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Brazil

Pesquisas com o DNA do Pirarucu permitirão criação e manejo sustentável

Aperfeiçoar a criação e o manejo sustentável de um dos maiores peixes de água doce do mundo. Esse é o maior benefício do sequenciamento do genoma do pirarucu que foi concluído por um grupo de pesquisadores brasileiros.

O trabalho tem a liderança de Sidney Santos, da Universidade Federal do Pará (UFPA), em Belém, e foi publicado recentemente no periódico Genome Biology and Evolution. O genoma consiste na sequência completa de “letras genéticas” (as bases nitrogenadas que compõem o DNA) que armazena a receita biológica de cada ser vivo. No caso específico do pirarucu, são cerca de 661 milhões de bases, um tamanho relativamente modesto se comparado ao genoma humano (3,2 bilhões).

O pirarucu é conhecido como o “gigante da Amazônia” e pode chegar a um comprimento de 4,5 metros e massa de até 200 kg. O peixe tem grande valor de mercado por sua carne com baixo teor de gordura e pouco conteúdo ósseo, mas a pesca excessiva na Amazônia começou a ameaçar sua sobrevivência, e o governo restringiu a pesca e a comercialização só quando ela é proveniente do manejo participativo ou da criação em viveiros. Daí uma das motivações para o estudo.

“O pirarucu é um peixe emblemático da Amazônia, é o bacalhau da Amazônia”, explica Santos, salientando que já havia na UFPA um grupo que trabalhava questões sobre a biologia do pirarucu, especialmente sobre marcadores genéticos que permitem a identificação individual e o controle de populações naturais. Os estudos possibilitaram uma parceria entre grupos da UFPA e da Universidade Federal do Rio Grande do Norte(UFRN), que usaram as ferramentas da bioinformática de forma a montar um genoma completo do peixe a partir do zero, uma vez que não havia espécie similar já sequenciada para servir de base de comparação.

Macho x fêmea

Um dos maiores desafios para os criadouros consiste no fato de que é impossível identificar os machos e as fêmeas dessa espécie, característica chamada de ausência de dimorfismo sexual. O  sequenciamento genético permite o desenvolvimento de testes genéticos para a identificação de machos e fêmeas. “Nós já identificamos o cariótipo, o conjunto de cromossomos do pirarucu e confirmarmos que macho e fêmea não têm diferenças estruturais”, explica Santos. “Estamos agora aplicando uma nova tecnologia chamada de CGH-Array, que permite empregar o DNA de macho como sonda para o cariótipo da fêmea, e vice-versa. Essa tecnologia é mais apurada para identificar possíveis diferenças não identificadas do ponto de vista estrutural”, completa. Por fim, os pesquisadores identificaram sequências de DNA presentes só nos machos e só nas fêmeas. “Se confirmadas, essas diferenças servirão de base para um teste genético de identificação”, diz o pesquisador da UFPA.

Outro recurso importante ofertado pelo sequenciamento é a possibilidade de desenvolver um teste capaz de fazer a identificação genética do indivíduo. “Seria algo similar a um teste de paternidade”, explica Sandro José de Souza, da UFRN, um dos coautores do estudo. “Isso permite avaliar a saúde genética de uma população,se há uma boa diversidade genética, e também serve para monitorar a carne exportada e verificar se está mesmo vindo de criadouros e não do ambiente”, diz Santos, ressaltando que os pesquisadores estão trabalhando com 20 marcadores identificados após o sequenciamento. “Semelhantes aos testes de identificação de humanos, eles são capazes de identificar 10 bilhões de indivíduos”, completa.

Originário da bacia amazônica, o peixe tem o nome científico Arapaima gigas e atualmente se distribui por Brasil, Colômbia, Equador e Peru. Além disso, também existe na Tailândia e na Malásia, onde foi introduzido para a pesca comercial.

Peixo com pulmões

O pirarucu também desperta curiosidade sobre processos evolutivos, uma vez que se trata de um peixe pulmonado, ou seja, além das guelras para respirar sob a água, ele pode respirar o ar. “Estamos explorando isso”, diz Souza. “Temos agora já dados de transcriptomas do pirarucu, ou seja, quais genes são expressos [estão ativados] em cada célula ou tecido, e pretendemos também sequenciar outros peixes pulmonados". 

O projeto de sequenciamento usou quatro indivíduos, dois pirarucus machos e dois fêmeas, e foi financiado com verbas do CNPq e da Capes. Os laboratórios já estavam previamente equipados para o trabalho, e o custo envolveu apenas insumos, da ordem de R$ 60 mil.

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