Como são os regressos de José Mourinho aos clubes por onde passou? Aparentemente, à primeira vista, poderiam ser complicados. Mas será mesmo assim? Vejamos: a saída do FC Porto não foi pacífica nas últimas semanas mas, quando voltou à Invicta, os adeptos azuis e brancos reconheceram os feitos pelo clube onde ganhou tudo o que havia para ganhar em termos nacionais e europeus; no regresso a Stamford Bridge para defrontar o Chelsea onde esteve em dois períodos distintos, algumas “bocas” que o levaram a levantar três dedos (número de Campeonatos ganhos) para a bancada não abafaram os elogios que ouvira antes; em Milão, ainda hoje é um herói no Inter; em Madrid, divide amores e ódios mas terá em Florentino Pérez um admirador eterno.

No regresso à Premier League, com um calendário cheio onde teve tempo para pouco mais do que treinar uns dias, jogar, recuperar e jogar, o treinador português colocou o Tottenham nos eixos com três vitórias consecutivas frente a West Ham, Olympiacos e Bournemouth mas tinha esta quarta-feira o primeiro grande teste à liderança dos spurs com uma sempre complicada deslocação a Old Trafford para defrontar um Manchester United que, depois de um arranque auspicioso de Solskjaer na era pós-Mourinho, tem vindo a cair a pique de rendimento e entrava nesta 15.ª jornada em décimo lugar, a oito pontos dos lugares da Champions e a 22 (!) do líder Liverpool.

“Não sou um vilão, não sou um inimigo. Sou um treinador que vai tentar ganhar ao Manchester United. Acho que será desta forma que os adeptos vão olhar para mim. O Solskjaer é o tipo que está a tentar ganhar o jogo para o Manchester United e por isso eles vão apoiá-lo, não a mim. Penso que vão fazer-me uma boa receção mas que depois, durante o jogo, vão apoiar o Solskjaer. Eles amam o seu clube, logo amam o Solskjaer”, admitiu Mourinho, que ganhou uma Supertaça, uma Taça da Liga e uma Liga Europa nos red devils antes da saída.

“Para mim é um capítulo encerrado. Deixei o clube, tive o meu tempo para processar tudo o que aconteceu e para me preparar para o meu próximo desafio. No United, venci e aprendi. Não me cabe a mim estar a analisar o Manchester United. Posso dizer que regressar a Old Trafford é regressar a um sítio onde fui feliz. Se forem ao meu escritório lá em cima [no Tottenham], ainda tenho umas fotografias dos meus tempos no United”, acrescentou. O português está diferente, bem mais calmo, avesso a qualquer tipo de confrontos verbais ou polémicas. Mas está também a desenvolver ainda um novo projeto longe de andar como deseja e que, a nível de Campeonato, perante o atraso para os primeiros classificados, se centra sobretudo na preparação para a próxima temporada.

A experiência no Manchester United pode não ter terminado da melhor forma, assim como a segunda passagem pelo Chelsea já não conseguiu repetir a primeira. No entanto, há todo um poder de atração que continua a fazer do português que foi campeão europeu por FC Porto e Inter e campeão em Portugal, Inglaterra, Itália e Espanha uma figura que concentra todas as atenções. Se dúvidas existissem, basta ver a curiosidade de estar a fazer gravações para o documentário que a Amazon está a realizar sobre o Tottenham depois de já ter gravado também para a Netflix um documentário com vários episódios que junta oito treinadores de oito modalidades diferentes. No entanto, se há momento que não deverá merecer grandes imagens foi mesmo este regresso a Old Trafford.

Se antes do jogo muitas das atenções estavam centradas em Mourinho, dos cumprimentos a alguns funcionários à chegada aos abraços a De Gea e Solskjaer, quando o encontro começou tudo mudou e focou-se no vermelho. Muito vermelho. Só vermelho. E com um golo logo a abrir: Lingaard aproveitou o facilitismo de Sanchez na abordagem a um lance perto da área, Rashford recebeu e disparou forte junto ao poste apesar de Gazzaniga ter podido fazer mais do que tocar apenas na bola sem desviar a sua trajetória (6′). Tudo corria mal ao Tottenham, tudo corria mal ao próprio Mourinho que, sossegado dentro da sua zona técnica, viu Jones ser carregado por Wings perto da linha e chocar contra o joelho do técnico, que ainda ficou a coxear durante alguns momentos.

Sem capacidade de pressionar mais alto, deixando demasiado espaços entre linhas e sem velocidade para seguir as incursões das unidades mais avançados dos visitados, os londrinos enfrentavam dificuldades em sair para a frente como nunca tinham sentido desde que Mourinho assumiu o comando da equipa e era o Manchester United a criar várias oportunidades, entre uma grande defesa de Gazzaniga a remate de Greenwood na área (22′), uma tentativa de Rashford que voltou a ser evitada pelo argentino (25′) e um tiro em arco de Lingaard que passou ao lado (28′). Do Tottenham, pouco ou nada. Pelo menos até chegar pela primeira vez a De Gea: após uma jogada que começou numa grande jogada de Son, Dele Alli aproveitou um corte incompleto da defesa dos red devils para tirar dois adversários do caminho com um só toque e rematar cruzado para o empate (39′).

Pela eficácia, os visitantes conseguiam sair ao intervalo com o empate mas assim ficariam apenas mais quatro minutos no segundo tempo quando Rashford, o jovem avançado lançado por Louis Van Gaal e que passou a fazer uma média de mais de 50 jogos por temporada com Mourinho, voltou a adiantar o Manchester United de grande penalidade, dando outra justiça por tudo o que se tinha passado até esse momento. Aliás, o avançado de 22 anos que assume cada vez maior protagonismo não só em Old Trafford mas também na Premier League foi a chave da primeira derrota do Tottenham de Mourinho, que nunca conseguiu assentar o seu jogo como nos primeiros encontros com o português no comando e sofreu a primeira derrota sem grandes oportunidades para evitá-lo.