“Lamento profundamente a não comparência a estas eleições por parte do meu partido, o PS, que assim contribuiu para dar vitória ao centro-direita.”

Esta é uma frase que Ana Gomes já tinha dito na declaração inicial, onde recorreu ao facto de estar ao lado de Isabel Soares, filha de Mário Soares, para pedir aos militantes socialistas que ajudassem a direção do PS a pôr a mão na consciência por ter apostado na diluição de fronteiras entre a esquerda e a direita. Que é como quem diz, por terem apoiado o candidato da direita, deixado o socialismo a descoberto.

Essa diluição de fronteiras “não serve a democracia”, disse Ana Gomes, que se mostrou preocupada pela ascensão daqueles que “querem destruir a democracia” e que “tantos votos tiraram ao PSD e ao CDS”. A referência era a André Ventura que ficou pouco mais de 1 ponto percentual abaixo de Ana Gomes e que, no seu entender, foi buscar muitos votos ao eleitorado dos dois partidos da direita democrática. Um erro, portanto. Que seria tanto maior se a sua candidatura não tivesse entrado em cena.

Se eu não tivesse estado nesta disputa estaríamos hoje a lamentar ainda mais a progressão da extrema-direita”, disse no discurso de final de noite, já depois das 23h, ao lado de Paulo Pedroso, Isabel Soares, Ricardo Sá Fernandes, Rui Tavares, do Livre, e André Silva e Inês Sousa Real, do PAN.

Ana Gomes fez a campanha quase sem PS na estrada. Aqui ou ali foram aparecendo alguns autarcas, dois ou três deputados, e históricos como Manuel Alegre, João Cravinho ou Francisco Assis. Pedro Nuno Santos e Duarte Cordeiro apareceram no fim, mas não no terreno. Na sala do hotel Myriad onde decorreu a noite eleitoral, foi igual. Mais PAN e Livre do que PS, pouco ou nenhum Governo, nenhum membro da direção socialistas.

A candidata esteve toda a noite no 15º andar do hotel Myriad, com o núcleo mais próximo, enquanto alguns apoiantes se iam distribuindo por uma sala lateral. Na sala onde estavam os jornalistas, reinou o silêncio. Nem ecrãs de televisão, nem nada. A noite foi de tensão, e foi preciso chegar às últimas freguesias contadas para Ana Gomes dar o salto face a André Ventura, que esteve quase três horas em segundo lugar. No final, Ana Gomes subiu ao palco para admitir o falhanço por não ter chegado mais longe — e ter ido à segunda volta — mas não a culpa.

As contas são de Ana Gomes, que sempre foi apologista da geringonça 1 e da geringonça 2.0: se há um ano e pouco os partidos da esquerda somaram cerca de “dois terços dos votos” nas legislativas, agora ficaram muito aquém, com apenas cerca de 20%. Problema: esquerda dispersou quando devia ter unido.

Os partidos à esquerda preocuparam-se com as suas próprias agendas em vez de convergir e assim concorreram para dar vitória ao candidato da direita. Não estivesse no terreno a minha candidatura e acabavam a fazer o jogo  da extrema-direita, permitindo elevá-la à condição de alternativa”, disse.

Ou seja, depois de Costa, a culpa é também do Bloco de Esquerda e do PCP, que não quiseram convergir em torno da sua candidatura — que era “a mais bem colocada para lograr essa convergência”. “Eu estive sempre disponível, não houve interesse, e os resultados estão aí à vista”. Os recados estavam dados.