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Professor é morto em casa

“O que mais eu admirava nele era a força e a garra. Era uma pessoa de bom coração e que tinha prazer em ajudar a todos”, descreve Jeovana Maria da Silva, 17 anos, ex-aluna do professor executado a tiros, na frente ao pai, dentro de casa, em Santa Maria. Para amigos e familiares, Adailton Jorge da Silva Campos, 33, deixa o legado de profundo amor pela profissão, ensinamento e bondade.

Adailton Jorge morreu na manhã de ontem. Segundo as investigações conduzidas pela 33ª Delegacia de Polícia (Santa Maria), o docente saiu à noite com algumas pessoas para se divertir em um bar da região, onde passou a madrugada. A polícia suspeita que os acusados de matar o professor também estavam no local. “A gente apura se eles se conheciam. Esse grupo, no entanto, começou a desconfiar que ele poderia ter pego um celular, mas isso não ocorreu”, detalha o delegado-chefe da 33ª DP, Paulo Fortini.

Por várias vezes, os criminosos foram até a casa de Adailton para questioná-lo sobre o sumiço do aparelho. O docente chegou a pedir aos suspeitos para que eles olhassem o interior do seu carro, como prova de que não tinha roubado nenhum objeto. “Em determinado momento, o autor disse que a situação não ficaria daquele jeito e efetuou três disparos de arma de fogo contra o professor”, ressalta o investigador.

Um dos envolvidos foi identificado pela polícia, mas até o fechamento desta edição, ele não havia sido preso. Há a suspeita de que menores de idade estejam envolvidos no crime, segundo informou o delegado. Adailton morava com os pais, que são idosos. O pai, que estava na casa no momento do crime, presenciou o assassinato do filho.

Carreira

Adailton ingressou no curso de pedagogia em 2011 e se formou em 2014. Em 2013, o professor dedicou-se aos estudos de Libras no Instituto Federal de Brasília (IFB). Nesse mesmo período, ele adquiriu o diploma de pós-graduação em gestão e orientação educacional, no Instituto de Ciências Humanas e Sociais.

A formação profissional não parou por aí. Adailton especializou-se em geografia e chegou a fazer um curso técnico em secretaria escolar, também no IFB. O amor pela profissão não ficou apenas no currículo. Nos perfis das redes sociais, o docente fazia questão de estampar a paixão pela área de educação e publicava fotos onde dizia: “Orgulho de ser professor”.

Por duas vezes, ele trabalhou como voluntário. Uma delas, como educador social, entre março e abril de 2016, em uma escola pública de Santa Maria, segundo informou a Secretaria de Educação. O rapaz também atuou como monitor voluntário em um dos maiores eventos de tecnologia do país, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia de Brasília, coordenado pelo IFB, auxiliando professores e alunos e esclarecendo dúvidas.

Desde fevereiro, o docente estava desempregado. O último emprego foi no Colégio Estadual Duque de Caxias, em Águas Lindas de Goiás, onde estava por mais de quatro anos. Pela manhã, ele lecionava aulas de geografia para estudantes do ensino fundamental e, à tarde, era responsável pela coordenadoria. O contrato, no entanto, era temporário. Segundo informaram amigos, Adailton estava em busca de emprego e dedicava o tempo para cuidar dos pais.

Saudades

Mais do que um professor, um amigo. O Correio esteve na casa da vítima e também conversou com alguns docentes do Colégio Duque de Caxias. A família está abalada e preferiu não conceder entrevista. “O que temos para falar dele? Era uma pessoa humana, extremamente honesta e simples. Ele dava a vida pela profissão e não tinha tempo ruim. Era o primeiro a chegar na escola, muito antes dos funcionários da limpeza”, conta a secretária da escola, Luciane Bernasconi, 51.

Segundo ela, em algumas vezes, Adailton chegava a dormir na escola para não se atrasar no dia seguinte. Uma outra professora, Helen Cris, 28, descreve o profissional como “guerreiro”. “Era uma pessoa bem rígida com os alunos, que pegava no pé. Mas, aquilo era para o próprio bem dos estudantes. Ele queria ver o pessoal crescendo e aprendendo na vida”, relata.

Nos horários vagos, o professor aproveitava para dar continuidade ao projeto contra a depressão, em que tirava um período do dia para conversar e compreender os estudantes. “Ele sempre ajudava os adolescentes que tinham síndrome do pânico. Fazia isso porque amava, gostava de ajudar muito as pessoas. Vários alunos transformaram da vida por causa dele”, ressalta a pedagoga Isabel Sales, 34.

A ex-aluna Jeovana Maria da Silva conta que, quando os estudantes souberam que Adailton deixaria a escola, fizeram uma manifestação. “Todos pediram para que ele voltasse. Lembro das vezes em que eu estava passando por crises de ansiedade e ele deixava de ir para a sala de aula para ficar comigo no corredor da escola e me dar apoio”, finaliza. Adailton será sepultado hoje no Cemitério Parque Memorial, no Novo Gama (GO).


O que temos para falar dele? Era uma pessoa humana, extremamente honesto e simples.
Ele dava a vida pela profissão e não tinha tempo ruim”

Luciane Bernasconi,
secretária escolar


Ele sempre ajudava os adolescentes que tinham síndrome do pânico.
Fazia isso porque amava, gostava de ajudar muito as pessoas”

Isabel Sales, pedagoga

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