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Eleição não é mata-mata, é pontos corridos, por Gustavo Conde

Eleição não é mata-mata, é pontos corridos

por Gustavo Conde

Emblemático: Flávio Dino apoiou João Campos no Recife, mas foi votar com uma camiseta Lula Livre.

O vírus da desorganização do discurso político foi inoculado direitinho em todo espectro ideológico pelo bolsonarismo pistoleiro.

Ninguém liga mais para coerência, para caráter, para lealdade. É tudo pragmatismo.

Não há nem a tentativa – por parte das esquerdas – de explicar as decisões contraditórias (daí o sucesso da carga viral delinquente).

Há um “dane-se” generalizado. “O povo não entende nada mesmo…” deve ser um dos enunciados internos nos escombros do progressismo.

E também não se pode falar que “a esquerda está dividida” porque “quem diz isso quer dividir a esquerda”. É pistolagem, patrulha e histeria provocada por hubs digitais autocarimbados como “progressistas”.

Não é fácil, mas é por isso mesmo que vale a pena entrar de sola nessa discussão tão bobinha que permeia o imaginário das esquerdas nesse momento.

É hora de ruptura. É hora de estilhaçar essa linguagem viciada, preguiçosa, falsamente estratégica, que se alimenta do próprio fracasso e que se vitimiza por conveniência.

A esquerda, difusa e confusa, tem o melhor projeto de país, mas não acredita nisso. Sua dicção é nervosa, traumatizada, insegura. Não sabe se vai para as redes sociais ou se tentar partir para as ruas – mas, aí, tem a pandemia…

Todos ainda estão profundamente assustados e não poderia ser diferente: o golpe tem apenas 4 anos, a prisão política de Lula, 3, a destruição generalizada e acelerada de país, 2.

Nessas eleições, os candidatos das esquerdas, de maneira geral, aceitaram a pecha que lhes é imposta pelos grandes veículos de comunicação: vestiram a carapuça do envelhecimento.

Vestiram tanto, que passaram a elogiar o envelhecimento – e não se trata aqui de gerontofobia, mas de organização do discurso.

A militância, essa entidade relativamente selvagem – porque coletiva e sem face aparente – ficou perplexa diante de tanta confusão enunciativa. Tentou manter lealdade, mas com muita dificuldade de saber a quê deveria sustentar lealdade.

O rescaldo das eleições não é tão ruim para a democracia, no entanto. E a razão é simples: o discurso de ódio começou a ser rechaçado pela população, ainda que de maneira também difusa e confusa.

De uma certa maneira, é possível cravar: a política está de volta, com tudo aquilo que ela tem de bom e ruim, inclusive o clientelismo.

Sai-se do universo pistoleiro do bolsonarismo para entrar no mundinho aristocrata do tucanismo e do bolsonarismo assintomático do centrão.

A boa notícia é que essas dimensões avacalhadas do nosso debate público (centrão, Rede Globo e Tucanistão) estarão na “pista da história” e poderão ser superados como foram em 2002, 2006, 2010, 2014…

O caos discursivo que tomou de assalto as esquerdas (o embrulho de seu conteúdo) não é de todo uma catástrofe: ele precede a reorganização.

E é esse processo que vem aí, com as prefeituras tomadas pelo velho sistema oligárquico do país: a esquerda terá de voltar definitivamente para a oposição e em dois anos deverá dar forma a um novo discurso que materialize as demandas sociais, políticas e psicossociais da população.

A responsabilidade de governar, agora, está toda com a centro-direita: eles venceram as eleições municipais, como a imprensa empresarial vem enchendo a boca para falar. Mas vencer acarreta em um ônus: tem de governar e tem de apresentar resultados.

O debate público vai, aos poucos, se reorganizando. As pressões clássicas pela preservação do meio ambiente, pela inclusão social, pelo combate à fome, pelo crescimento econômico vão voltar como uma avalanche (o jornalismo cativo segurou-as o quanto pôde).

É nesse circuito discursivo que a esquerda – ou as esquerdas – têm uma chance para re-encaixar o seu recado. Só que, aí, tem um problema adicional: as elites tentarão encaixar também o discurso-antídoto para o day-after de Bolsonaro, o destruidor de tudo.

Se a esquerda ou as esquerdas caírem mais uma vez na armadilha de se auto-identificarem com o “velho” como quer nosso jornalismo selvagem – e o outro jornalismo digital estilo “igrejinha” e metido à besta – ela vai amargar mais um ciclo de espera.

A rigor, o que as esquerdas precisam é de um líder – que organize o sentido politico (eu não tenho medo de dizer que “um líder” seja necessário; estou vacinado contra essas armadilhas toscas do discurso hegemônico, classista e pseudodemocrático).

Boulos sai muito fortalecido das eleições municipais. Sua derrota é mais eloquente do que seria uma vitória. Lembremos: Lula perdeu três vezes antes de ganhar.

Aproveito para dizer em nota mental: as eleições não são um “mata-mata”, são um campeonato de pontos corridos.

Em Boulos – retomando – há uma chance de reorganizar o discurso. Mas Lula ainda está vivo, forte, lúcido e com uma vontade danada de reverter o processo de golpe que apenas usou Bolsonaro como boi de piranha – já que o objetivo final era mesmo devolver à centro-direita o controle do processo político.

Lula e Boulos, juntos, representam a retomada do raciocínio – e eu vejo Boulos mais como uma peça (uma peça de luxo, é verdade) do que como o elemento disruptivo, que tem o poder, de fato, de mudar o curso da história.

Para resumir, Lula tem mais uma vez – e talvez seja a última vez -, a faca, o queijo e a goiabada nas mãos para driblar o processo histórico patrocinado pelas elites e pelas três famílias que mandam no Brasil há 50 anos.

É bom não subestimar.

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