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Pesquisadores buscam vestígios de um dos últimos ‘navios negreiros’ a atracar no Brasil

No final de 1852, dois anos depois de ser publicada a Lei Eusébio de Queirós, que proibia o tráfico de escravizados ao Brasil, o capitão americano Nathaniel Gordon aportou na região de Angra dos Reis e fez desembarcarem rapidamente cerca de 500 pessoas africanas.

Atento a rumores de que ele estaria sendo procurado pelo crime então chamado de “tráfico negreiro”, decidiu atear fogo à própria embarcação.

Disfarçado com roupas femininas, Gordon conseguiu fugir e voltar aos Estados Unidos.

O barco, um brigue — pequeno navio de dois mastros, mais ágil — chamado Camargo, afundou na costa brasileira, levando junto provas materiais daqueles derradeiros anos da escravidão.

O Camargo foi um dos últimos navios a conseguir transportar, clandestinamente, pessoas escravizadas ao país.

“Há pouquíssimas notícias de outros depois dele, e o Camargo é o último do qual temos evidências concretas”, afirma à BBC News Brasil a historiadora Martha Abreu, professora na Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).

Era uma história praticamente desconhecida até décadas atrás. Mas graças a trabalhos liderados por acadêmicos como Abreu, o quebra-cabeças desse navio importante para a história brasileira vem sendo montado.

E as peças vêm de três fontes. Primeiramente, os registros documentais. O caso Camargo acabou repercutindo na imprensa imperial da época e rendeu discussões até mesmo entre os políticos brasileiros.

“Trata-se de um acontecimento importante e simbólico, que repercutiu bastante na mídia nacional, foi discutido na Câmara dos Deputados. Havia uma insinuação de que estava acontecendo uma permissividade de autoridades locais a esses desembarques após a lei Eusébio de Queirós”, contextualiza à BBC News Brasil o arqueólogo e historiador Luis Felipe Santos, presidente do Instituto AfrOrigens.

“Tem uma documentação escrita da polícia, de ministérios do império, de autoridades. Há reclamações do desembarque, alegando que o governo permitiu, que não houve uma perseguição correta [dos criminosos]. O caso gerou notícia”, acrescenta a historiadora Abreu.

A outra evidência são depoimentos colhidos na década de 2000 dos moradores do Quilombo Santa Rita do Bracuí, formado por descendentes de escravizados na região de Angra — atualmente, cerca de 130 famílias moram ali.

“Estávamos fazendo pesquisa sobre as memórias da escravidão e visitamos uma série de quilombos”, conta Abreu.

“Sabíamos que o do Bracuí era importante. Quando entrevistamos os mais velhos, identificamos que havia na memória oral a narrativa de um barco que tinha sido afundado propositadamente muito tempo atrás.”

A historiadora ressalta que “eles não sabiam o nome” da embarcação, mas contavam que era uma história de um capitão que tinha afundado o navio “porque a polícia estava atrás dele”. “E muitos africanos morreram, muitos se salvaram”, acrescenta ela.

O terceiro ponto que faltava eram os vestígios materiais do tal naufrágio. E é essa a história que começa a ser desvendada pelos pesquisadores.

Os mergulhos arqueológicos ajudam a entender se as peças encontradas no fundo do mar são mesmo de um navio do século 19 (DR)

Arqueologia submarina

Para a ciência brasileira, é um projeto ousado. A busca efetiva dos restos do brigue Camargo começou a ser desenhada há cerca de 15 anos.

De lá para cá, esforços foram somados. A empreitada une o projeto Passados Presentes: Memória da Escravidão no Brasil, da UFF; o Arquivo Nacional; o Slave Wrecks Project, uma rede internacional coordenada pelo Smithsonian Institution National Museum of African American History and Culture em conjunto com a George Washington University; o Laboratório de Arqueologia de Ambientes Aquáticos da Universidade Federal de Sergipe; e o Instituto AfrOrigens, que tem no projeto Camargo sua iniciativa pioneira.

Depois de um mapeamento da região onde mais provavelmente o naufrágio ocorreu, a equipe realizou três mergulhos para esquadrinhar a área, próxima à foz do rio Bracuí, em Angra dos Reis.

O primeiro mergulho ocorreu em novembro de 2022. Outro, em dezembro. O mais recente foi agora em julho. São expedições ainda preliminares, em que os arqueólogos submarinos utilizaram equipamentos como sonares para buscar vestígios de qualquer coisa que possa vir a ser um resto de navio afundado.

“Fizemos levantamentos, usando tecnologias para a realização de imagens sonográficas subaquáticas que nos ajudaram no mapeamento dos locais com maior potencial de localização dos restos do navio”, explica o arqueólogo Santos.

“Na fase em que nos encontramos já desenvolvemos o levantamento e agora estamos processando os dados.”

Ele conta que duas áreas já delimitadas indicam “anomalias”, ou seja, evidências do que podem ser os restos da embarcação. Mergulhos arqueológicos estão previstos para ocorrer, a partir de outubro, para confirmar isso — e documentar o estado em que o provável Camargo se encontra.

“Vamos visualizar detalhes dessas estruturas para verificar se são de uma embarcação de meados do século 19. São assinaturas técnicas de tecnologias náuticas, de artefatos associados a contextos do naufrágio, isso que vai nos remeter ao mesmo tipo de embarcação que era o Camargo ou às pessoas que estavam a bordo do Camargo, sejam elas parte da tripulação, sejam os escravizados vindo de forma forçada”, conta o arqueólogo.

A historiadora Abreu vislumbra uma grande descoberta. “A gente já sabe que o Camargo afundou ali e os motivos que o levaram a afundar. Agora é achar a materialidade do Camargo, trazer seus vestígios à tona”, comenta ela.

“Isso é muito importante. É como se fosse uma prova, uma evidência material do crime. E a partir dali você pode criar um local de memória.”

A equipe que fez o mergulho arqueológico (DR)

Estados Unidos

Se o paradeiro do Camargo ainda era incerto, a participação dos Estados Unidos no tráfico de escravizados já tinha amplo conhecimento dentre os pesquisadores do tema.

Sobretudo depois da promulgação da Lei Eusébio de Queiroz, traficantes americanos passaram a fazer o comércio clandestino em portos improvisados ao longo da costa brasileira, em uma triangulação entre América do Norte, África e América do Sul.

Mas essa rota não começou apenas depois da proibição do comércio de escravizados. Estudos indicam que pelo menos 430 navios americanos realizaram mais de 500 viagens para vender africanos entre 1815 e 1850, na maioria para o Brasil e para Cuba.

Historicamente, acredita-se que a última embarcação dos Estados Unidos a trazer africanos para o Brasil foi Mary E. Smith, navio que deixou Boston em 1855 com destino ao Espírito Santo, com 400 negros a bordo.

Abordado por um vapor brasileiro, o navio foi escoltado até Salvador. Mais de 70 escravizados já estavam mortos, devido às péssimas condições sanitárias. Em 15 dias, pelo menos outros 100 também morreram.

Os tripulantes do Mary E. Smith foram condenados a três anos de prisão porém, depois de apelarem ao consulado americano, receberam o perdão oficial do próprio imperador Dom Pedro II (1825-1891).

Mas voltemos ao brigue Camargo. O traficante de escravos Nathaniel Gordon, em uma ação pirata, roubou o navio em 1851 na região da Califórnia. De lá, partiu para Moçambique, onde conseguiu forçar cerca de 500 negros a embarcarem.

Seu destino era o Brasil, onde ele faria dinheiro fácil vendendo os homens aos fazendeiros do café. Tudo indica que ele já conhecia a rede de portos onde era possível transferir os africanos de forma clandestina. E seu destino foi justamente o Bracuí.

Ali havia a propriedade da família Breves, da qual dois irmãos eram envolvidos na já ilegal receptação dos escravizados. “Era uma fazenda de recepção, um local de engorda”, explica Abreu. Como os africanos costumavam chegar muito debilitados depois da precária viagem, era comum que eles passassem por um período de boa alimentação a fim de recuperar massa e força física, em um processo conhecido como “de engorda”.

“O Bracuí era um porto de chegada e negócios com o tráfico ilegal”, sintetiza a pesquisadora.

O desembarque era feito às pressas, principalmente porque tinha de ser realizado às escondidas.

“Muitas pessoas, principalmente nas últimas décadas [de escravidão] morriam não somente por conta da travessia oceânica, mas no processo de desembarque, abrupto e rápido”, pontua Santos.

“Às vezes, de uma carga de 500 pessoas, 200 morriam no desembarque. Foi um capitalismo cruel que gerou milhares de mortes e, por muito tempo, esse crime foi camuflado.”

Ilustração da execução de Nathaniel Gordon, imagem datada de 1862 (DR)

No caso do Camargo, registros documentais indicam que foi tudo bem orquestrado. Tão logo o brigue se aproximou da costa, diversas canoas foram ao encontro do barco e os africanos foram levados para a fazenda dos Breves.

De lá, depois da tal “engorda”, os escravizados eram levados para fazendas produtoras de café. Segundo Abreu, no caso dos trazidos pelo brigue Camargo, o destino foram as plantações da região de Bananal.

O incêndio realizado por Gordon em seguida visava a eliminar os vestígios e conseguir fugir.

Era uma prática que parecia valer a pena, já que a embarcação era roubada.

Além disso, um escravizado adquirido na África pelo equivalente a 40 dólares costumava chegar ao Brasil valendo de 400 a 1200 dólares. Um lucro muito alto.

A imprensa do império não deixou passar batido o caso. Em dezembro de 1852, o jornal Diário do Rio de Janeiro noticiou que um navio americano havia trazido escravizados a Bracuí.

Uma tropa de cerca de 400 soldados chegou a ser enviada para patrulhar a região. As investigações levaram três meses mas apenas 38 africanos acabaram encontrados e resgatados.

Gordon conseguiu escapar e retornar aos Estados Unidos, onde seguiu traficando escravizados. Sua criminosa carreira internacional, contudo, foi interrompida graças a um julgamento.

Em 21 de fevereiro de 1862, condenado pela lei americana por envolvimento no comércio de escravizados, ele foi executado por enforcamento na cidade de Nova York.

Passado redescoberto

Para os pesquisadores, reconstituir o que foi o brigue Camargo é conseguir entender melhor três pontas do outrora chamado “tráfico negreiro”: da venda, em Moçambique, à chegada, ao Brasil — passando pelo intermediário, americano.

“É uma história que não pode ser esquecida, uma história que comprova a exploração e o abuso que foi o tráfico de africanos ao Brasil e como tudo isso gerou tanta riqueza”, salienta Abreu. “Uma história que não pode ficar escondida.”

“O Camargo não foi um caso isolado de desembarque clandestino de africanos, mas estamos prestes a recuperar as provas materiais dos crimes que aconteceram naquela época”, enfatiza Santos.

“Nossa pesquisa vai identificar as provas do crime contra a humanidade [que foi a escravidão], a partir da materialidade localizada nos espaços aquáticos, dando visibilidade a toda uma estrutura de organização do tráfico escravagista que por muito tempo foi desconsiderado pela pesquisa acadêmica.”

Por Edison Veiga