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Rita Lee, a rainha do rock brasileiro, morreu

Rita Lee Jones, a “Rainha do Rock” brasileira que vendeu um milhão de cópias e conquistou seguidores internacionais com o seu estilo colorido e sincero e sucessos como “Ovelha Negra”, “Mania de Você” e “Agora Só Falta Você”, morreu aos 75 anos.

Também conhecida como Rita Lee, ela morreu em sua casa, em São Paulo, na noite de segunda-feira, de acordo com um comunicado publicado na sua conta oficial no Instagram.

Com uma carreira de seis décadas, a paulistana deixou uma marca duradoura com a sua irreverência, criatividade e composições com mensagens que ajudaram a introduzir a sociedade brasileira ao feminismo, além de abordar com franqueza a sua luta contra o abuso de drogas.

Apesar de considerar a sua voz “fraca e um pouco desafinada”, como a de um pardal, teve uma longa série de álbuns campeões de vendas, incluindo “Rita Lee” e “Rita Lee & Roberto de Carvalho”, e dezenas das suas canções foram apresentadas em telenovelas de grande audiência na América Latina. A gigantesca rede de televisão Globo usou a sua interpretação da música “Poison Weed” (Hera Venenosa) em três dos seus programas.

“Não nasci para me casar e lavar roupa interior. Queria ter a mesma liberdade dos meninos que brincavam na rua com seus carrinhos de brinquedo”, disse ela à edição brasileira da Rolling Stone em 2008.

“Quando entrei na música, percebi que os homens reinavam absolutos, ainda mais no rock. ‘Nossa’, eu disse, ‘é aqui que eu vou soltar minhas presas e, literalmente, dar uma dura neles’.”

Artista versátil

Era uma cantora e compositora elogiada pela sua versatilidade, tocando pelo menos cinco instrumentos: bateria, guitarra, piano, harmónica e autoharpa. Foi também uma das primeiras musicistas brasileiras a usar a guitarra eléctrica.

Eventualmente, a sua popularidade estendeu-se para além do Brasil. Apresentou-se em Portugal, Inglaterra, Espanha, França e Alemanha. Em 1988, o jornal britânico Daily Mirror revelou que o entãoPríncipe Carlos admirava sua música “Lança Perfume” e considerava-a a sua cantora favorita.

Rita Lee ganhou um Grammy Latino na categoria de Melhor Álbum de Língua Portuguesa em 2001, com o álbum “3001”.

Rita Lee ganhou fama com o grupo Os Mutantes, a partir de 1966. As cores e a criatividade, bem como a ironia e a irreverência, foram as marcas registadas de Rita Lee desde o início, evidentes nos trajes extravagantes que apresentava nos seus espectáculos. Em meados da década de 1970, após vender 200 mil cópias do álbum “Forbidden Fruit”, Lee começou a ser chamada de “rainha do rock” no cenário musical. Entre os sucessos de “Fruto Proibido” estão “Agora Só Falta Você” e “Ovelha Negra”, há muito tempo tocadas em estações de rádio e novelas brasileiras.

“Rebelde e hippie comunista”

Foi uma das primeiras figuras públicas no Brasil a popularizar temas feministas, como ao infundir a letra de sua canção “Mania de Voz”, de 1979, com a sexualidade e o prazer femininos. Seguiram-se canções semelhantes, como “Amor e Sexo”, que contrastava os dois em pormenor, e “Lança Perfume”, uma ode ao hedonismo desenfreado.

Mais tarde, tornou-se vegana e activista dos direitos dos animais. Durante décadas, manteve o cabelo ruivo e usava frequentemente óculos a condizer, um visual popular que abandonou nos últimos anos ao deixar crescer os cabelos brancos. Em 2015, decidiu reinventar-se como uma borboleta branca.

Na sua autobiografia, publicada no ano seguinte, não se coibiu de descrever os abusos sexuais que sofreu em criança às mãos de um homem que veio arranjar a máquina de costura da sua mãe.

Também se referiu a si própria como “rebelde” e “hippie comunista”, e escreveu sobre o facto de se esgueirar pelas janelas de casa quando era adolescente para brincar, de ter sido presa durante a ditadura por posse de marijuana e das suas múltiplas passagens por clínicas de reabilitação de drogas e álcool.

“Reconheço que as minhas melhores canções foram escritas num estado alterado, e as minhas piores também. Só me arrependo de ter demorado a perceber que o ‘remédio’ já havia expirado há muito tempo”, escreveu. “A minha geração sofreu a claustrofobia de uma ditadura brutal, e o uso de drogas era uma forma de respirar ares de liberdade.”

Em entrevista ao programa de televisão Fantástico, em 2020, ela explicou que a fragilidade física a levou a deixar os palcos oito anos antes.

“Envelhecer, para mim, foi uma surpresa, porque nunca fui velha na minha vida”, disse ao programa. “Fiquei com vontade de viver a minha velhice longe do palco, sem a partilhar com o público.”

Um velório público será realizado no planetário de São Paulo a 10 de maio, de acordo com o post no Instagram.

Ela deixa os três filhos e o marido, o músico Roberto do Carvalho, com quem dividiu uma parceria musical de 44 anos. Em 2021, eles lançaram uma nova música, Mudança, juntos, e um remix de alguns dos maiores sucessos da cantora.

Anos antes, ela imaginava a sua morte, como que profetizando:

“Estarei no céu”, escreveu, “com a minha alma presente a tocar a minha autoharpa e a cantar para Deus: ‘Obrigada, Senhor, finalmente sedada’. Epitáfio: Ela nunca foi um bom exemplo, mas era uma boa pessoa”.