Portugal

A noite em que Ventura transformou o “obviamente, demito-me!” num “PSD, ouve bem!”

Era a noite do “obviamente, demito-me!” para André Ventura. Afinal, o candidato presidencial e líder do Chega falhara no cumprimento dos objetivos traçados: forçar uma segunda volta, ficar em segundo lugar e somar mais votos do que a esquerda toda junta. Mas nem no discurso nem nas declarações arrancadas a caminho do elevador do Hotel Marriott, em Lisboa, Ventura proferiu a palavra ‘demissão’. Ainda assim, como é “firme” no que diz, cumpriu a promessa e garantiu que devolverá a palavra aos militantes para que decidam se o querem na continuidade deste projeto.

Apesar de ter passado a campanha a dizer que não há ‘meias vitórias’, o líder, eventualmente demissionário, do partido destrinçou entre o que considerou “uma derrota” e “uma grande vitória”. “É uma derrota não ter conseguido uma segunda volta, não termos ficado à frente de Ana Gomes. É uma grande vitória termos reconfigurado o espaço da direita em Portugal”, sublinhou. Já antes tinha falado numa “noite histórica”, num partido “declaradamente antissistema” que “rompeu o bloqueio habitual” e que vivia agora “o seu momento maior”.

Depois, pulverizar a esquerda depende muito da forma como se olha para o espectro político. “Esmagámos a extrema-esquerda em Portugal”, proclamou, contando para o Chega “mais votos do que o PCP, o Bloco de Esquerda e a Iniciativa Liberal juntos”. É verdade que Ventura ficou “aquém dos 15%” e “a algumas décimas da esquerda medíocre, mais colada às minorias que têm explorado e destruído” o país, como disse, mas “a IV República está cada vez mais perto”, prometeu, assim como a queda deste “Governo miserável”.

Aquilo que foi hoje “um enorme estalo” amanhã “será uma avalanche”, assegurou Ventura, que não se esqueceu de agradecer a Deus por tê-lo colocado ao leme desta empreitada. À entrada, pouco antes das 19h, já tinha revelado que passou o dia a rezar. “Rezei, rezei muito. Não pelo resultado mas por termos conseguido chegar ao fim e estou muito feliz com o que conseguimos”, disse então. Para líder demissionário, Ventura continua certo de que é ele o escolhido, não apenas pela Divina Providência, mas também pelos militantes.

Para já, antes de se lançar a “uma nova reconquista”, como aquela que prometeu em campanha, com o castelo de Guimarães por trás, Ventura regozijou-se com os destroços que provocou à sua volta. “Quebrámos o mito das terras de esquerda. [O candidato comunista] João Ferreira nem no Alentejo me ganhou”, declarou. Mas nem a candidata bloquista Marisa Matias capitalizou com a iniciativa dos lábios vermelhos, nem Ana Gomes descolou, disse ainda, apontando ainda o dedo às empresas de sondagens. E ficou o aviso para o maior partido da direita: “PSD, ouve bem! Não haverá governo em Portugal sem o Chega”.

“De toda a Europa” lhe chegaram mensagens a dizer que “Portugal acordou”. E diz que esta noite se iniciou “uma avalanche que vai derrubar todas as barreiras nas autárquicas e nas legislativas”, concretizada pela “maior força de transformação das últimas décadas”. O mérito não é só de Ventura, ainda que ele seja o escolhido, é do meio milhão de portugueses que votaram nele. Quanto ao Presidente reeleito, Ventura fez votos para que o segundo mandato de Marcelo Rebelo de Sousa marque “uma rutura” relativamente ao primeiro. Quanto a Ana Gomes, o líder demissionário não vê “razão para falar” com a militante socialista porque a carreira política e o espaço de intervenção desta terminaram esta noite. O do Chega, garantiu, começou agora.

Jamais caminharás sozinho

No momento da entrada na sala, Ventura foi recebido com aplausos e a garantia que “jamais caminhará sozinho!”. Uma aclamação que, por momentos, disfarçava o calafrio. Quando renhida disputa pelo segundo lugar começou a pender para a rival, o quartel-general do Chega esfriou bastante – na verdade, nunca chegou realmente a respirar-se um cheiro de vitória.

De olhos postos na televisão ou no ecrã do telemóvel, de mãos nos bolsos ou gesticulando enquanto conversavam entre si, os militantes e apoiantes não disfarçavam os olhares apreensivos. A poucos minutos de Ventura discursar, o presidente do Conselho de Jurisdição do Chega ainda acreditava no segundo lugar. “Mas só no fim é que vamos ter a certeza”, disse ao Expresso. A dois dias de completar 82 anos, Carlos Monteiro afirmou que conhece Ventura “fora do partido”, o que é “muito importante”.

Carlos Monteiro, presidente do Conselho de Jurisdição do Chega

Carlos Monteiro, presidente do Conselho de Jurisdição do Chega

José Fernandes

“O Ventura dos discursos inflamados não tem nada a ver com o Ventura muito sociável e muito amigo de toda a gente”, distinguiu. “Não tem nada de racista, isso é tudo uma fantochada”, acrescentou, referindo-se ao seu antigo professor de Direito. Carlos Monteiro conhece Ventura há 10 anos, “suficientemente bem para ter muita estima por ele”. Mas não o suficiente para lhe passar um cheque em branco, pois não? “Quem? A ele? A ele passo um cheque em branco, sim”, rematou.

Numa campanha que incluiu ciganos apoiantes que não o eram, acusações de espionagem e provocações várias, na noite eleitoral não poderia faltar um caso. O Chega pediu aos jornalistas para saírem da sala onde se encontravam há muito e já faziam os seus diretos. Em causa estava a suspeita de existir um elemento não credenciado. A ordem não foi acatada e, perante os protestos da comunicação social, a assessora foi confirmar que os jornalistas, fotojornalistas e repórteres de imagem presentes correspondiam, um a um, aos nomes que constavam da lista.

Mais tarde, o diretor de campanha e mandatário nacional quis prestar um esclarecimento sobre o assunto. “É óbvio que não é nossa intenção” que a comunicação social não esteja presente, tratou-se “apenas de uma verificação das credenciais”, disse Rui Paulo Sousa. “Lamentamos o sucedido. Acreditamos na liberdade de imprensa. Muito obrigado a todos e espero que continuem a fazer um excelente trabalho”, afirmou ainda.

Falhar em toda a linha nos objetivos traçados e, ainda assim, clamar vitória na noite eleitoral é próprio (e até tradição) de alguns partidos do sistema. O Chega falhou mas ganhou, como outros antes dele. E Ventura só não foi aos 15% (ficou-se pelos 11,9%), como pretendia, por decisão do povo português e por ter estado sob ataque iminente, justificou. Além do mais, já está na hora de as empresas de sondagens começarem a entender que “não é manipulando os eleitores, enganando o sentido de voto que se faz política em Portugal”. Onde é que já ouvimos isto antes?

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