Jorge Gonçalves

“Eu era Hamlet. Estava junto ao mar e falava com as ondas BLA BLA BLA, atrás de mim, as ruínas da Europa.” São estas as primeiras palavras que escutamos em Máquina Hamlet e esta imagem inicial de ruínas que tresandam a morte e a fim não há-de largar-nos mais durante todo o espectáculo — “o espectáculo ou a ruína do espectáculo, não sabemos bem”, diz o encenador Jorge Silva Melo. E é isso que nos é dado: à medida que avançamos por Máquina Hamlet, nada perdura, personagens e situações erguem-se e esfumam-se à nossa frente, num ritmo de evocação e dissolução permanente. As ruínas são, por isso, início e fim. Heiner Müller “era um devorador — ia metendo aqui tudo o que lhe aparecia”, acredita Silva Melo.