Quando a PSP disse que iria reforçar, junto dos adeptos do Sporting, que deveriam manter o distanciamento físico e usar máscaras, lembrando que os ajuntamentos não eram permitidos, já as televisões transmitiam as primeiras imagens dos adeptos junto ao estádio de Alvalade em claro incumprimento das regras que estavam a ser anunciadas.

Sem vencerem um campeonato há 19 anos, era expectável esta vontade de festejar dos adeptos, admite o economista Pedro Pita Barros. As autoridades de saúde, forças de segurança e organizadores deveriam ter acautelado a situação e deveriam ter planeado melhor o evento sem esperar apenas que as pessoas se comportassem, como disseram os convidados do programa Explicador na rádio Observador.

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Agora, diz o especialista em Economia da Saúde, têm de preparar-se para o que pode resultar deste ajuntamento com milhares de pessoas ao longo de várias horas.

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Contactada pelo Observador, a Direção-Geral da Saúde (DGS) fez três recomendações aos adeptos que, esta terça-feira, festejaram a vitória do Sporting:

  1. Estar atento aos principais sintomas de Covid-19 — como febre, tosse, dificuldade respiratória, perda total ou parcial do olfato ou do paladar — e contactar a linha SNS24.
  2. Reduzir os contactos nos próximos 14 dias e reforçar as medidas de prevenção da transmissão: distanciamento físico, uso de máscara, ventilação de espaços, higiene das mãos e etiqueta respiratória.
  3. Realizar um teste de diagnóstico de infeção daqui a cinco a 10 dias, nomeadamente se, em algum momento, não cumpriu as medidas de proteção (distanciamento físico e uso de máscara, por exemplo).

“Festejos do Sporting são preocupantes e vão aumentar os níveis de contágio”

Pedro Pita Barros lembra à rádio Observador que os festejos relacionados com os jogos de futebol podem ter estado na origem dos surtos em algumas cidades europeias. Aliás, terá sido assim que o vírus se disseminou rapidamente em Itália, o primeiro país europeu a ser gravemente atingido pela pandemia.

Tendo em conta os estudos que têm sido feitos nos desportos com público, o especialista em Economia da Saúde receia que o número de casos venha a aumentar daqui a duas semanas. Gustavo Tato Dias, vice-presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, disse à rádio Observador que considera muito provável que o número de casos venha a aumentar em associação aos festejos desta terça-feira.

Certo é que, há um ano, sabíamos muito menos sobre o vírus do que sabemos agora, não tínhamos vacinas contra a Covid-19, nem pessoas com imunidade ou um acesso massificado aos testes. Bernardo Mateiro Gomes, considera, por isso, que, a haver, serão “pequenos surtos”. “Não espero mais do que isso”, disse o médico de Saúde Pública ao Observador, destacando o facto de se estar ao ar livre, de muitas pessoas estarem de máscaras e de já haver alguma imunidade populacional.

“Conto com a responsabilidade de quem lá foi de reduzir contactos e mesmo de fazer um teste rápido em caso de dúvida”, acrescentou o médico, tal como sugerido pela DGS.

Covid-19. Risco de descontrolo epidemiológico com festejos do Sporting é baixo, diz especialista

Carlos Antunes, investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa que tem trabalhado nos modelos de previsão da evolução da pandemia, considera que como há, atualmente, poucos casos de infeção na população, a probabilidade de haver um pico de infeções motivado pelos contactos durante os festejos é baixo.

O jogo da Liga dos Campeões Atalanta-Valencia, a 19 de fevereiro de 2020, em Milão, deu o pontapé de saída para o desastre em Itália, descreveu o jornal The Wall Street Journal (WSJ), em abril do ano passado. Os 40 mil adeptos que assistiram ao jogo no estádio — e que depois festejaram nos bares e restaurantes — estavam longe de saber que o vírus já circulava silenciosamente entre eles, o que se tornou evidente quando duas semanas depois o número de infeções tinha disparado.

Duas semanas depois de 19 de fevereiro houve uma incrível explosão de casos”, disse Francesco Le Foche, imunologista responsável por doenças infecciosas no Policlínico Umberto I, em Roma, ao WSJ. “O jogo desempenhou um importante papel na disseminação do coronavírus por toda a Lombardia e, em particular, em Bérgamo [a cidade do clube italiano Atalanta].”

Um mês depois do jogo, a 19 de março, já tinham morrido mais de 32 mil pessoas com Covid-19 em Itália — quase o dobro do número de pessoas que morreram em Portugal desde o início da pandemia.

Depois do jogo em Itália, 35% do plantel e equipa técnica espanhola testou positivo para o coronavírus. O público nos estádios foi proibido antes de os jogos serem totalmente suspensos, mas o Valencia ainda disputou a segunda mão com o Atalanta, sem público nas bancadas, mas com adeptos no exterior — o que poderá ter potenciado o surto em Espanha.

Em Inglaterra, os jogos mantiveram-se presenciais até meados de março apesar de já haver registos de casos de infeção e mortes no Reino Unido. Durante o mês de março de 2020 houve 340 jogos de futebol da liga e campeonato que juntaram 1,6 milhões de adeptos, em 188 locais diferentes, contabilizaram os investigadores da Universidade Aston, em Birmingham, e da Universidade de Reading, num artigo publicado pelo Centro de Investigação em Política Económica (CEPR, na sigla em inglês).

“Verificámos que cada jogo de futebol é consistente com cerca de seis casos de infeção adicionais por cada 100 mil pessoas, duas mortes adicionais com Covid-19 por cada 100 mil pessoas e três mortes em excesso [em relação a um período equivalente] por cada 100 mil pessoas”, concluiu a equipa de Matthew Olczak, investigador na Faculdade de Economia Aston. Mais: os autores verificaram que este aumento no número de infetados e mortos se verificava quer o estádio estivesse com 20% da ocupação ou com 90%.

Investigadores críticos desta abordagem, ouvidos pelo Science Media Centre (Reino Unido), lembram que a associação entre os dois eventos — o número de casos e mortes ter aumentado, em abril, depois dos jogos — não significa que haja correlação entre os dois. Ou seja, não foi possível mostrar que os jogos de futebol, neste caso, foram a causa direta ou indireta do aumento de casos e mortes, porque não foi feito um rastreio dos contactos para perceber se aquelas pessoas (ou alguém com quem tiveram contacto próximo) tinha estado no estádio.

Kai Fischer, investigador na Universidade Heinrich Heine de Dusseldorf, também identificou uma associação entre os jogos da Bundesliga (liga profissional de futebol alemã) e um ligeiro aumento na incidência: mais 0,52 a 0,91 novos casos diários por 100 mil habitantes três semanas depois dos jogos, conforme publicado na plataforma Social Science Research Network. Mais: o investigador não encontrou diferenças nos jogos em que, à partida, houve medidas sanitárias mais restritivas, mas verificou que a probabilidade de aumento de casos era maior nos locais onde a incidência local, no dia do jogo, também era maior.

Nos Estados Unidos, com as regras entre ter público ou não a variarem de estado para estado, os investigadores conseguiram uma forma de comparar as duas situações nos jogos da Liga Nacional de Futebol Americano: num total de 269 jogos, 117 tinham adeptos a assistir e 152 não, conforme uma pré-publicação (antes da revisão por cientistas independentes) submetida à revista científica The Lancet.

A evidência apoia de forma esmagadora que a participação de adeptos nos jogos da Liga Nacional de Futebol Americano levou a picos episódicos na contagem de novos casos de infeção“, tanto ao fim de 14 dias como ao fim de 21, concluiu a equipa de Justin Kurland, investigador no Centro Nacional de Segurança do Espectador Desportivo, na Universidade do Mississippi do Sul.

Os investigadores realizaram 72 testes diferentes para perceber se os resultados eram consistentes, porque é muito difícil dizer que um evento (os jogos com público) levou a outro (aumento de casos), mas a associação entre os dois eventos é clara.

Os investigadores não encontraram picos no número de novos casos após os jogos com menos de 5.000 pessoas nas bancadas, mas, no caso dos jogos com mais de 20.000 adeptos, os picos eram consideravelmente maiores. Mais: este aumento no número de casos não se verificou exclusivamente nos condados onde o jogos se realizaram, mas nos condados próximos, evidenciando que a viagem dos adeptos entre regiões pode potenciar a disseminação do vírus para fora da área onde está o foco da infeção.

Voltando à Europa, e já em pleno verão de 2020 quando a pandemia parecia controlada, a Sérvia abrandou as medidas sanitárias restritivas e permitiu, em junho, que 25 mil pessoas assistissem ao dérbi das duas equipas de Belgrado, Partizan e Esterla Vermelha, que o torneio de ténis organizado por Novak Djokovic se realizasse e que as eleições tivessem lugar. Um mês depois, o país voltou a confinar e os três hospitais de Belgrado voltaram a estar dedicados, quase exclusivamente, ao tratamento de doentes Covid-19, noticiou, na altura, a Euronews.

No jogo em que era expectável que o Sporting se sagrasse campeão, os adeptos não puderam festejar dentro do estádio, mas puderam fazê-lo no exterior. Apesar de os ajuntamentos estarem proibidos, os ecrãs gigantes à porta do estádio foram um chamariz para a presença dos adeptos, concluiu Pedro Pita Barros.

Mesmo havendo proibição do consumo de álcool na via pública, os cafés e restaurantes estiveram abertos às 22h30, como é permitido no estado de calamidade, e os adeptos foram vistos a consumir as bebidas no exterior — naturalmente, sem máscara.

Agora será preciso esperar duas a três semanas para perceber o impacto que esta noite terá no número de infeções na região de Lisboa ou noutras regiões do país de onde vieram os adeptos para festejar com a equipa leonina.