O país esteve um mês e meio em estado de emergência, mas o fim deste período não significou o fim do confinamento. Nunca em 45 anos de democracia houve um episódio semelhante, com milhares de portugueses a terem de deixar a sua vida em suspenso, à espera que algo invisível pudesse passar.

Tudo o que ficou para trás do dia em que foi declarado o estado de emergência, a 18 de março, ganhou um novo significado e foi exatamente isso o que o Observador pediu a alguns leitores: que memórias têm de momentos recentes que não puderam ser repetidos durante o confinamento? O que é que hoje faz mais falta? As respostas chegaram em fotos, textos e vídeos.

“Antes da pandemia, eu tinha o orgulho e a felicidade de treinar este reguilas do Rio de Mouro. Na foto sou eu a dar indicações e o meu grande amigo Ricardo Pinto do lado esquerdo. Vai saber muito bem voltar à normalidade. Até lá, é fazer a nossa parte!”

“Somos uma família de cineastas brasileiros que vive no Porto há quatro anos e temos dois filhos: Margarida e Joaquim (cinco e dois anos). Sempre evitamos muito as viagens porque nossos filhos, diferente de muitas crianças, odeiam viagens de carro. É sempre muito, muito stressante. Eu que geralmente fico no banco de trás, faço de tudo um pouco para os distrair, mas muitas vezes nada adianta. As viagens acabam por ter o dobro do tempo, porque temos que fazer infinitas paragens para recuperar o fôlego e distrair as crianças.

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A nossa última viagem em família foi em fevereiro de 2020. Fomos à Serra da Estrela, uma viagem como todas as outras: até chegar ao destino, tudo muito cansativo e exaustivo, com o nosso menor de dois anos a reclamar e a chorar muito. Mas vale sempre a pena porque acabamos sempre por nos divertir bastante: vimos e brincamos com um monte na neve, andámos de carrinho de corrimão no museu do brinquedo, fizemos um piquenique no parque, nadámos na piscina do hotel, comemos pizza no quarto. Foram dias maravilhosos.

Essa nossa última viagem ocorreu  uma semana antes dos primeiros casos de Covid-19 em Portugal. E desde que estamos de quarentena, o meu marido já disse: “Deveríamos ter viajado mais”. Estando a nossa família no Brasil e parte nos EUA (a minha irmã mora em Los Angeles), a incerteza de quando nos veremos de novo aperta o coração. Não sabemos quando poderemos viajar para nos encontrarmos com eles novamente.

E acho que, no final, o que sentimos mais falta em tempos de Covid-19 é de: viajar!!!”

“Tenho saudades de ver o sol a levantar-se através das janelas do meu local de trabalho; de sair à rua, entrar no metro e visitar livrarias: tudo sem máscaras no rosto ou medo no espírito.”

“Aqui ficam alguns registos do que verdadeiramente sinto falta – exercício físico ao ar livre e em grupo (aquilo que me permitiu chegar aos 47 anos e sentir-me tão bem). Em São Miguel, Açores, as cercas sanitárias foram levadas ao tal extremo que nem andar de bicicleta podemos. Por isso, tenho muitas saudades dos raide de bicicleta ao amanhecer. A nossa ilha é maravilhosa e os amanheceres valem por tudo, até acordar às 5h45 para um belo passeio.

A nossa Box CrossFIT PDL tem uma comunidade extraordinária, em particular a turma das 7h da manhã. Tenho saudades das meninas, dos abraços, dos festejos, dos levantamentos pesados.”

“Esta imagem do lançamento do balão bem podia ser do Porto em noite de São João. Mas esta fotografia é da última noite do ano de 2019 quando estive pela última vez em Itália. Sim, por lá manda a tradição que na noite de ano novo se lancem balões e disparem foguetes. É o São João deles, sem martelos nem alho-porro.

Ao rever a fotografia deste balão, que subiu bem alto numa noite gelada e que levou consigo todas as resoluções de ano novo – nenhuma delas previa um cenário tão negro e tão incerto como aquele que vivemos –, parece que foi num tempo distante. E só passaram alguns meses. E agora esse tempo parece ainda mais distante.

Planeava regressar a Itália já este verão para conhecer o meu novo sobrinho. Ainda estou otimista, a pensar que talvez consiga ir lá passar o Natal e lançar um balão para saudar o próximo ano. Mas se calhar é só otimismo. Porque se há algo que aprendemos neste período é que não há espaço para planear. A máxima um dia de cada vez nunca fez tanto sentido.

Sem dúvida que o que sinto mais falta é de estar com os amigos a deitar conversa fora numa esplanada a somar garrafas de minis que se vão esvaziando em rodadas. E, claro, de viajar. De ver o por do sol no Alentejo com os amigos. De ir a Itália ver a família, de ouvir os italianos a falar alto e a gesticular com as mãos. De comer uma focaccia acabada de sair quentinha. Espero que tudo isto aconteça num tempo breve.”

“[Tenho saudades de] Poder organizar uma jornada de futebol na praia com amigos e colegas de empresa.”

Demorei mais de uma década a inscrever-me de novo numa competição federada de voleibol. Entrei a meio do campeonato em 2018/19 e julgava que iria fazer a época inteira de 2019/20 pelo Clube PT. A Covid-19 atrapalhou-me os planos. O campeonato terminou no início de março. Sem campeão, sem data de regresso.

Este foi um dos últimos jogos que fizemos para os Campeonatos de Lisboa da Fundação Inatel, em Fevereiro. Nenhuma de nós imaginava que não voltava a vestir o equipamento, não voltava a tocar na bola, nem a festejar um ponto, abraçadas, no centro do campo. E é disso que tenho mais saudades. De festejar em equipa. Felizmente, este desporto tem a versão na areia.

“Sem dúvida, isto: visitar a casa dos avós/bisavós. Conviver sem receios.”

“Esta foto foi tirada no último piquenique a que fui, antes de o estado de emergência ser decretado. Pode não parecer muito, mas estar com os meus amigos, ao ar livre, sem grandes luxos ou preocupações é quando estou mais feliz. Fica o desejo de o poder voltar a fazer, em breve”.

“De viajar. Lembrar que a nossa Casa tem muito mais divisões do que aquelas pelas quais passamos a maior parte da nossa vida…”

“Um abraço de mãe e filho. O meu pai e a minha avó.”

“Algumas fotos que tirei como fotógrafo aficionado de algumas atividades de rua que dificilmente se fariam nesta fase da pandemia.”

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Um jantar com amigos, uma ida à praia ou uma viagem para o outro lado do mundo. As fotos que se seguem não vieram acompanhas de descrição, mas bastam-se a si mesmas para nos fazer lembrar de uma forma de estar suspensa pelo confinamento.

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