Portugal

Marega marcou, exagerou nos festejos, fugiu de cadeiras, ouviu insultos racistas e saiu – tudo em dez minutos

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Foram dez minutos que tiveram Marega como protagonista e não mais serão esquecidos. "Somos uma família, independentemente da nacionalidade, da cor da pele, da altura, da cor do cabelo", diz Conceição.

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AFP via Getty Images

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Foram apenas dez minutos mas mudaram não só a história do V. Guimarães-FC Porto mas também do futebol português, que pela primeira vez teve na Primeira Liga um caso mais evidente de racismo que levou Moussa Marega a sair de campo apesar das tentativas de vários companheiros e elementos da equipa técnica de serenar o maliano, que se dirigiu mesmo para os balneários sendo substituído por Wilson Manafá. “Tenham vergonha, car****, tenham vergonha!”, gritava Sérgio Conceição para a bancada mais próxima do banco dos azuis e brancos, enquanto o avançado fazia o gesto com os indicadores para baixo reprovando o que tinha acontecido.

O que aconteceu ao certo nesses dez minutos? Marega quebrou uma série de nove jogos consecutivos sem marcar (o último golo tinha sido em Alvalade frente ao Sporting), terá exagerado nos festejos – o que lhe valeu mesmo um cartão amarelo de Luís Godinho – e fugiu de algumas cadeiras que foram sendo arremessadas das bancadas nessa fase. A partir daí, o jogador que passou pelos minhotos em 2016/17 antes de voltar ao FC Porto com Conceição passou a ser muito assobiado sempre que tocava na bola, acrescentando-se depois aí barulhos que imitavam um macaco, o que acabou por ser a gota de água que fez transbordar o copo do maliano.

Apesar de estarem cientes do que se passava, vários jogadores do FC Porto foram tentando evitar a saída de campo de Marega, entre Sérgio Oliveira, Alex Telles, Marcano e o próprio Sérgio Conceição, tal como já tinha acontecido com jogadores dos vimaranenses como Pedro Henrique ou Sacko. No entanto, nada demoveu a vontade do maliano, que saiu muito assobiado e mais uma vez com alguns insultos racistas que ensombraram o jogo.

“O que tenho a dizer… Perdoem-me as pessoas de não falar sobre o jogo, sobre aquilo que foram as dinâmicas e as substituições, mas tudo passa para segundo plano depois daquilo que se passou aqui hoje. Estamos completamente indignados com o que se passou. Sei da paixão que existe aqui no Vitória pelo clube mas a maior parte não se revê neste tipo de coisas. Estavam a insultar desde aquecimento o Moussa [Marega] e nós aqui somos uma família, independentemente da nacionalidade, da cor da pele, da altura, da cor do cabelo”, começou por dizer Sérgio Conceição, treinador do FC Porto, na zona de entrevistas rápidas da SportTV.

“Somos uma família, somos humanos e aquilo que se passou aqui hoje foi lamentável”, acrescentou, antes de sair de rompante numa posição de força que já tinha ficado expressa com a ausência de jogadores na flash.

As reações não se fizeram esperar e, depois de o próprio FC Porto ter colocado um vídeo no Instagram contra o racismo, também o Sporting reagiu em comunicado publicado no site oficial do clube.

“O Sporting Clube de Portugal vem por este meio manifestar a sua solidariedade com o jogador Marega do FC Porto e repudiar qualquer ato de racismo e preconceito social. Os valores que o Sporting Clube de Portugal defende não se reveem neste tipo de comportamento e consideramos, mais uma vez, que as autoridades devem agir em nome de todos aqueles que pretendem elevar o desporto e a sociedade portuguesa. Os acontecimentos desta tarde em Guimarães merecem toda a nossa atenção e preocupação e apenas em conjunto conseguiremos erradicar estas atitudes dos estádios em Portugal. Ao jogador, todo o nosso apoio”, defendeu.