

“É claro que houve falta de planeamento adequado”, começa por afirmar ao PÚBLICO Bernardo Gomes, médico de saúde pública e professor na Faculdade de Medicina e no Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto. “Deveriam ter sido criados mais espaços para as pessoas se separarem”, mas, pelo contrário, permitiu-se “a aglomeração de uma grande massa de pessoas num único sítio”.

Também Celso Cunha, virologista e professor do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa (IHMT), defende que “poderia eventualmente ter sido feito algum festejo organizado do campeonato”, com controlo da lotação e das entradas e saídas de adeptos. “O que nós vimos ontem foi precisamente o contrário de um planeamento de festejos. Vimos o caos que aconteceu: milhares de pessoas sem máscara que se juntaram sem respeitar distâncias. Houve um caos que se instalou e que obrigou a uma intervenção policial, com alguns feridos”, nota.

Risco diminui em eventos ao ar livre?

Para Bernardo Gomes, a “parte negativa da história” e o mais preocupante é “a ausência de máscara e o canto contínuo”. Já a “parte positiva é que estamos num contexto em que as coisas estão a correr bem relativamente à questão da covid-19, em termos de evolução epidemiológica e de impacto hospitalar”, assim como em termos de vacinação e testagem.

“Nesse contexto, com um maior número de indivíduos já imunizados, já recuperados e com medidas locais mais agressivas, não espero que tenhamos um grande impacto negativo daquilo que se passou ontem. Eventualmente poderemos ter alguns pequenos surtos, mas não estou à espera que isso seja de dimensão considerável”, diz.

Bernardo Gomes diz acreditar que os festejos descontrolados poderão não ter “um impacto assim tão negativo” no contágio do vírus por terem decorrido ao ar livre. “Efectivamente, está documentado que, em termos de transmissão, a probabilidade é muito menor”, aponta.

Também o virologista Celso Cunha concorda que “ao ar livre o contágio é menos provável” do que se estivessem milhares de pessoas juntas num recinto fechado. Porém, as regras relativamente aos ajuntamentos devem aplicar-se a qualquer cenário, diz, lamentando o sucedido e o que diz ser a inacção por parte das autoridades policiais e da tutela para evitar estes ajuntamentos.

Ao mesmo tempo, o epidemiologista Manuel Carmo Gomes concorda que o facto de os festejos terem decorrido ao ar livre diminui o risco, embora saliente que alguns comportamentos podem aumentar o perigo de contágio. Neste sentido, o epidemiologista recomenda que os adeptos e simpatizantes do Sporting que participaram nos festejos realizem um teste de diagnóstico à covid-19.

Já Bernardo Gomes aconselha aos adeptos que participaram nos festejos uma “dieta social” durante os próximos dez dias ou duas semanas, ou seja, “não estarem com ninguém fora do círculo social e evitarem contactos desnecessários”. Caso não tenham usado máscara “no meio da confusão”, o médico recomenda a realização de um teste à covid-19 quatro ou cinco dias depois, “pelo menos para descartar se há carga infecciosa activa”.

Relativamente a uma eventual sobrecarga do Serviço Nacional de Saúde (SNS), o médico de saúde pública não acredita que os festejos possam ter impacto, até porque “os números têm continuado a descer e até de uma forma expressiva”. Além disso, a vacinação dos indivíduos mais vulneráveis, nomeadamente os mais velhos, permite diminuir a probabilidade de estas pessoas serem internadas e de morrerem. Porém, alerta, alguns concelhos e áreas poderão registar um “aumento provisório de casos”.

Pedro Nunes/REUTERS

Celso Cunha acredita que “vamos assistir ao aumento do número de contágios principalmente na área da Grande Lisboa”, prevendo que a incidência venha a aumentar nalguns concelhos nas próximas duas ou três semanas e ultrapasse o limite estabelecido pela matriz de risco (de 120 casos por 100 mil habitantes a 14 dias), o que poderá implicar que alguns municípios voltem atrás no processo de desconfinamento.

Já Tiago Correia, professor de Saúde Internacional e investigador do IHMT, não acredita que haverá “um boom de casos em virtude destes festejos” e destaca que, de acordo com os relatos, “a norma foi a utilização da máscara” — “a única medida de protecção individual adequada e realista de se pedir aos adeptos”, relata numa publicação na rede social Facebook.

Segundo o investigador do IHMT, o facto de Portugal já ter administrado quatro milhões de vacinas contra a covid-19 “faz toda a diferença”, “mas ainda não é certo o resultado de grandes ajuntamentos de pessoas”. O especialista nota ainda que “festejos desta natureza criam uma noção de incompreensão e de excepção àqueles que não participam” e uma “noção de que não há pandemia” junto dos participantes.

O “excepcionalismo” do futebol

“A questão da autoridade e da moralidade da restrição fica beliscada por uma fuga às regras e um excepcionalismo, mais uma vez, do futebol”, acrescenta Bernardo Gomes, destacando que “há uma certa dificuldade de novo gerada e agravada por aquilo que se passou ontem na comunicação de risco por parte das autoridades”.

Segundo Celso Cunha, “mais uma vez, assistimos a uma condescendência e a uma falta de vontade de prevenir situações críticas quando é necessário estar presente e ser duro para um determinado tipo de grupos organizados”. “Perante o futebol, há uma capitulação e tem havido ao longo destes anos perante outras situações. Optou-se por uma solução que foi a de ‘deixar andar’”, critica.

O especialista defende que “as pessoas (independentemente da cor clubística) são as principais responsáveis por seguir as direcções da Direcção-Geral da Saúde”. “O ideal teria sido obviamente que cada um festejasse em sua casa, com os seus amigos, de forma mais restrita”. Critica o Sporting, considerando que não tomou qualquer medida “para que esse ajuntamento fosse minimamente organizado”.

Celso Cunha atira também culpas às autoridades, salientando que o que se passou “era previsível”. “Não acredito que as autoridades policiais e o Ministério da Administração Interna não soubessem o que estava em causa. Se não o sabiam então é por incompetência e se sabiam então foi por demissão das suas responsabilidades”, diz.

Em relação à Câmara de Lisboa, relembra que esta “tem a tutela sobre a Polícia Municipal” e que, em vez de promover os festejos de forma responsável e contida, promoveu “o contrário: ecrãs fora do estádio e um cortejo de autocarros”. “É um desprezo completo por todos os portugueses e pelo que têm vindo a fazer e até por outros sportinguistas que ficaram em casa. E, mais uma vez, se prova que há actividades e pessoas que estão acima da lei”, conclui.

Ninguém assumiu responsabilidades

Nesta quarta-feira, o Presidente da República reconheceu que a noite de festejos “não correu bem em termos de saúde pública”. “Quem deve prevenir não conseguiu prevenir. Quem devia prevenir eram as entidades responsáveis e todos os cidadãos”, afirmou Marcelo. “Compreendo que as pessoas se emocionem e queiram expandir a sua alegria. Vamos esperar que isto não tenha custos para os lisboetas e que não dê resultados menos positivos. Só saberemos daqui por 15 dias ou três semanas”, declarou.

A Direcção-Geral da Saúde (DGS) explica apenas que “participou num conjunto de reuniões promovidas pela Câmara Municipal de Lisboa e pelo Ministério da Administração Interna sobre a provável aglomeração de adeptos e simpatizantes do Sporting Clube de Portugal em várias zonas urbanas do país e em particular na cidade de Lisboa”.

“Neste sentido, tendo em conta o risco acrescido para a saúde pública que estas eventuais celebrações podem representar, a DGS emitiu um conjunto de recomendações para as autoridades locais e forças policiais”, explica em comunicado. “Deste modo, deve ser assegurada a articulação com as forças de segurança territorialmente competentes para o cumprimento das regras sanitárias actualmente em vigor, bem como devem ser encetados todos os esforços para evitar e dissuadir a existência de aglomerados, de forma não controlada”, acrescenta. O PÚBLICO fez mais perguntas à DGS, mas não obteve respostas.

Já a PSP explica que o desfile da comitiva leonina entre o Estádio José Alvalade e a Rotunda do Marquês de Pombal não foi cancelado depois de ponderados “os impactos negativos na ordem e tranquilidade públicas, resultantes da sua anulação”.

“A PSP planeou e executou um policiamento de grande envergadura, em diversas cidades na sua área de responsabilidade territorial”, começa por dizer em comunicado. Os festejos resultaram “em alterações relevantes da ordem pública”. O corpo policial explica ainda que apreendeu, em todo o país, 63 artefactos pirotécnicos, identificou 30 pessoas por motivos diversos e procedeu à detenção de três cidadãos.

O Sporting garante que não organizou nem autorizou a festa de pré-celebração do título, em Alvalade, e atira responsabilidades para a Juventude Leonina. Apesar de a festa ter sido organizada junto à escadaria do Estádio de Alvalade e no acesso ao estacionamento, o Sporting garante que as autorizações para a fanzone criada não passaram pelo clube, que mantém um diferendo judicial com a claque.

Contactados pelo PÚBLICO, a Câmara de Lisboa e o Ministério da Administração Interna não prestaram esclarecimentos. Porém, foram já levantadas críticas à Câmara de Lisboa, com o candidato a Lisboa da coligação liderada pelo PSD, Carlos Moedas, a acusar Fernando Medina de “incompetência” por ter falhado na organização dos festejos do Sporting na celebração da conquista do campeonato e a exigir explicações do autarca.

O primeiro-ministro, António Costa, referiu esta quarta-feira no Parlamento que o ministro da Administração Interna questionou a PSP sobre como foi articulada a operação, solicitando à Inspecção Geral da Administração Interna um inquérito à actuação da PSP ontem. “Não vou atirar pedras a ninguém. Nem ao Sporting, que só tenho de felicitar, aos apoiantes nem à Policia. Vou aguardar a informação e o apuramento dos factos”, disse, referindo compreender os festejos dos adeptos que esperaram 19 anos por este momento.

Por último, o secretário de Estado da Juventude e do Desporto (SEJD), João Paulo Rebelo, relembrou esta quarta-feira aos jornalistas que “tinha conhecimento de que havia algumas autoridades, nomeadamente sanitárias, de segurança pública e agentes desportivos a encontrarem-se para, de alguma forma, planearem em antecipação o que eram as inevitáveis manifestações de alegria, de regozijo daqueles adeptos como ontem vimos”.

“Eu referi-me ao conhecimento lateral que tinha, na medida em que eu não intervim. Não se espera que o secretário de Estado do Desporto esteja envolvido em matérias que não tenham nada que ver com o desporto”, notou, acrescentando, porém, que “há acontecimentos que decorrem na sequência de um evento desportivo”.

“Eu disse na altura e continuo a achar hoje que era inevitável, imparável que houvesse este impulso”, disse ainda, reafirmando que fez “um apelo a todos os adeptos para que tivessem o comportamento o mais ajustado possível à situação em que vivemos”. “Todos nós conhecemos o contexto de uma pandemia que ainda não terminou e, portanto, cabe à nossa responsabilidade individual um comportamento que coadune com o que esperamos”, notou, destacando que este apelo “não foi atendido” pelos adeptos do Sporting um pouco por todo o país e, especialmente, na capital. Quanto à actuação da PSP, o secretário de Estado não prestou esclarecimentos, destacando que “há no Governo quem tutele essas áreas”.

“Independentemente de o estádio estar aberto ou não, eu acho que assistiríamos na rua exactamente ao que assistimos”, concluiu.

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