A reabertura gradual da economia, apoiada pela narrativa excessivamente otimista do Governo, pode criar uma falsa sensação de segurança económica. Se o apoio do Estado evitou no curto prazo um desastre maior, o prolongamento da emergência económica está a aumentar riscos para a estabilidade económica futura. E para isso, no melhor estilo deste Governo de navegação à vista, não há a menor preparação.

Três exemplos paradigmáticos são a situação do crédito, do mercado de trabalho e do endividamento corporativo. A situação dos bancos, que na anterior fase de expansão económica estavam a recuperar da crise financeira, voltará provavelmente a deteriorar-se. Os primeiros dados disponíveis mostram que 690 mil créditos tinham moratórias aprovadas até final de maio. A CGD, Santander Totta e BCP detinham um terço desses créditos que representavam sensivelmente 5% do volume do crédito ao setor privado. É assim possível admitir que o volume de crédito em moratória na totalidade do setor financeiro ronde atualmente 15% do crédito total, com possibilidade de continuar a aumentar.

As moratórias que se irão prolongar até março de 2021, permitem libertar a liquidez que as famílias e empresas desesperadamente necessitam. Mas é improvável que a situação se normalize no ano que vem sem um aumento significativo do crédito malparado. Afinal, muitas das famílias e empresas que pedem moratórias são as mesmas que já tinham dificuldades em fazer face aos seus pagamentos antes da crise. Mais, uma parte considerável das famílias não consegue fazer face a um choque inesperado – segundo dados do Eurostat, em 2018, numa fase de expansão económica, 35% das famílias portuguesas declaravam ter dificuldade em fazer face a uma despesa extraordinária, uma percentagem que é superior à média da UE. Dificilmente a sua situação irá melhorar substancialmente no quadro de crise mais prolongada que agora se antecipa.

Já no que diz respeito ao mercado de trabalho, na semana passada, perante a publicação dos números avassaladores de desemprego (acima dos 90 mil), a Ministra do Trabalho teve a infelicidade de dizer que a “curva de desemprego é descendente”, isto porque o aumento no número de desempregados em maio foi inferior ao de abril. Para além desta interpretação falaciosa dos números, é preciso notar que os dados de desemprego serão provavelmente também nesta fase, um indicador pouco confiável da real situação no mercado de trabalho. O layoff simplificado, que foi a medida-chave do Governo para aguentar o emprego no curto prazo, está atirar para a frente a concretização de muitos despedimentos, que são inevitáveis.  Infelizmente, ainda que o fim do confinamento trave a subida do desemprego, o prognóstico para os próximos meses, se calhar anos, tem de ser muito reservado.

Por fim, o endividamento empresarial. A opção do Governo de dar apoios ao endividamento empresarial, terá seguramente custos no futuro. Aumentar o endividamento poderá ser contraproducente num tecido empresarial já muito endividado: em 2019, o a dívida das empresas portuguesas era 4,5 vezes o seu resultado líquido anual. Na Zona euro, este rácio era 2,9. O tecido empresarial português já estava descapitalizado antes de entrar na crise, a opção do Governo deverá agravar ainda mais esta situação.

Sabemos hoje que o Governo optou por um plano de apoio à economia menos ambicioso do que inicialmente previsto, não só pelo seu valor relativamente reduzido face às necessidades, mas também por algumas escolhas que fez na natureza dos apoios. Enquanto espera pela ajuda da Europa, cujos moldes são ainda muito incertos, entretêm-se a gastar recursos na TAP, cuja sustentabilidade futura com ou sem apoios é altamente duvidosa mesmo depois do pior da crise passar. O que não se vê é o Governo preparar efetivamente o país para o que vier depois desta situação de emergência. Infelizmente o que ainda está para vir pode ser mesmo o pior.