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Racismo: memória afetiva, resistência e reação

Maduros e calejados como já estamos, devemos saber que a melhor forma de lutarmos por nossos direitos e de combater a desigualdade racial, é aquela que dá resultado prático. Não é do interesse do sistema promover uma reforma estrutural que retire os privilégios dos herdeiros de sua estruturação, em prol de uma sociedade social e racialmente mais justa

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Se todos os pretos e pretas pudessem falar das lembranças que trazem em suas fatigadas retinas, sobre as diversas formas e situações em que o racismo lhes fora apresentado, compreenderíamos melhor a reação ou a não reação que eles tiveram no momento em que a sua existência foi vilipendiada em função da cor de sua pele. A nossa memória racial afetiva é composta por um arquivo de imagens e cenas, que não gostaríamos de ter visto ou vivenciado. Pior, é saber que à época, não nos posicionamos como deveríamos, por ainda não termos maturidade racial o suficiente para lidarmos com os fatos.

Dois grandes nomes do ativismo negro mundial, Malcolm X e Martin Luther King, por vezes, são colocados em posições antagônicas na luta pela mesma causa. O primeiro, era tido como um separatista que pregava a supremacia preta e taxado de extremista, por entender que os negros deveriam conquistar a sua liberdade através de qualquer meio. Fosse pacífico ou violento. O segundo, adotava um tom mais moderador, citava trechos bíblicos e cria que a igualdade racial poderia ser conquistada através do diálogo e do entendimento entre as raças. Criou-se então uma espécie de “dicotomia” do ativismo racial negro norte americano, onde uma visão quase que maniqueísta os definia.

Ambos foram definidos pelo sistema, o mesmo responsável pela estruturação e manutenção da desigualdade racial, que se viu pressionado pela força dos movimentos a favor dos direitos civis dos pretos, a dar uma resposta a sociedade da época. Malcolm X apelava para a memória afetiva e para o lado emocional dos pretos, relembrando os 310 anos em que eles foram escravizados e investiram na América a força do seu trabalho e o seu sangue a troco de nada. Luther King não se apegava muito ao passado e pautava o seu discurso no futuro. Ele tinha um sonho. O dia em que todos os cidadãos americanos sentar-se-iam à mesma mesa e não seriam mais julgados pela cor de suas peles, mas sim, pelo seu caráter.

O sistema captou a mensagem que os dois queriam transmitir e fingiu apoiar uma delas. Como Malcolm X costumava dizer, os brancos eram suficientemente inteligentes para saber o que os pretos sentiam. E não seria um fala mais doce que faria os racistas abandonarem suas convicções de supremacia. Talvez, ele considerasse que a postura de Luther King era a de quem implorava por liberdade. O que ele, Malcolm, considerava um forma de se entregar ao “inimigo”, uma vez que, quem implora por direitos que já seriam seus naturalmente, jamais seria respeitado e nunca desfrutaria deles plenamente. Por sua vez, Luther King continuava mantendo as suas convicções pacifistas, e, por conta delas, começou a ser visto com um olhar menos repulsivo por parte da sociedade norte americana.

Confesso que tendo mais aos métodos de Malcolm X, embora discorde de sua ideia de armar a população preta da América. O fato é que os seguidores de ambos estavam diante de dois grandes líderes, cuja retórica e oratória eram consistentes e convincentes para a finalidade a qual se destinavam. Finalidade esta que fazia a ambos, cada qual com seu método discursivo e suas ações práticas, serem odiados pelo sistema. Tanto é, que ambos foram assassinados. O que prova que o problema não era a forma pela qual apresentavam o seu discurso, mas, o conteúdo nele contido. Uma coisa chamada: Igualdade racial. Algo que a estrutura do sistema não suportaria, porque ele não foi construído sobre as rochas da justiça e da equidade. Desde sua concepção, o objetivo era perpetuar a desigualdade e as diferenças. Sobre tudo, as raciais.

Volto a minha tendência à Malcom X, quando ele diz que: “Nunca teremos liberdade real e igualdade entre brancos e negros, se o atual sistema econômico, social e político não for destruído. Até lá, o branco não reconhecerá o negro como igual.” Ele ainda usava o fato de os pretos precisarem de leis para serem reconhecidos como seres humanos, para justificar o seu pensamento com relação ao sistema. A verdade é que os brancos nunca precisaram lutar para terem direitos ou para serem respeitados. Eles conceberam o que é direito deles e o respeito que merecem receber. Os outros, ou, as outras raças, que corram atrás.

Assistindo a uma palestra do Jurista e Professor Silvio Almeida, que está disponível no Youtube, pincei uma colocação feita por ele, que diz muito sobre o conceito de supremacia branca. “Branco não tem raça.” Socialmente falando, raça tem os outros. O branco é o paradigma universal dominante a ser seguido. O racismo estrutural faz com que se torne intrínseco no imaginário popular, que o branco é superior em todos os aspectos. Seja cultural, social, pessoal, moral, econômica, religiosa ou politicamente falando, tudo e todos que sempre nos foram apresentados como algo relevante ou como referência, ou é branco ou foi concebido por um.

Jesus, os anjos, a virgem Maria, os heróis nacionais, os mártires, os grandes filósofos, os grandes inventores, os grandes artistas, os grandes intelectuais, todos são brancos. E quem não era, como é o caso de Jesus, dos anjos, e, provavelmente também da virgem Maria, o sistema tratou de embranquecer para aumentar a supremacia e a dominação sobre as demais etnias. Como dialogar pacificamente com uma estrutura covarde, leviana, supremacista e opressora como esta? Convido os brancos recém chegados (e muito bem vindos) ao antirracismo, a refletirem a respeito. O papel destes é muito importante, para a concepção de uma nova mentalidade social, que promova não apenas a igualdade, mas, principalmente, a equidade.

Uma mudança de mentalidade por si só, vai forçar a organização de uma nova estrutura social que abrigue a todos igualitariamente. Tal mudança começa a acontecer, quando o privilégio por ser branco é reconhecido e abandonado. Alguém pode perguntar sobre qual seria o papel do branco pobre e periférico nessa mudança, uma vez que ele sofre das mesmas agruras sociais as quais os pretos estão submetidos. Sim, há um lugar de fala deles aí, e não é o mesmo onde estão os brancos de classe média e alta. Como diria o saudoso Cantor e Compositor Dicró: “No Brasil, branco pobre é preto” A diferença, ou a grande diferença, é que ele não sofre racismo. E isso, à luz do tecido social brasileiro é um baita privilégio.

Maduros e calejados como já estamos, devemos saber que a melhor forma de lutarmos por nossos direitos e de combater a desigualdade racial, é aquela que dá resultado prático. Seja a la Malcolm ou a la Martin, a nossa capacidade de resistência é o que irá definir a conquista do nosso objetivo. Pois, como também já sabemos bem, não é do interesse do sistema promover uma reforma estrutural que retire os privilégios dos herdeiros de sua estruturação, em prol de uma sociedade social e racialmente mais justa. Para combater a esta tendência, é fundamental não permitir que a força da nossa reação, seja comparada a violência histórica que o opressor nos impôs. O sistema sabe muito bem como transformar o oprimido em opressor, quando este ameaça a sua estrutura.

Malcolm X e Luther King que o digam....

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