E não é assim apenas com ele. Manel sofre de esquizofrenia paranoide e vive na rua há vários anos; conta mesmo “que é dos mais antigos de Lisboa”. Nos últimos tempos tem dormido na escadaria da Igreja de Arroios e desabafa que nem sempre é fácil manter a distância. Apesar de tentarem ter cuidados, há comportamentos habituais que dificultam. “Apanhamos coisas da rua, fumamos beatas uns dos outros. Podemos apanhar o problema”. Quando a pandemia começou, em março, nem sequer percebeu o que estava a acontecer durante uns dias.

Não se via ninguém, toda a gente tinha medo uns dos outros. Depois começaram a aparecer pessoas de máscaras. O meu médico é que me deu umas luzes. Não estava a perceber ao certo o que estava a acontecer”.

Luís também está por Arroios. Saiu da prisão em abril, mesmo a meio do confinamento, confessa que a adaptação não foi fácil. “Faltavam 14 dias para acabar a minha pena. Chamaram-me e disseram que eu podia sair”. A Segurança Social encaminhou-o para um quarto, num hostel, em Lisboa, mas admite que, às vezes, não dorme lá, porque se sente desconfortável naquele ambiente. “Divido quarto com duas pessoas que estão muito nas drogas e eu ando a fugir disso”, diz.

Na Almirante Reis, as arcadas são teto de dezenas de pessoas. A maior parte são jovens, há menos tempo na rua do que quem vive por Arroios. Vários estão mais alheados, apesar de aceitarem falar. “Princesa” (como é conhecida) é uma das poucas mulheres que encontramos. Durante a conversa com o Observador, “Princesa” está dentro de uma fortaleza de cartão, a olhar o vazio.

As pessoas estão carentes. Andamos mais afastados, queremos cumprir as regras. Uma grande diferença que vejo é a crise.”

Celestino Cunha é um dos coordenadores da Comunidade Vida e Paz. Apesar de reconhecer que foram criadas muitas respostas de habitação, sobretudo pela autarquia, alerta que as equipas estão a encontrar mais pessoas na rua do que antes da pandemia.

Antes da pandemia estávamos a encontrar cerca de 420 pessoas todas as noites, em 100 locais da cidade. Atualmente, depois de muitas pessoas terem ido para centros de acolhimentos ou para outras respostas, estamos a encontrar 550 pessoas. Aqui pelo meio, chegaram muitas pessoas à rua”.

Uma das questões que mais preocupação tem trazido é a falta de acesso a máscaras. Celestino garante que, neste momento, “o acesso a máscaras não existe”. A autarquia está a disponibilizar através das juntas de freguesia, mas este responsável explica que “uma das caraterísticas das pessoas sem-abrigo é não procurarem as instituições para resolverem os problemas”.

Outro dos problemas é a falta de higiene nas ruas, agravado ainda mais pelo encerramento dos restaurantes, que muitas vezes permitiam o acesso a pessoas em situação de sem-abrigo.

O responsável contacta diariamente com quem vive na rua e garante que “estas pessoas estão a sentir muita vulnerabilidade”: “Há medo e angústia”, apesar de a maior parte disfarçar — “como tradicionalmente fazem, através de substâncias, ou criticando ou isolando-se”.

A Comunidade Vida e Paz nunca deixou de estar nas ruas, mesmo no início da pandemia, quando muitas organizações não se conseguiram manter. Mesmo assim, Celestino afirma que há um “apelo sistemático à continuidade”.

Houve organizações que no início da pandemia não conseguiram manter a atividade e há um certo medo que isso volte a acontecer. Estar na condição de sem abrigo é viver numa enorme angústia de vulnerabilidade e insegurança”. Dizem-nos muito que não lhes podemos faltar, querem garantir que não vamos deixar de vir”, afirma o responsável da Comunidade Vida e Paz

Quanto ao médio prazo e ao impacto que a pandemia pode ter na integração das pessoas sem-abrigo, Celestino Cunha não quer perder o otimismo e tem esperança que a pandemia “até acelere a resposta”. Mesmo assim, não tem dúvidas que se avizinham tempos exigentes, porque o que está a ser criado neste momento é para quem já está em situação de fragilidade. “Aqueles que forem chegando por causa da crise, não sei… Vamos ter de assumir que precisamos de mais financiamento, mais respostas”.

Portugal tem uma Estratégia Nacional para a Integração das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo desde 2009. Mas, de acordo com um relatório divulgado pela Rede Europeia em Matéria de Política Nacional em 2019, pouco foi feito em 10 anos. No mesmo documento, 2017 é referido como um ponto de viragem nesta inércia.

Há três anos, foi aprovado um novo plano estratégico para integração de pessoas que não têm casa e, no final de 2019, Henrique Joaquim foi nomeado gestor desta área, com o intuito de se criar uma maior proximidade entre os decisores e a realidade das ruas.